Obra de Frei Confaloni pode ajudar a redefinir a memória coletiva latino-americana

Para a pesquisadora cubana Daylalis González Perdomo, Confaloni desenvolveu um estilo único, que pode ser definido como simbolismo-expressionista

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No dia 23 de janeiro de 2017 foi comemorado, com uma missa na Igreja São Judas Tadeu, no Setor Coimbra, em Goiânia, o centenário do artista plástico italiano, radicado em Goiás, Frei Nazareno Confaloni, morto em 1977. Frei Confaloni foi um dos mais importantes nomes do campo das artes plásticas que se formou no Brasil nos anos 1950. Nascido em 1917, com o nome de Giuseppe, na vila medieval Grotte di Castro, Itália, Confaloni desde muito jovem começou a se interessar tanto pela vida religiosa quanto pela arte.

Ingressou na Ordem dos Dominicanos aos 22 anos, em 1939, mudando então o nome secular, Giuseppe, para o religioso: Nazareno. Nessa mesma época, o Frei já praticava desenho, pintura e xilogravuras. Porém, sua incursão efetiva no aprendizado mais profundo das técnicas das artes plásticas se deu entre os anos de 1940 e 1941, em meio à Segunda Guerra Mundial, quando começou seus estudos na Academia de Belas Artes de Florença. Foi nessa instituição que Colfaloni entrou em contato com artistas do modernismo italiano, como Primo Conti, e outros, remanescentes do futurismo e de outras correntes, como o expressionismo. Aliás, foi sem dúvida a técnica expressionista – como veremos mais adiante – a que mais forneceu a Confaloni a poética imagística adequada à sua personalidade, que era um amálgama do homem religioso e místico com o artista preocupado em expor as mazelas sociais do interior do Brasil, entre os anos 1950 e 1970.

A vinda de Confaloni para Goiás deveu-se a um convite, feito em 1950, na cidade de Roma, por Cândido Penso, então bispo da Prelazia da Ilha do Bananal. Penso convidou o Frei, que já era a essa altura conhecido por sua arte sacra, para pintar afrescos na Igreja do Rosário, na Cidade de Goiás. No segundo semestre de 1950, Confaloni já estava em Goiás, e no ano seguinte deu início às obras. Em 1952, radicou-se em Goiânia, numa época em que a cidade – que já nasceu, na década de 1930, sob a contradição do tradicional e do moderno – começava a ficar mais densa em termos populacionais, e mais visível, em termos nacionais, por ser a capital de Estado mais próxima à então embrionária Brasília. Em Goiânia, Confaloni não apenas desenvolveu a maior parte de sua obra como também foi um dos pilares da institucionalização do ensino de artes plásticas no Centro-Oeste, com a criação da Escola Goiana de Belas Artes, junto com Luís Augusto Car­mo Curado e Henning Gustav Ritter.

Em memória da importância que teve a presença do Frei em Goiás, além da missa do dia 23, no dia 30 de janeiro foi inaugurada, a partir de uma iniciativa conjunta da Pontifícia Universidade Católica de Goiás (PUC-GO) e da Ordem dos Pregadores (Frades Dominicanos), uma exposição especial das obras de Confaloni, que permanecerá aberta ao público até 30 de março de 2017, na Galeria da PUC-GO, situada na Área III da referida universidade, no Setor Universitário, em Goiânia.

O catálogo de apresentação da exposição, chamado “ABC Confaloni: Modernidade inaugural e outras obras”, traz um ensaio assinado pela pesquisadora cubana Dayalis González Perdomo, especialista na obra de Confaloni. O título do ensaio (traduzido por Mara Publio de Souza Veiga Jardim e revisado por Lêda Selma de Alencar) é “Pelos Ca­mi­nhos de Frei Nazareno Confaloni: Confaloni no contexto”. Além de expor a trajetória pessoal e artística do Frei italiano, tanto em sua terra natal quanto em Goiás, Perdomo ressalta que a razão curadorial do seu texto é a defesa da hipótese de que Confaloni desenvolveu um estilo único que pode ser definido como “simbolismo impressionista”, e que esse estilo foi resultado da harmonização de sua vida espiritual e mística com o contexto social de Goiás, de modo especial, e da América Latina, de modo geral. Posto que o período em que sua obra foi produzida foi permeado pelos vários regimes militares e suas respectivas tensões sociais que pulularam entre nós latino-americanos. Vejamos um trecho do ensaio:

