Os gravetos da lembrança (1)

Eu soltei as represas da inspiração, primitivamente iletrada e inculta, a encher de poesia as páginas do caderno de aritmética. Com o apoio de Aidenor Aires

Gabriel Nascente

Achtung! Sai pra pandemia. Eu viro a cabeça e abro o fichário das minhas lembranças. Ufa! E puxo a bobina do tempo para trás, na dimensão de outros tempos.

Há pessoas que odeiam o passado. Ao contrário de mim, que o carrego iluminadamente aceso, no presente, como rúbido relicário de preciosas experiências; se foram amargas, decepcionantes, ou robustas em momentos de beleza, não importa. Importa o existir dele, o passado, construindo a viagem dos janeiros e do tempo. Pois, no lugar onde estou, serei sendo o que fui naquilo que sou: um pedaço do pó, nas mãos do universo. “Mundo, mundo, vasto mundo”, quem sou eu, Drumonnd, da poesia dos meus vinte anos?

Já venho eu de volta, nostálgico outra vez, exumar as peripécias de minhas anarquias de estudante da Escola Técnica de Goiânia, dos anos 60, quando cursava o Ginásio Industrial. O poeta Aidenor Aires, meu companheiro de classe, vivia declamando “Navio Negreiros”, de Castro Alves. Eu achava aquilo um saco, para não dizer exibidagem de gente metida a intelectual, decorador de versos. Derrapei-me, equivocado, portanto, ao alimentar-me de tão falsa impressão, pois o moço sertanejo de Riachão das Neves, Bahia, era ali, triscado em mim, o anjo emissor de poesia, nas culminâncias de um talento poético invejável.

Durante quatro anos estudamos junto o Industrial de Aprendizagem, coincidentemente nós optamos pelo curso de Aparelhos Elétricos e Telecomunicações. E eram os nossos mestres, daquelas aulas práticas, os professores Jorge Félix de Sousa (engenheiro), de Desenho Eletrotécnico; e Francisco Lobo, na cadeira do ensino de Eletrônica. Este foi quem nos ensinou a fabricar micro-rádios a pilha, e a consertar eletrolas, rádios e aparelhos de televisão. O Aidenor não era chegado àquela coisa de estudos tecnológicos não; preferia amoitar-se, sempre que escapava entre as prateleiras de livros da biblioteca etefegeana.

Aidenor Aires e Gabriel Nascente: poetas | Foto: Reprodução

Agora, passado mais de meio século, a lembrança me faz confessar um particular de imenso conteúdo cultural e histórico. Foi por intermédio do poeta Aidenor Aires que eu adentrei, pela primeira vez, os portais de uma biblioteca. E já éramos amigos, em assíduas confissões, que ondulavam do seráfico ao demoníaco, estraçalhando todo tipo de assunto.

E fico eu cá comigo me alvitrando. Seria daquela iriante convivência a progênie de minha paixão pela poesia? Ou teria eu me descoberto ao redigir a minha primeira redação, valendo nota como prova de Português? Penso: de ambas as circunstâncias. Uma mão iluminou a outra. E eu soltei as represas da inspiração, primitivamente iletrada e inculta, a encher de poesia as páginas do caderno de aritmética. Às ocultas, o aludido recitador de “Vozes D’África,” também faiscava a estrela inspiradora de Orfeu, escrevinhando os seus versos, aos embalos da verve metafísica.

Eu não sabia. E, no entanto, um vate existia, bem ali, junto a mim, na primeira carteira à minha direita. Dito e fato, ainda me lembro: curiosamente, ele — o Nonô — escrevia, todo elegante, naquela fleuma machadiana de literato erudito, visto que utilizava uma bela caneta tinteiro, de pena folheada a ouro, da qual, numa tarde, durante o recreio, eu vi nascer estes versos, que memorizei para sempre.

É possível que nem o próprio Aidenor tenha guardado-os. “Veio o pássaro molhado, / e atirou lágrimas e dores/ no rosto dos desprezíveis homens.”

Gabriel Nascente é cronista do Jornal Opção.

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