O silêncio dos calabouços

Foto: Artchive

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Leonardo Teixeira

Isolada nos recônditos dos matagais, entre os vales do Pitumbal, onde estourava es­treito do aquífero um açude na­tural, um casarão secular imperava majestoso. A casa era avarandada por grossas pilastras, suas paredes de pedras foram assim concebidas para não sucumbir aos canhões de uma futura e possível guerra. O avô Oliveira acreditava que a loucura do mundo lá fora viesse atracar em solo brasileiro depois da grande guerra. Então reuniu as famílias lo­cais com agregados e colocou em prá­tica seu plano furtivo de sobrevivência. Uma casa repleta de mistérios. Robusta como um forte, cheia de porões, sótãos, vãos labirínticos, mas­morras, calabouços e passagens secretas.

A guerra não veio, mas o velho O­li­veira se deteriorou com os pigarros de sua velhice, não sem antes fazer com que seu filho jurasse que não o enterraria, talvez por nojo dos vermes da terra. O velho queria deixar sua caveira mantida num daqueles silenciosos calabouços escondidos. Os lugares mais sinistros da casa não serviam para nada nesses tempos de paz moderna, salvo a alegria de algumas crianças corajosas e forasteiras, que depois pararam de aparecer.

O filho Oliveira encasquetou que toda linhagem de seu sobrenome não voltaria ao pó da terra, quando não mais estivesse disponível a essa vida excessiva no mundo. Quando rogou esse seu voto ao velho, ele se foi em paz com seus pensamentos, ficando naquele instantâneo momento com a mente vazia. O corpo debilitado deixou de sentir as dores que os últimos respingos de vida ainda lutavam para se manter, até afrouxar de vez e se esvair a sensação da realidade, decretando a falência de suas funções físicas.

O Oliveira filho desceu com os restos carnais do seu pai pelo porão central, abriu a porta de um armário, girou a parede e entrou pela passagem secreta num corredor estreito. Chegou numa saleta sombria onde havia depósito de grossos tijolos, areia, cimento e materiais de construção. Abriu um alçapão escondido sob um tapete que ficava no meio do cômodo. Teve dificuldades para descer com o peso de seu pai, escada abaixo, num espiral sinistro e escuro, tendo a vista clareada por um fino feixe da lanterna, naquelas profundezas abissais daquele buraco medonho.

Deixou-o num cubículo que nunca tinha visto, com cerca de dois metros cúbicos. Na entrada, a grade mostrou ser aquilo tudo o cafofo de uma penosa cela, de ar rarefeito, paredes grossas de pedra, enlodadas e úmidas, escuras e frias, e ali no solo algumas correntes, grilhões e cadeados. Deixou seu pai ali, ao lado de outros esqueletos esquálidos e contorcidos pelo tempo, alvos como a neve, a clarear aquela escuridão tenebrosa, mas sabendo que os vermes e organismos da podridão o encontrariam, aonde estivesse escondido, para que se juntasse aos parceiros de ossos, depois de ser consumida toda a carne do corpo imprestável.

Um repentino tilintar de correntes ecoou um urro fantasmagórico. Podia-se ouvir o barulho, os gritos abafados naquele silencioso calabouço. Como a lanterna falhava pelas pilhas fracas, o Oliveira filho deixou aquele lugar rapidamente, com seus agonizantes gemidos dos ventos. Fechou o alçapão, tampou-o com o tapete, passou pela passagem e regressou ao porão. Saiu de lá com a sensação do dever cumprido. Acabou se fechando em seus pensamentos contritos, tendo pesadelos noturnos terríveis. Esse filho Oliveira era uma retranca desmedida sem sentimentos. O homem era fechado e sisudo, e poucas vezes revelava seus dentes em sorrisos sociais. Era exatamente o oposto do seu outro irmão, o Oliveira filho caçula, a quem os pais e irmãos o chamavam simplesmente de Oliveirinha. Essa rapa do tacho vivia pregando peças nas pessoas, rindo alto de tudo e de todos, incluindo aí seu sério irmão Oliveira, que passou a nutrir profundas mágoas pelo irmão mais novo. Ele não levava nada na brincadeira e criava um péssimo rancor, sempre lembrando desses episódios fatídicos e os alimentando como se fossem seus filhos. Esse filho Oliveira era mesmo um pretensioso museu, que vive sempre do passado, criando um monstro dentro do coração envenenado. Com pés de caipora, vivendo sua vida presente toda enlaçada por esses ocorridos magoados. Tudo se sedimentava no seu coração como tijolos de uma parede bloqueada. Cada parte uma jocosidade pejorativa do irmãozinho. E ali construiu seu mundo repleto de obstáculos como os muros e paredes daquele casarão da família Oliveira.

