Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

O padre Charles Moeller e o silêncio de Deus

Um vasto painel da literatura mundial no século XX é o desafio proposto ao leitor por Charles Moeller (1912-1986), sacerdote, teólogo, crítico literário e professor emérito de Teologia da Universidade de Lovaina, na Bélgica. Neste primeiro volume que ora tenho sobre a mesa, “O silêncio de Deus”, Moeller propõe uma releitura cristã de grandes autores do século, dando-nos lições de teologia, mesclando a crítica literária ao testemunho da fé cristã.

Um vasto painel da literatura do século XX, com a erudição do Mons. Charles Moeller

Um vasto painel da literatura do século XX, com a erudição do Monsenhor Charles Moeller

 

A obra “Literatura do século XX e cristianismo”, que foi projetada para sair em seis volumes, teve apenas três traduzidos e publicados no Brasil (pelo que se tem conhecimento) na década de 50 por Augusto Sousa, sob a supervisão de Antonio Soares Amora.

De fato, o Moeller de que falo não é o ator que domina todas as buscas no Google, falo do Abade que, dos poucos registros, tem um relevante no site da Universidade de Lyon (França) que registra a publicação com êxito de seis volumes em francês , do que se depreende que há uma boa oportunidade para as editoras católicas encomendarem a tradução dos três volumes faltantes em Português. Moeller foi membro da Academia de língua e literatura francesas da Bélgica, tendo participado como membro destacado do Concílio Vaticano II, depois foi nomeado Monsenhor e Reitor do Instituto Ecumênico de Jerusalém.

A descontinuidade da publicação dessa obra poderia ser atribuída à perseguição que a editora (pertencente aos frades dominicanos de São Paulo) teria sofrido do regime militar na década de 60 no Brasil, isso de acordo com um leitor experiente, autor e leigo católico.

Devo a leitura e as resenhas que se seguem à generosa doação dos livros, feita pelo amigo Ademir Luiz, Doutor em História pela Universidade Federal de Goiás (UFG) e professor da Universidade Estadual de Goiás (UEG), que supõe ser este cronista “homem de fé, que melhor pode aproveitar esta coleção” – conforme à dedicatória.

“Abandonei as praias dos autores antigos, para me arriscar ao diálogo com os filhos do meu século. Possa eu, dando esta volta, alcançar a antiga e sempre nova verdade de Deus, “jovem ao mesmo tempo que eterno” – assinala Moeller no prefácio.

Professor de poesia e literatura clássica, Moeller era defensor do ensino dos clássicos (o que os franceses e belgas chama de humanités traditionnelles) porque considerava que eram indispensáveis à transmissão da herança cultural do passado. Entre os títulos que deixou destaca-se “Sabedoria grega e paradoxo cristão” (1948), onde Moeller faz amplas reflexões sobre a contribuição antiga ao pensamento ocidental, que o Autor compara com as figuras literárias de Dante, Shakespeare, Dostoïevski ou Nietzsche.

Em 1952, Moeller lançou  “Au seuil du christianisme” (“No limiar do Cristianismo”), onde analisa Platão, Santo Agostinho, Pascal, Cardeal Newman e o filósofo francês Maurice Blondel, sobre cuja obra Moeller dedicaria um livro posterior exclusivo. Tendo conhecido sucesso como crítico literário, o Abade Moeller examinou profundamente a relação entre Deus, a fé cristã e a literatura.

Abade Charles Moeller (1912-1986). Foto: Reprodução

Desde 1950, Moeller era professor de filosofia e tornou-se um renomado conferencista na Universidade de Lovaina, Bélgica. Foi então que deu início a seu projeto mais ambicioso – os seis volumes de comentários sobre Kafka, Proust, Gide e os autores acima nomeados. Este primeiro volume foi publicado na Europa em 1953, com grande sucesso, tendo rendido onze edições e mais de 43 mil exemplares vendidos. De 1953 a 1993 (vol. VI, publicado postumamente), Moeller concluiu esta obra memorável.

Os autores escolhidos para a análise de Moeller, neste primeiro volume, foram Albert Camus, André Gide, Aldous Huxley, Simone Weil, Graham Greene, Julien Green e Georges Bernanos. Eles foram agrupados em três grupos (partes) deste volume: 1ª. “Os filhos desta terra” (Camus e Gide); 2ª. “Os aeronautas sem carga”, dedicada a Aldous Huxley e Simone Weil; e a 3ª. parte, dedicada a “Os filhos da terra e do céu” que abrange a análise das obras de Greene, Green e Bernanos.

Neste primeiro volume da série, o abade considera que “Camus e Gide representam a atitude do “honette homme” (homem honrado) do período clássico anterior ao silêncio de Deus. “Esperar, apesar de tudo, o progresso do homem, estando satisfeito com as cartas que se têm”: tal a última mensagem de Gide. “Lutar contra” a peste “, por honestidade, sabendo que não há esperança de superá-la”: tal é a mensagem de Camus.

Enquanto isso, Huxley e Simone Weil se entregam à “velha tentação romântica da gnose, que dorme no coração da humanidade”. Mesmo assim, ambos refletem em suas obras – e é isso que o testemunho resgata – “a preponderância daquele” transcendente “que muitos agora insistem em negar”.

Graham Greene, Georges Bernanos e Julien Green, por outro lado, transmitem algo muito diferente. Espere contra qualquer esperança, como o patriarca Abraão , é a mensagem de Graham Greene; ame, dê sua própria alegria, com liberdade, para que outros possam possuí-la, a mensagem de Bernanos; e acredito no invisível, apesar de tudo, o de Julien Green.

