Obra de Arnaldo Antunes é compêndio de infinitudes

O músico-poeta fez show em Goiânia na semana passada e deixou uma questão:
para onde apontam os dedos de seu trabalho, que vai muito além dos palcos?

Arnaldo Antunes é desses artistas que incansavelmente apontam que o homem pode ser algo além daquilo que demonstra ser

Arnaldo Antunes é desses artistas que incansavelmente apontam que o homem pode ser algo além daquilo que demonstra ser | Divulgação

Fernando Marinho
Especial para o Jornal Opção

A obra de um artista, assim como certo corpo descrito pelo poeta, existe e pode ser pega. É suficientemente opaca para que se possa vê-la. Mas quais são suas extremidades? Para onde apontam seus dedos? Quais cheiros ela exala? Se cortada, ela espirrará quais líquidos vermelhos? As respostas são vastas e a explicação dessa infinitude está justamente na verdade que, feito aquele “O cor­po”, de 1999, a obra de um artista tem alguém como recheio.

Compreender a obra de um artista feito Arnaldo Antunes não é prazer curto, mas é dessas brincadeiras que transformam o leitor durante a trilha. A primeira decisão a tomar é esquecer que existem poetas, músicos, artistas plásticos, performers e toda outra sorte de divisões que colocam o artista em um nicho de pureza. Arnaldo é sujo de deslimites. Nunca entendeu ao certo o que é ser algo menor que artista. Tam­bém não reconhece a dita boa arte, a al­ta cultura. Tão pouco faz obras “de mas­sa”, dessacralizadoras da arte, co­mo era a bandeira dos primeiros modernistas.

De fato, não há uma bandeira quando se olha para os 23 livros e coletâneas; 23 discos, das suas carreiras: solo, do grupo Titãs e em os Triba­lis­tas; para as suas diversas parcerias; inúmeras produções plásticas; gráficas; di­gitais; de performances; ou de caligrafia. Mas então o que se vê quando o­lhamos para o compêndio geral Ar­nal­do Antunes? O que exala dessa obra-corpo?

A primeira das cores que apresentaremos aqui é a da negativa. Arnaldo Antunes é aquele que não é. Em 1987, em parceria com os outros integrantes do Titãs, Arnaldo Antunes bradava “não sou brasileiro, não sou estrangeiro”, “nenhuma pátria me pariu”. Nove anos depois, já em carreira solo, o refrão da faixa seis do disco “O silêncio” dizia “somos o que somos, inclassificáveis”. Também o poema introdutório do livro “n.d.a.”, de 2010, verseja que “nenhuma das alternativas me atrai”. Essas três paradas na obra do artista paulistano sugerem a trilha da negativa para quem pretende analisar sua produção, trilha que ele mesmo indica ao fim do poema:


a que nega
o resto
ao redor
resta
e cega
me leva
pelo cor
redor
à porta
(certa, in
certa, não
importa)
da saída

Ao lado dessa extremidade da ne­gativa, que exalta a não classificação, a inexistência de alternativas de rotulação, há nesse corpo da obra outros líquidos que espirram. Entretan­to, feito mãos mesmo, aqui há mais que um ou dois dedos. Ser somente eu nunca foi possibilidade aqui:

não sei
se é meu
ou de mim

o eu
que rima
com fim

talvez
ali
ou além

alguém
seja eu
por mim
Na descoberta do outro que poderá ser eu por mim, Arnal­do se alinha com a constelação que figura Rim­bauds, Bau­de­­laires e Pes­soas. Os ar­tis­tas fundadores da modernidade abriram para nós de cá o caminho para ser o que quer que se queira. O poeta fingidor sabe que eu é outro, ilimitado entre o dândi e o grotesco. Inúmeras vozes líricas já foram criadas por Arnaldo. Basta observarmos, por exemplo, aquela que diz:

“Coisa que acaba. Troço que tem fim. Sujeito. Que não dura, que se extingue. Míngua. Negócio finito, que finda. Festa que termina. Coisa que passa, se apaga, fina. Pessoa. Troço que definha. Que será cinza. Que o chão devora. Fogo que o vento assopra. Bolha que estoura.