Eis que o filho Oliveira mudou repentinamente seu comportamento. Sentindo-se injuriado constantemente pelas lembranças daquelas traquinadas, jurou vingar-se de seu irmão caçula. Porém, resolveu mudar seu modo de agir, passando a mostrar os dentes em sorrisos fáceis e mais constantes. Aplicou a arte dos tapinhas nas costas e aprendeu a copiar algumas das brincadeiras do irmão. Resolveu então cevá-lo para que se sentisse confortável e amistoso na presença do dileto consanguíneo. Mal sabia o rapaz que o sorriso do irmão Oliveira nascia sempre da ideia constante de acabar com a sua vida. Mas além de liquidar com sua existência, deveria ainda impedir que seus restos mortais retornassem ao pó da terra, conforme promessa ao velho pai Oliveira. Tudo isso de forma sombria, oculta, sem testemunhas e provas para usufruir de sua liberdade impune.

Foto: Artchive

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Eis que numa dessas alvoradas mansas badaladas por suaves sinfonias de pássaros, em pleno dia de feriado junino, o filho Oliveira se aproveitou da solidão do casarão e levou seu irmão Oliveirinha para ajudar a decifrar um dito mistério de estranhas tumbas escondidas naquelas passagens secretas. O filho Oliveira perguntou se o rapazote tinha peito para se aprofundar naquele breu, e o jovem disse que dominava tudo por ali quando era criança. O irmão então prosseguiu com seu sórdido plano e cumpriu a primeira etapa na ausência de testemunhas. Levou consigo uma pá e alguns pedaços de pau, pedindo ao garoto que levasse um garrafão de água e que fosse na frente com a lanterna para iluminar o caminho. Passaram pelo porão central, abriram o armário, girou a parede secreta e entraram naquele corredor estreito. Oliveirinha disse que a passagem acabava ali e não havia mais nada, se recordando também que há alguns anos ali era um lugar limpo, com alguns mantimentos e provisões. Definitivamente não tinha restos de construções nem aqueles materiais para reforma.

“Vejo que o mano está enganado!”, disse o mais velho (afastando o enorme tapete do meio da sala). A­briu o alçapão e continuou: “é aqui que devemos descer. Vá na frente!” O Oliveirinha acatou a or­dem e desceu aquelas escadas escuras e espiraladas, dizendo que nunca entrou aquele local. “Será nossa fonte de alegria e descoberta!”, concluiu o sisudo. No meio dos degraus o odor fétido de seus pais impregnaram as narinas. O filho Oliveira disse que era a vontade do seu velho que se cumpria. O novato tinha que suportar aquela prova de resistência. Lá embaixo havia uma ante sala enclausurada e úmida. Depois dela, algo como se fosse uma masmorra subterrânea. Então passaram pelas grades e o jovem percebeu alguns vultos claros como ossos.

A pá fez “póf”. Um barulhão abafado como se tivesse rebatido um melão jogado pelo ar. O rapaz caiu desacordado com um açude sanguíneo na cabeça. Um filete de estreito riacho escarlate desceu pela fronte até se empoçar nos olhos, e dali se despedir em gotas pelas narinas até se espatifar em manchas estouradas no chão. O filho Oliveira cuidou logo de prender o irmão naqueles grilhões pesados, atracando-o em cadeados e correntes. Em breve retornaria a consciência, mas ainda ficaria desnorteado pela pancada. Seu algoz buscou os materiais de construção, carregando pedras, tijolos, areia, cimento e a água trazida pelo jovem, deixando aquele lugar para mergulhar num ofurô instalado num luxuoso banheiro lá em cima, no canto de um dos quartos da casa. Rompeu os sais de banho e se lavou dos respingos de sangue.

O filho Oliveira voltou ao cubículo com as forças renovadas para construir mais muros reais e sentimentais. Lá embaixo, no cubículo, o irmão já tinha recuperado seus sinais sensoriais, mas estava com muito medo daqueles ossos e do corpo de seu pai em decomposição. Quando viu o filho Oliveira chegando disse: “Graças a Deus! Tire a gente daqui!”, mas o irmão não respondia. Antes disso, fitava-o de cima embaixo e admirava sua condição de preso. “Pare de brincar… Já conseguiu o que queria. Pronto… Sujei minhas calças de medo. Agora vamos embora!” E o filho Oliveira analisava tudo aquilo como se contemplasse uma obra prima de móvel escultura, como se fosse um belíssimo quadro e ainda fechou os olhos para sentir melhor a música de suas súplicas.

