O que “De volta para o futuro” e José J. Veiga têm em comum

Brincar com o tempo é algo comum no cinema, sobretudo no hollywoodiano, mas muitos escritores provaram que isso também é possível na literatura

Marty McFly e o Delorean marcaram época. Tanto que podem ser apontados, no cinema, como o maior expoente da brincadeira artística com o tempo

Marty McFly e o Delorean marcaram época. Tanto que podem ser apontados, no cinema, como o maior expoente da brincadeira artística com o tempo

Gismair Martins
Especial para o Jornal Opção

Caetano Veloso compôs e Roberto Carlos e Gal Costa cantaram em momentos distintos: “Eu vi o menino correndo/ eu vi o tempo/ brincando ao redor do caminho daquele menino”. A cultura cinematográfica pop meio que inverteu os termos da equação velosiana através de seus roteiristas, autênticos sucessores dos poetas da assertiva aristotélica, que propõe que os bardos narram “não aquilo que aconteceu, mas aquilo que poderia ter acontecido”. Assim, faz algum tempo que a cinematografia vem brincando com a temporalidade e apresentando roteiros instigantes, que desafiam a capacidade de observação do chamado “leitor modelo”, de Umberto Eco. Os exemplos são muitos. Tanto num passado mais distante quanto num mais recente.

A geração dos que já estão na casa dos “enta” de idade se recordará da série “Túnel do Tempo”, criada por Irwin Allen no anos 60 do século passado e televisionada na década seguinte no Brasil. Nela, dois cientistas, Tony Newman e Doug Phillips, são arremessados para épocas distintas da história humana por uma máquina do tempo em forma de túnel, que apresenta um defeito de não poder trazê-los de volta ao século 20, o que garante uma sequência de episódios em que os dois personagens se relacionam com vultos que marcaram época. Em suas aventuras pelo labirinto temporal, por exemplo, Tony e Doug travam relação com um jovem soldado corso, ainda humilde, que tem a sua autoestima inflada ante a observação dos viajantes do tempo de que ele estava destinado a tornar-se um grande homem. Tratava-se de Napoleão Bonaparte.

O ano de 2015, por sua vez, ofereceu um espetáculo muito particular sobre a brincadeira com o tempo na cultura popular de Hollywood. Em 1985, Steven Spielberg produziu o filme dirigido por Robert Zemeckis, “De Volta para O Futuro”, que trazia em seu enredo as aventuras de um adolescente e um cientista que viajam no tempo a bordo de uma máquina instalada em um veículo. As incontáveis curiosidades de bastidores informam, sobre esta franquia em particular, que a ideia inicial era que a máquina de deslocamento no tempo seria em uma geladeira. O bom senso falou mais alto. Crianças poderiam morrer asfixiadas mundo afora, imitando os personagens. Um carro seria mais apropriado. Mesmo porque o automóvel já se configura como uma espécie muito peculiar de máquina do tempo, caso se leve em conta que tempo e espaço constituem uma sequência única, segundo a física relativística para leigos.

“De Volta para O Futuro” se tornou trilogia. No segundo filme, o cientista, o adolescente e a sua namorada viajam de 1985 para o dia 21 de outubro de 2015 para salvarem os futuros filhos do então jovem casal de envolvimento com uma perigosa gangue hight-tech que os levaria à prisão por muitos anos. Quando chegou o dia 21 de outubro de 2015, a mídia cobriu exaustivamente o acontecimento insólito, que deixou o universo geek em polvorosa. Todos puderam comparar as previsões dos roteiristas com a realidade dos nossos dias. Entre alguns acertos aproximativos e outros erros radicais, como os carros voadores e a prisão, julgamento e condenação de um criminoso no prazo máximo de duas horas, não deixou de ser instigante e divertida a brincadeira com o tempo.

 José J. Veiga: o mais cosmopolita dos escritores goianos foi também aquele que mais brincou com o tempo em suas obras

José J. Veiga: o mais cosmopolita dos escritores goianos foi também aquele que mais brincou com o tempo em suas obras

Para a dimensão que assume a produção de um filme de grande orçamento, os exemplos de exploração da possibilidade, por enquanto imaginativa, de deslocamento temporal são até abundantes. Um ator sem maiores recursos de interpretação, como Arnold Schwarzenegger, torna-se uma estrela mundialmente conhecida dos cinéfilos por interpretar um androide que viaja no tempo para exterminar a mãe do futuro líder da rebelião dos humanos contra as máquinas que passaram a dominar o mundo, o que já aparecia sutilmente como possibilidade prefigurada em “Tempos Modernos”, de Charles Chaplin, que inicia seu célebre discurso na película “O Grande Ditador” com as antológicas palavras: “Não sois máquinas! Homens é que sois!”.