“[…] a produção visual do Frei Confaloni e seu estilo único, resultado harmônico de sua experiência mística e espiritual, como missionário religioso, expressada na arte, que eu gostaria de definir como simbolismo-expressionista, e a criação, a natureza, o homem e seus múltiplos caminhos, seus motivos de inspiração, tanto para os temas sacros, como profanos, estilo ao qual chegaria depois de anos de experimentação por outros ismos da arte moderna europeia, porém, mais afinado com as correntes modernistas latino-americanas figurativas de marcado acento social. Esse foi o resultado de sua convivência direta com a realidade econômica, política e sociocultural do Centro-Oeste do Brasil, entre os anos 1950 e 1970.”

Perdomo, para fundamentar sua hipótese, recorre às fontes europeias do expressionismo, notadamente encontráveis na figura do norueguês Edvard Munch, o autor do famoso “O Grito”, e precursor desse estilo. Sabe-se que Munch também tinha seus lampejos espiritualizados e místicos e, por isso, também está associado à tradição simbolista – ainda que à primeira vista as duas correntes, Simbolismo e Expressionismo, sejam diametralmente opostas. Como bem observa o historiador da arte Giulio Carlo Argan, a tendência espiritualista de Munch o levou na direção do Simbolismo, mas de modo invertido, isto é: “não é um processo de transcendência, de baixo para cima, e sim um processo de cima para baixo, do transcendente para o imanente. O símbolo não está além, mas dentro da realidade” (“Arte Moderna”, [trad. Denise Bottmann], Cia das Letras, 1992. p. 215).

Ao que parece, Perdomo tem uma intuição semelhante a respeito de Confaloni. A pesquisadora cubana diz, na página 61 do ensaio: “Sua última série de Madonas é puro e rasgado expressionismo-simbólico, resumo de sua vida, intensas e dramáticas como tudo nele. Olhares penetrantes, de mulheres eternas, que de um mundo estranho parecem nos advertir do perigo, são descompostas, cadavéricas, encerram em uma só imagem a vida e a morte, mas, em meio ao horror e à feiúra são (de maneira incompreensível) atraentes e cândidas, o resumo do feminino e do virginal, do sagrado e do profano, do terreno e do divino.”

A descrição das madonas de Confaloni, em seu estilo “expressionista-simbólico”, feita por Perdomo nos conduz mais uma vez ao estudo de Argan sobre o Expressionismo, quando o historiador italiano diz que esta escola de arte é a que detém a “primeira poética do feio”. O “feio porém não é senão o belo decaído e degradado. Conserva o seu caráter ideal, assim como os anjos rebeldes conservam, mas sob o signo negativo do demoníaco, seu caráter sobrenatural”. É assim em Munch e em Confaloni. E há que se ressaltar que o Expressionismo também foi, ainda segundo Argan (na página 241 do livro citado anteriormente), o estilo que também se pôs a denunciar os problemas da sociedade industrial:

“[…] A sociedade industrial se debate sem saída na alternativa entre a vontade de poder e o complexo de frustração: apenas com a condenação total do trabalho não-criativo imposto à humanidade é possível brotar uma nova civilização. Somente a arte, como trabalho criativo, poderá realizar o milagre de reconverter em belo o que a sociedade perverteu em feio. Daí o tema ético fundamental da poética expressionista: a arte não é apenas dissensão da ordem social constituída, mas também vontade e empenho de transformá-la. É, portanto, um dever social, uma tarefa a cumprir”.

Confaloni teria tentado aplicar essa premissa expressionista no contexto da sociedade a um tempo tradicional e modernizador de Goiás? Certamente. E de forma intrincada à sua vida íntima, de homem religioso. Essa característica, como ressalta Perdomo, na conclusão do seu ensaio, pode fazer com que os futuros estudos sobre a obra de Confaloni venham a redefinir o eixo da história e da memória da América Latina.

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Adalberto De Queiroz

Um estudo à altura de Frei Confaloni. Notável, dileto Cláudio F. Ribeiro.