Os “Cinco Magníficos” de Cambridge: comunistas, homossexuais e espiões – parte 1

O quadro em que tudo se desenrola é a ascensão e solidificação no poder de Hitler e Mussolini. De forma simplificada, esses espiões viam-se a si mesmos como tendo sido recrutados pelos soviéticos para “lutar contra o fascismo ascendente”. Obviamente que trair a pátria, nesse processo, para eles, era um mero detalhe

Os cinco espiões de Cambridge


Frank Wan
Especial para o Jornal Opção

Conhecidos sob diversas nomenclaturas, os “Cambridge five” (Os cinco de Cambridge), Kim Philby, Donald Duart Maclean, Guy Burgess, Anthony Blunt e John Cairncross, é um grupo  de espiões duplos que pertenceram ao topo da hierarquia dos serviços secretos de Inglaterra. São o produto da mais alta educação que a Inglaterra da época podia fornecer, todos pertenciam à elite social e profissional e alguns são filhos da nobreza inglesa. Entre 1940 e 1951 tiveram acesso às informações mais sensíveis do estado inglês. Entraram, todos juntos, num jogo de vai-vem extremamente perigoso em que entregavam segredos à União Soviética e forneciam informações para o estado inglês.

Na Inglaterra, são conhecidos pelos “Cambridge Five” ou pelos “Cambridge Spy Ring”. O termo “Cambridge” aparece na nomenclatura porque foram todos recrutados pela União Soviética durante os anos que estiveram na University of Cambridge. Recrutados pela antiga NKVD e posterior KGB, aparecem nos relatórios e descrições em russo como os “Cinco magníficos”. Em torno deste tema consegue-se estabelecer alguns factos, mas quase tudo está envolto em camadas espessas  de mistérios: por um lado poder-se-ia pensar que Ióssif Stálin se beneficiou muito com as informações fornecidas, por outro, quando se vê as opções tomadas quer por Stálin, quer pela Inglaterra (e por outros), as informações que correram tiveram pouca influência sobre os acontecimentos – convém não esquecer que, no âmbito militar e político, nesta época, as informações que provinham dos serviços de inteligência não tinham o peso que ganhariam mais tarde, acreditava-se mais na força bruta das armas.

O que aconteceu realmente? Qual a sucessão de acontecimentos? Como conseguiram as coisas mirabólicas que conseguiram? Que métodos utilizaram? O que realmente os motivou? Penso que nunca teremos respostas completas, mas não restam dúvidas que os “Cinco magníficos” ficam nos anais da história como uma das melhores histórias de espionagem. A arte nunca conseguirá imitar os sucessivos absurdos que compõem a vida.

A história dos cinco está ligada a Cambridge e ao Partido Comunista Inglês.

O Partido Comunista Inglês foi fundado em 1920 e tomou o nome de “Comunist Party of Great Britain”, resultou da fusão de pequenos partidos marxistas. Durante a Primeira Guerra Mundial e a Revolução Vermelha, o partido angariou muitos apoios de muitas comissões, não era um partido de grandes dimensões e organização, como o francês ou italiano, mas estava muito implementado entre muitos setores da sociedade inglesa – de forma misteriosa, o marxismo sempre foi muito atractivo para muitos membros da “nobreza” e, claro, para os intelectuais.

As eleições de 1924 tinham sido ganhas pelo Partido Trabalhista com Ramsay MacDonald que ficou no poder muito pouco tempo. Seguiram-se medidas de austeridade fortíssimas com violentos cortes orçamentais que vão dar lugar a uma Greve Geral de 1926. É neste ambiente que o economista inglês e agente soviético Maurice Dobb cria a primeira célula comunista em Cambridge. Todos sabiam que Dobb recrutava entre os alunos da faculdade alunos que mais tarde seriam agentes soviéticos.  Com o tempo e o agravamento da situação econômico-financeira  a célula cresceu,  o Crash de 1929 fez o efeito final sobre as mentes: o capitalismo estava falido como modelo econômico e o comunismo era a alternativa.

Um por um, o grupo dos cinco vai acabar reunindo: Kim Philby (nome de código: Stanley), Donald Duart Maclean (Homer), Guy Burgess (Hicks), Anthony Blunt (Tony Jonhson) e John Cairncross (Liszt).

O número cinco é mais simbólico que real: o famoso coronel do KGB Oleg Gordievsky, também ele agente dos Serviços de Inteligência ingleses, entre outros, forneceu listas diversas com nomes fictícios e reais. Todos os livros de Gordievsky são extremamente interessantes, basta lê-los sempre cum granus salis já que, no fim da vida, assegurou uma confortável posição para si e para a sua família colaborando  caninamente com a inteligência americana e inglesa.

De uma forma elíptica, sem entrar em detalhes labirínticos  argumentativos de que , estou certo, estas mentes seriam capazes, todos concordavam que o “sistema capitalista” era impotente face à crise que estava instalada e que as democracias seriam esmagadas pelo fascismo crescente e que, já sei que alguns olhos se revirarão aqui, só a URSS seria capaz de parar esta avalanche fascista. Obviamente que este caldo é regado por doses maciças de idealismo de que os “acadêmicos” são sempre pródigos.

Comecemos pelo princípio, portanto, por Arnold Deutsch. Por muitas fontes que se consultem é difícil perceber qual é a nacionalidade de Deutsch. Uma coisa é certa: era espião soviético e foi ele que recrutou Tim Philby dando início a todo o processo. Arnold Deutsch, e todo o processo inicial, estarão sempre desfocados pela bruma envolvente.

Deutsch está ligado a Viena de Áustria e toda a elite inglesa da época(e até europeia) era atraída pelo ambiente filosófico e social que se vivia em Viena. Na verdade estava em curso uma espécie de Woodstock à europeia, uma revolução sexual mais ou menos controlada. Os cinco magníficos tinham uma visão “revolucionária”, não apenas política e social, mas também sexual. Vejamos as listas daquilo que erradamente , no meu tempo, se chamava “opções”: dois eram gays, Burgess e Blunt, Maclean era bissexual, Philby e Cairncross eram heterossexuais insaciáveis.

Para quem tenha conhecido, por dentro, os ambientes de Cambridge e Oxford sabe que o termo “ring” traduz facilmente os elos que se estabelecem naqueles meios. No fundo e na prática, bastava recrutar um elemento que os outros capilarmente se juntariam.

Sem entrar em detalhes históricos, o quadro em que tudo se desenrola é a ascensão e solidificação no poder de Hitler e Mussolini. De forma simplificada, os cinco magníficos viam-se a si mesmos como tendo sido recrutados pelos soviéticos para “lutar contra o fascismo ascendente”. Obviamente que trair a pátria, nesse processo, para eles, era um mero detalhe.

Lendo exaustivamente as declarações, livros e relatos de todos vê-se coisas estonteantes: nunca algum se chamou a si mesmo de “soviético”!!! quando se lhes é perguntado qual o objetivo das suas ações todos respondem com o bordão da época “trabalhavam para a paz”… trabalhavam para a paz porque, por exemplo, viam-se “simplesmente” como inimigos de Adolf Hitler – o facto de, para lutar contra o ditador alemão, passarem informações a um regime totalitário era totalmente desvalorizado.

(Continua)

Frank Wan vive em Portugal. É ensaísta, poeta, professor e tradutor.

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ADALBERTO DE QUEIROZ

Aguardo a continuação, Frank.

Frank Wan

Obrigado, Adalberto, grande abraço