Sujeito. Líquido que evapora. Lixo que se joga fora. Coisa que não so­bra, soçobra, vai embora.

Que nada fi­xa. A foto amarela o filme queima em­bolora a memória falha o papel se rasga se perde não se repete. Pes­soa. Pedaço de perda. Coisa que ces­sa, fenece apodrece. Fome que se sa­cia. Negócio que some, que se consome. Sujeito. Água que o sol seca, que a terra bebe. Algo que morre, falece, desaparece. Cara, bicho, objeto. Nome que se esquece”.

A voz lírica do poema Pessoa, pu­blicado em 1993 no livro “No­me”, é uma construção pessimista, impessoal, voz mesmo de dicionário ou coisa definidora qualquer. Não há emoção, sentimentos ou outra dessas marcas de subjetividade clássica. O eu do poema se apresenta como sujeito somente na visão de mundo que encerra seu discurso. Entretanto, é do mesmo artista a canção “O seu olhar”, do disco Ninguém:

Onde a brasa mora
E devora o breu
Como a chuva molha
O que se escondeu

O seu olhar
Melhora o meu

A canção, quase um exemplar lírico tradicional, estabelece duas metáforas para exprimir o efeito do olhar do outro sob o eu, efeito de brasa que aquece e afasta o breu, de chuva que refresca e molha o que se escondeu. Pouca ou nenhuma semelhança com a composição anterior, fria e impessoal.

Outro dedo presente na poética de Arnaldo é aquele que conversa com o passado, recriando possibilidades que a tradição artística fez existir há tempos, mas com uma matiz nova, em clara relação de resgate e inovação. Essa vertente é nítida em In­ferno, poema do livro “2 ou + corpos do mesmo espaço”, criação feita a partir dos dizeres fixados no portão descrito por Dante em sua “Comédia”:

“Lasciate ogni speranza voi ch’entrate”
Aqui a asa não sai do casulo, o azul
não sai da treva, a terra
não semeia, o sêmen
não sai do escroto, o esgoto
não corre, não jorra
a fonte, a ponte
devolve ao mesmo lado, o galo
cala, não canta a sereia, a ave
não gorjeia, o joio
devora o trigo, o verbo envenena
o mito, o vento
não acena o lenço, o tempo
não passa mais, adia,
a paz entedia, pára
o mar, sem maremoto,
como uma foto, a vida
sem saída, aqui,
se apaga a lua, acaba
e continua.

Entretanto, se há em Arnaldo essa conversa com uma das mais clássicas tradições, há também bate papo com o mais popular da cultura, como na declaração de amor publicada no livro “Psia”:

“porque eu te olhava e você era o meu cinema, a minha Scarlet O’Hara, a minha Excalibur, a minha Nastasia Fi­lípovna, a minha Brigite Bardot, o meu Tadzio, a minha Anne, a minha Lor­rai­ne, a minha Ceci, a minha Odete Grecy, a minha Capitu, a minha Cabocla, a minha Pagu, a minha Barbarella, a minha Honey Moon, o meu amuleto de Ogum, a minha Honey Baby, a minha Rosemary, a minha Marlin Monroe, o meu Rodolfo Valentino, a minha Emanuelle, o meu Bambi, a minha Lília Brick, a minha Poliana, a minha Gilda, a minha Julieta, e eu dizia a você do meu amor e você ria, suspirava e ria”.

Então, entre a cultura de massa e o cânone, entre o eu, o outro e o impessoal, da negativa ao lírico declarado, a obra de Arnaldo é corpo de dedos quase infinitos. Não haveria espaço para descreveremos o quão vastas são as direções que eles podem apontar, mesmo porque tal cartografia teria o tamanho daquilo que é o recheio da obra de arte: o homem. Arnaldo Antunes é desses artistas que incansavelmente nos apontam que o homem pode ir além.

Resta-nos ler, ouvir e observar para compreender que, se há função na arte, é a de nos dizer sempre que somos e seremos sempre algo mais do que queremos fixar.

Fernando Marinho é professor e mestrando em Estudos Literários pela Universidade Federal de Goiás (UFG)

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