Quando o irmão Oliveira juntou areia, cimento e água, misturando a massa cinzenta da pá, tudo isso revelado pelo finíssimo feixe de luz que apontava pa­ra o baixo teto daquele am­bi­en­te, percebeu a maldade do irmão e começou a gritar in­da­ga­ções. O irmão, sempre calado, com pedaços de madeira mol­da­va o solo com aquela perfeição. Do primeiro andar de ti­jolos passou para dois e três. Fez uma pausa e se sentou para o­b­servar o irmão conjurar, orar, xin­gar, suplicar, gritar, silenciar em alternados temperamentos. O Oli­veira mais velho não perdia um movimento daquelas oscilações.

Ergueu quatro e cinco andares de tijolos e pedras, alcançando mais da metade da porta. Perguntou ao irmão qual seria a sua última refeição. Após os praguejos do Oliveirinha, seu irmão gritou e urrou muito alto, até que Oliveirinha se silenciasse. Tornou a perguntar qual seria seu último lanche, pois refeição estaria agora fora de cogitação. Alertou o garoto que novo protesto iria permanecer faminto até a morte. O jovem escolheu um sanduíche com ovos, bacon, carne bovina, alface, milho e batatas. Para beber, um suco de laranja. O irmão ironizou a escolha americana, mas foi providenciar o alimento. Depois de alguns minutos voltou com uma bandeja e sobre ela o sanduíche, o copo de suco, um guardanapo e uma vela acesa. Trouxe também um tamborete e se sentou em frente a parede parcial. Conferiu se estava firme e voltou para o tamborete. Pôs a bandeja sobre o colo e passou a ingerir o quitute desejado pelo irmão lentamente, olhando nos olhos do Oliveirinha. Ele ficou irado, cuspiu, esbravejou e virou um leão. O irmão Oliveira fitava aquilo tudo sem piscar, e devorava o sanduba regado à laranjada como se estivesse em frente a uma tela de cinema. Quando acabou de comer, limpou os lábios com o guardanapo e as mãos. Levou a bandeja de volta com o tamborete, deixando a vela acesa em cima de sua última fileira de tijolos.

Subiu aos aposentos superiores e resolveu tomar novo banho. Mas lá naquela água quente ficou curioso para ver a desenvoltura do irmãozinho. Apressou com as roupas e desceu novamente. Teve certo asco com o cheiro do lugar, pois estava com o estômago cheio, mas chegou rapidamente e o irmão iniciou com os vitupérios, a­frontas e outras depravações. “Nem assim você toma jeito, O­liveirinha. Cresça! Pare de pregar peças… Ops, você já vai parar brevemente… Quero que ao menos nesses últimos instantes você amadureça!” Então o irmão chorou, se debateu (se machucou!) e esgoelou penosamente. Seu algoz irmão Oliveira gritou e urrou novamente, até que Olivei­ri­nha silenciasse. “Tenha um pingo de dignidade, morra ao menos como homem!” O irmãozinho chorou baixinho e viu seu irmão mais velho aumentar a fileira de tijolos.

A segunda parte do trato estaria resolvida. O mistério do desaparecimento de Oliveirinha chocou os familiares e a comunidade. Com o passar do tempo, sobrou somente o filho Oliveira, ainda mais sombrio e calado. Dizia que isso se devia pelo desaparecimento dos seus familiares. Anos depois acabou se juntando a uma interesseira com quem teve um filho. Esse neto Oliveira vivia tendo pesadelos e dizia ouvir coisas durante as noites naquele casarão. Ecos de súplicas, gemidos de dor, gritos, passos e correntes. Seu pai então resolveu certo dia entrar naquelas passagens secretas sombrias e encontrou a clausura intacta. Resolveu, com o auxílio de uma marreta e de uma picareta, remover uma das fileiras daqueles tijolos assentados por ele. Algo o sugou para dentro da cela e depois a parede se restabeleceu por si. Foi assim que o neto Oliveira ficou órfão com seu pai desaparecido.

Com a venda de parte da herança se criou sozinho e frequentou escola na cidade mais próxima. Lá na escola havia um coleguinha de nome Augusto Pereira, que vivia desacatando o neto Oliveira, humilhando-o na frente de todos, tomando seu lanche e o achincalhando com regularidade. Seis meses depois, apavorado com pesadelos sombrios de prisões eternas, Oliveira neto encontrou a passagem secreta, mas (ainda!) não descobriu o alçapão que levava aos ossos. Mesmo assim, algo o encheu de coragem e resolveu erguer a cabeça. Era preciso punir sem deixar vestígios, ficando impune diante das autoridades e da sociedade, pois aquele Augusto Pereira arrancara sua honra. Mas, entre a frieza e os pratos da vingança, as ideias regurgitam calores de um ódio tórrido.

No dia seguinte, numa manhã muito agradável, olhou o coleguinha e sorriu. Mal sabia o estudante que aquele sorriso vinha da decisão tomada por Oliveira neto: os Pereiras nunca mais voltariam ao pó da terra!

Leonardo Teixeira é escritor.

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