O universo das artes visuais também foi objeto da brincadeira ficcional com o tempo na cinematografia. No contexto narrativo do filme “MIB – Homens de Preto”, o ator Will Smith interpreta o agente de um organismo secreto que monitora atividades alienígenas na Terra, obviamente sem o menor conhecimento dos terráqueos. Os aliens viveriam em nosso planeta disfarçados, alguns como celebridades. É o caso de Elvis Presley, Michael Jackson, Silvester Stallone e outros. A exemplo de “De Volta para O Futuro”, o filme teve até o momento três sequências. Na última, o agente J., personagem de Smith, tem de viajar até 1969 para salvar seu parceiro, o agente K., da morte. Um vilão interplanetário preso na lua fugira e voltara no tempo até o dia da primeira viagem humana ao satélite terrestre, assassinando K. e modificando a história futura de MIB.

Ao retornar ao final década de 1960, o agente J. encontra seu parceiro jovem e tem a missão de impedir o seu assassinato. Era uma época de grande efervescência cultural. Andy Warhol, célebre personagem das artes visuais, estava no auge. Numa sequência impagável, J. descobre que Warhol é também um agente infiltrado do MIB, o agente W., e vê confirmada a sua suspeita de que todas as modelos que desfilam na Terra são alienígenas; além disso, descobre que Mick Jagger, líder da banda The Rolling Stones, é um alien que está na Terra com a finalidade de procriar o máximo possível com as mulheres do nosso mundo.

No entanto, o mais hilário são as falas criadas pelos quatro roteiristas do filme para Warhol. O famoso artista, ou agente disfarçado, chama K. em particular e pede a ele para que forje a sua morte, justificando seu pedido de maneira desesperada nestes termos: “Eu já estou pintando latinhas! Eu não aguento mais ouvir música indiana! Eu já não sei mais a diferença entre homem e mulher!”. É tragicômico, sobretudo quando se recorda que Warhol sofreu uma tentativa de assassinato por parte de uma mulher com sérios problemas psiquiátricos.

Marcações temporais e literatura

Na ficção científica cinematográfica, a brincadeira com o tempo flerta de perto com a seriedade do tema. A maioria dos roteiristas trabalha os paradoxos temporais de forma bastante plausível. A formulação paradoxal mais conhecida para a impossibilidade desse tipo de viagem é o denominado paradoxo do avô. Se alguém volta no tempo e acidentalmente mata o próprio avô, não nascerá; mas se não nasceu, como pôde viajar no tempo?

Em “De Volta para O Futuro”, por exemplo, o roteirista Bob Gale brincou com essa possibilidade, mediante uma pequena variação, ao fazer com que o adolescente Marty McFly, interpretado por Michael J. Fox, tomasse acientalmente o lugar de seu pai no destino de sua mãe, fazendo com que ela se apaixonasse pelo futuro filho. McFly passará boa parte da trama tentando fazer com que seus pais se apaixonem no baile de formatura escolar e, por consequência, que ele e seus irmãos nasçam dali a alguns anos.

A literatura imaginativa, na expressão preferida de Harold Bloom para a ficcionalidade, apresenta uma relação um pouco diversa com as marcações temporais. Ficcionalidades à parte, como a de H.G. Wells com “A Máquina do Tempo”, a denominada alta literatura se relaciona com o jogo temporal mais pelo processo do que se poderia chamar de neoparódia hutcheniana. Linda Hutcheon, em “Uma Teoria da Paródia”, retoma a etimologia do termo “paródia” para redefini-lo, levando-o além do caráter tradicionalmente burlesco de uma obra em relação a outra. Em “Palimpsesto”, Gérard Genette estabelecerá parâmetro semelhante ao que é proposto pela teórica canadense para o tema paródia.

Assim, em “Uma Teoria da Paródia” é apresentado um novo conceito parodístico de retomada de uma determinada obra com a finalidade de abrir um novo direcionamento à sua estrutura, muitas vezes reescrevendo-a. A diferença fundamental é que não mais se trata obrigatoriamente de uma reescrita pejorativa, mas sim que prestaria uma homenagem ao original através de uma reelaboração séria. Na poética do escritor goiano José J. Veiga há dois exemplos ilustrativos que contemplam, tanto a perspectiva hollywoodiana quanto a literária imaginativa, para essa volta no tempo como elemento desencadeador daquilo que na ficção científica se chama de nova linha temporal.

Em “A Casca da Serpente”, J. Veiga revisita a guerra de Canudos, numa paródia hutcheniana a “Os Sertões”, de Eu­clides da Cunha, algo que Mario Vargas Llosa já fizera com “A Guerra do Fim do Mundo”. Do ponto em que Antonio Con­selheiro se encontra morto sob os escombros de uma construção, o escritor goiano retoma para fazê-lo sacudir o pó do desabamento e surgir mais vivo do que nunca. A partir de então, como se fora uma Fênix, o lendário pássaro que renasce das próprias cinzas, Conselheiro ressurge e aos poucos vai amenizando o seu fanatismo religioso, construindo uma nova comunidade em local distante de Canudos. A experiência guerreira resultou para ele num verdadeiro terremoto íntimo, que o transformara radicalmente. Ou seja, J. Veiga retorna no tempo da narrativa euclidiana e abre uma nova linha temporal narrativa.

