O romance “O Sul”, de Colm Tóibín, mostra uma mulher que ousou quebrar regras sociais

A protagonista deixou um casamento infeliz para buscar sua liberdade na Espanha, onde viveu um grande amor e se tornou artista plástica

Em muitos romances clássicos da literatura mundial, a mulher que ousa quebrar as rígidas regras sociais a que deve se submeter em sua época recebem o castigo pela transgressão. Ocorre-me agora o exemplo da obra-prima do escritor russo Liev Tolstói, “Anna Kariênina”. A personagem do livro, após deixar o marido pelo amante, acaba se suicidando. Mas este não é o mote do livro “O Sul”, do escritor irlandês Colm Tóibín, pelo contrário.

Em 1950, a personagem principal do romance, a irlandesa Katherine Proctor, abandonou um casamento infeliz e um filho pequeno, em uma propriedade rural na Irlanda, para viver na Espanha, onde encontrou o amor e a amizade, e se tornou artista plástica. Em nenhum momento da obra, o autor condena Kate pela decisão que causou uma reviravolta na sua vida. E ela não demonstra arrependimento de ter deixado para trás, com o pai, o filho Richard, de apenas 6 anos de idade.

Dessa maneira, no início da narrativa, vemos uma Kate perdida sobre o que fazer com seu futuro, encerrada em uma pensão situada em Barcelona, vivendo do dinheiro que é enviado regularmente por sua mãe, que mora em Londres. Mas logo ela conhece o artista plástico Miguel, e seus amigos, e também cria laços de amizade com um conterrâneo, o irlandês Michael Graves. Em seguida, se muda para uma vila remota nos Pireneus, na divisa da Espanha com a França, um local carregado de memórias tristes para Miguel, que ali havia se escondido durante o período da Guerra Civil Espanhola.

Colm Tóibín: escritor irlandês | Foto: Reprodução

O novo lugar nas montanhas é frio, e ao mesmo tempo rodeado de belas paisagens, o que leva Kate a aprimorar seu trabalho artístico com pinceis e telas, até o desfecho trágico dessa estadia, que não vou adiantar aqui para não tirar o sabor da surpresa para o leitor. Já na idade madura, a protagonista retoma os laços com o filho abandonado e volta à terra natal, após um período morando em Dublin, na Irlanda.

O livro “O Sul” é daquelas obras literárias envolventes, que cativa o leitor a continuar acompanhando os passos dessa personagem corajosa, que foi capaz de promover uma reviravolta na sua vida. Anteriormente ela era apenas a esposa mais jovem de um fazendeiro irlandês, mas aos poucos se torna uma mulher forte, ciente dos caminhos percorridos, sem sentimento de culpa por causa das decisões tomadas.

É impressionante ver um escritor homem desenvolver um personagem feminino de forma a torná-lo verossímil, com seus anseios e desesperanças. Mas a Kate descrita na obra é, ao mesmo tempo, frágil e forte, com muitas das facetas da alma feminina. Sua trajetória, a partir dos anos 1950, não é muito comum, mas mostra que sim, a mulher pode ditar os caminhos do seu próprio destino.

Colm Tóibín nasceu em Enniscorthy, Condado de Wexford, na Irlanda, em 1955. Ao verificar essa informação, percebi que essa região é o cenário da parte irlandesa do romance “O Sul”. Isso demonstra que ele adotou sua terra natal também para sua protagonista, o que nos deixa o questionamento do que é ficção e do que foi inspirado na sua história local e/ou familiar para a criação literária. Somente o escritor poderia nos dar a resposta.

Tóibín é um dos jornalistas e escritores mais conhecidos da Irlanda. Escreveu seis romances, entre os quais “A Luz do Farol” (2004), “O Mestre” (sobre Henry James, de 2004), “Mães e Filhos” (2008) e “Brooklin” (2011), sendo que alguns deles se transformaram em filmes. É ganhador do Costa Book Award e do Los Angeles Time Book Prize, entre outros prêmios. Atualmente vive em Dublin e em Nova York.

Mariza Santana é jornalista e crítica literária.

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