O som da manhã

Conto frouxamente baseado no poema “Canção Matinal”, de Ruy Espinheira Filho

Edward Hopper, “Quarto em Nova York”, 1932

Eu estava na cama quando ouvi o barulho no telhado. Prestei atenção. Escutei o vento assobiando nas falhas da casa, o farfalhar do quintal, o canto dos primeiros pássaros, e mais batidas acima. Vi uma sombra se movendo além do teto sem forro. Quando o vento batia, um galho da goiabeira tocava as telhas como se fossem teclas de um xilofone. Fechei os olhos de novo. Eu havia prometido no dia anterior que cortaria aquele galho. Mas comecei a beber cedo e, quando finalmente estava disposto a podar a árvore, achei que era perigoso subir numa escada naquela condição. Já fazia um mês que eu prometia cortá-lo. Por um tempo foi interessante lembrar essas coisas, mas o sono não voltava e, depois de me revirar de um lado para o outro, a cama ficou desconfortável e decidi me levantar.

Fui até a janela e abri devagar, vendo a luz pálida da manhã inundando a casa – a cama estreita, a falta de móveis, a poeira. A luz entrando nas garrafas de cerveja tornando-as caleidoscópios. Iluminando o vapor do meu hálito quente. Faz muito frio numa casa de telha-vã, principalmente com o pé-direito alto como aquele e sem paredes internas. A cama ficava no meio do cômodo; a pia e demais coisas de cozinha ficavam encostadas numa parede lateral; noutra parede, meus livros, CDs e LPs, fotografias de família, fitas cassetes de festas infantis, tudo atulhado em caixas. Na última parede apenas a janela e um retrato emoldurado da minha filha, que parecia meio chulo numa parede de reboco exposto. O banheiro ficava lá fora. Fazia muito frio, mas eu estava me acostumando, ou não me importava mais.

Andei descalço pelo caminho de cimento úmido até a casinha fedorenta e urinei em meio a nuvem de mosquitos. Encontrei sobre a pia meus cigarros e isqueiro, e os coloquei no bolso. Eu não tinha espelho. Também não tinha box no chuveiro e precisava pisar numa poça de água que nunca escoava sempre que ia ao banheiro. Voltei pelo caminho de cimento e andei no gramado tomado de ervas até meu carro estacionado no meio do quintal. As plantas suspiravam sob meus pés e aqui e ali garrafas brotavam do capim molhado como uma estranha flora endêmica. Era um Monza bege com uma das janelas quebradas – eu a tapei com um saco de lixo preto e fita adesiva. Me sentei no capô olhando o paralelepípedo de reboco em que estava morando e vi o galho da goiabeira raspando o telhado.

Fechei os olhos. Eu havia dormido pouco, mas estava disposto, sem a dor de cabeça habitual. O coração não palpitava de ansiedade. Ainda não havia feito as contas de quanto do meu seguro desemprego me faltava. Geralmente, acordava pelo meio dia. Era uma sensação esquisita acordar cedo novamente. O cheiro doce de goiaba… pensei que era uma coisa que eu devia tentar guardar na memória, aquela sensação.

Na noite em que briguei com Clara pela última vez foi quando minha filha arrebentou a janela do carro. Eu já havia começado a carregar o porta-malas com minhas coisas – as caixas de livros, músicas, fotografias e fitas cassete. Estava bêbado e gritava que não voltaria jamais. Tive de deixar a garrafa no meio fio para segurar uma caixa com as duas mãos. Então minha filha a apanhou e arremessou no vidro do lado do passageiro. Ela achou que o carro ia estragar se acertasse uma boa garrafada nele.  

Quem me vê dirigindo esse carro não imagina. As mulheres que eu trago para cá não desconfiam do que está envolvido em se morar numa casa concebida nos lobos fumegantes de um arquiteto demente. “Você disse que era médico”, eu já ouvi. “Eu já falei que meu programa é duzentos reais”, eu já ouvi. “Você não tem gosto para decoração”, eu já ouvi. O cancelamento do seguro, as notificações judiciais, as ameaças ao telefone, o choro da filha são insuspeitos por quem me vê andar em um carro desses.

Quando abri os olhos novamente, fiquei impressionado com a fidelidade da terra que habitava. Vi o pé de romã coberto de orvalho, as frutas brilhando como besouros imensos. A copa das árvores atrás do muro dos fundos. O cheiro de goiaba igual ao das tardes imensas de minha infância, e então pensei que, se eu fora feliz em uma casa de ruína, a minha filha também podia encontrar refúgio num quintal bem cuidado. Sentia-me na verdade muito tranquilo. Eu ia ser uma figura presente e ponderada. Estava satisfeito por me ver claramente do ponto de vista dela, ao final de um mês de inconsciência. Ela ficaria bem, concluí. Só tinha quatro anos. Afinal, ponderei, a vida é assim mesmo, não é? Joguei fora o cigarro. Dali a pouco, acendi outro.

Fui até os fundos da casa e apanhei um serrote e uma escada. Armei a coisa e subi os degraus bambos ainda sentindo que tinha chegado a uma conclusão, embora não me lembrasse exatamente qual. Os pensamentos haviam estourado como uma bolha de sabão, mas não importava mais porque agora eu estava podando a árvore, serrando o galho e o arremessando ao pé da goiabeira. Depois, peguei um saco de lixo preto e comecei a catar as garrafas do jardim, como quem colhe mangas. Tilintavam no fundo do saco, mas isso também não me causava a irritação de sempre. Eu pensava que dali a pouco iria ao mercado comprar mais algumas cervejas, e ia ligar para Clara e exigir que trouxesse minha filha para ver o pai, e iríamos adotar um cachorro, e remover aquelas ervas, e regar os pés de fruta. Pensei nessas coisas enquanto catava as garrafas e o sol subia, me fazendo suar na manhã fria.

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