Em “O Relógio Belisário”, por sua vez, J. Veiga mescla as variações parodísticas com a ficcionalidade dos roteiristas hollywoodianos. Vivendo em uma chácara com um casal de aposentados, o garoto Belisário entra em transe ao ouvir o badalar de um relógio bicentenário que o proprietário trouxera para a casa grande. Diante da constatação dos personagens envolvidos na trama de que o relógio possuía um som hipnótico conducente a um estado alterado de consciência, sendo Belisário o sujet que mais se aprofundava nos transes, o grupo resolve realizar experiências mais detalhadas diante do fascinante objeto. O garoto mergulha no passado e vê diante de seus olhos todos os eventos que tiveram o antigo relógio como testemunha.

No mais curioso acontecimento, o pequeno grupo de improvisados pesquisadores do oculto se vê no passado, testemunhando com o relógio a amizade que se estabelece entre seu proprietário brasileiro e o detetive Sherlock Holmes, ou alguém que serviu de forte inspiração a Arthur Conan Doyle para criá-lo. Holmes, ou seu dublê, vem ao Brasil, onde ajuda a polícia local a solucionar um crime. Para tanto, conta com o auxílio do escritor Lima Barreto em suas investigações. O punhal u­sado para abrir uma caixa de joias roubadas tinha um cabo javanês. Logo, nada mais elementar do que procurar o homem que escreveu uma história sobre alguém que falava javanês. O escritor do pré-modernismo brasileiro nada sabia a respeito da exótica língua. Tratava-se apenas de uma criação literária, conforme ele mesmo explica ao ser interrogado a respeito.

Nascido em 1915, em Co­rumbá de Goiás, José J. Veiga completaria 100 anos em 2015. O ano de 1915 viu também o nascimento de Bernardo Élis e Carmo Bernardes, dois importantes nomes da literatura produzida em Goiás no século 20. Se os marcos temporais são significativos e pôde-se comemorar os 100 anos da talentosa trindade da literatura goiana, o ano de 2016 permite ainda que se rememore festivamente a produção de J. Veiga, Élis e Bernardes.

Afinal, 101 anos representa um marco capicua, que é o equivalente numérico para a brincadeira com as palavras conhecida como palíndromo, caracterizado pela possibilidade de leitura tanto da esquerda para a direita quanto ao contrário, como na frase “Roma é amor”. Se o tempo brinca com o homem, conforme compôs Caetano Veloso, a recíproca também é verdadeira; sobretudo nas artes, sejam elas as visuais ou as da palavra.

Gismair Martins é doutor em Letras e Linguística pela UFG e professor do Centro de Estudo e Pesquisa Ciranda da Arte, da Secretaria de Educação.

Uma resposta para “O que “De volta para o futuro” e José J. Veiga têm em comum”

  1. Bravo ao professor Dr Gismair e ao nosso bravo Opção por abrir mais este espaço à talentosa geração de 1915.
    Esse vínculo da cultura de massas com a alta cultura parece-me interessante, com restrições (poucas, desde que não me falem de Batman ao lado previamente aos 400 anos da morte de W. Shakespeare, p.ex.).
    Caetano era bem dispensável ao contexto, mas fazer o quê? Hélas! a letra de música fez-se preliminar a toda tradição poética.
    “Amor a Roma” do inesquecível Afonso Arinos seria melhor referência, mas fazer o quê: pegar a máquina do tempo, quem sabe?
    Muito bom aprender matemática de um doutor em literatura. Donde se sabe que “um número é capicua quando ‘lido’ da esquerda para a direita ou da direita para a esquerda representa sempre o mesmo valor, como por exemplo 77, 434, 6446, 82328.”
    Enfim, o tempo e a sua medida – os “mitos do calendário” (Drummond) já foram cantados de modo mais eficaz antes, como no fragmento pré-socrático citado por Tabucchi:
    “Seguindo a sombra, o tempo envelhece depressa” (Crísias).
    Viva a geração de ’15, 101 vezes.
    Obs.: a segunda vez que vejo uma referência ao livro “A Casca da Serpente” – a 1a. foi na conferência organizada pelo Sesc, coord.do poeta/acadêmico Luiz de Aquino, citado pelo Ignácio de Loyola Brandão. O livro é de 1989 (encontrei-o num sebo em GYN), enquanto a edição original d’A Guerra…(do escritor peruano Vargas Llosa é de 1982), trad. em port. 2010, por Paulina Wacht e Ari Roitman (Objetiva).

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