É lamentável que as editoras católicas do Brasil tenham sido aparelhadas por pessoas mais interessadas em Teologia da Libertação e temas mundanos (notadamente de sociologia e política) e não tenham dado continuidade a esse belo projeto do Abade Moeller. O leitor interessado em ler Moeller deverá, assim, para lê-lo em português pagar um alto preço de livros raros no Estante Virtual ou baixar alguns volumes que já foram digitalizados pelos leitores que amam a crítica e a teologia do sacerdote belga.

Seria esta resenha mais incompleta se não listássemos alguns trechos, acentuando que a vastidão do pensamento exigiria uma série de artigos, o que não é desejo deste cronista fazê-lo agora.

Trechos de “O silêncio de Deus”:
“A primeira parte deste livro mostrou-nos a atitude do “homem de bem” do classicismo perante o silêncio de Deus. Ter de algum modo esperança num progresso do homem, contentando-nos com as cartas que temos, tal é a derradeira mensagem de [André] Gide. Lutar contra “a peste”por decência, certo de não haver jamais esperança de vencer, tal é a mensagem de [Albert] Camus. Se Gide alcançou finalmente a “honradez”que merecia, e que tinha escolhido – e à custa de que concessões! – , Camus impressiona pela lealdade do seu testemunho. O ateísmo de Camus e de Gide nada tem a ver, entretanto, com o problema do mal; partindo de uma ideia preconcebida de racionalismo sensualista, reforçado por uma negativa essencial de Deus, que é o antiteísmo, a mensagem destes dois homens é o fruto de uma opção. Eles escolheram ser “filhos desta terra”; são partidários da “felicidade”, buscam o equilíbrio humano.
“Se alguma lição positivada nos dão, é esta: o cristão não pode fugir à condição humana, especialmente agora, quando ela é tão tragicamente vivida por milhões de homens.
[…]
“As mensagens de Camus e de Gide deixam-nos…com a nossa fome: além da sua fragilidade filosófica, o desconhecimento que mostram acerca do verdadeiro cristianismo… não resolve nenhum dos problemas propostos? A morte permanece a morte. E o instinto de justiça e de caridade presente em cada um de nós, apesar de todos os desmentidos da história, reclama um sentido da vida…e a vida não é verdadeira se não participa de uma verdade absoluta.”
“A segunda parte deste livro mostrou-nos, diante do silêncio de Deus, a velha tentação romântica; a gnose faz parte desse romantismo eterno que dorme no coração da humanidade.
“[Aldous] Huxley e Simone Weil lembram-nos muito a preponderância daquele transcendente que Gide e Camus, e tantos outros atualmente, se obstinam em negar. A mensagem desses dois estranhos ao cristianismo tem neste ponto o valor de testemunho. Muitos cristãos que tudo receberam das mãos de sua mãe espiritual, das mãos de sua mãe carnal, a Igreja, não chegam aos calcanhares de uma Simone Weil, e quantos ignoram os ásperos e sutis caminhos de Huxley em busca da verdade.
[…]
“A verdade cristã integral obriga-me a dizer que Simone Weil e Huxley são aeronautas sem carga. Não salvam o mundo porque o deixam em terra. (…) O que se esconde no âmago do pensamento de Huxley e Weil é a negação do mistério do amor; é, finalmente, a maldição proferida sobre um mundo que evidentemente mais valeria não existir.”
“A terceira parte deste livro levou-nos a interrogar cristãos. A mesma problemática que sustenta “Humanismo e Santidade” se revela aqui: necessitamos de uma síntese das duas atitudes opostas perante o silêncio de Deus, e encontramo-la objetivamente indicada no dogma cristão. Mas ela deve adquirir vida. Em outras palavras, a pergunta que se faz o leitor no fim da segunda parte é esta: o dogma da Encarnação é belo? Porém, na verdade, tudo se passa como se se tratasse de um devaneio sem consistência. Nada mudou, aparentemente, no mundo.
“Graham Greene é talvez a testemunha mais emocionante dessa tentação de desesperar. Seus personagens mostram-se tão acabrunhados pelos sofrimentos que vêem, que lhes não fica esperança bastante para acreditar que o amor de Deus exista realmente. Julien Green e Bernanos também disseram a que ponto é invisível o que acreditamos. A mesma fascinação diante do mundo sensível, os mesmos sofrimentos, dilaceram os cristãos e aqueles que o não são. Parece até que, e assim o prova o testemunho de Green e Bernanos, quanto mais se é cristão, mais se sofre neste mundo.
“O primeiro efeito visível do mistério do amor encarnado, naqueles que tentam vivê-lo é, portanto, aumentar ainda o paradoxo do silêncio de Deus. Tal é, sem dúvida, a realidade. Julien Green, convertido, é mais tentado que nunca na sua carne e na sua fé; Bernanos conhece o desespero íntimo de uma alma colocada diante do inferno deste século. Tudo é roubado, até a morte dos mártires.
“Há aqui um fato, e este fato não é acidental: ele manifesta uma lei vertiginosa do universo cristão: o homem batizado deve sofrer a agonia de Jesus Cristo. A fraqueza aparente é a força de Deus.
“Se uma verdade cristã se patenteia na terceira parte deste volume, é o lugar central das três virtudes teologais, porque o mundo objetivo da redenção, tal como nos aparece ao termo da segunda parte, só pode ser vivido na fé, na esperança e na caridade.
[…]
“As virtudes teologais engendram a alegria através da diminuição aparente de todas as alegrias humanas. Acreditar no invisível, a despeito de tudo, tal é a mensagem de Green; esperar contra toda a esperança, como Abraão, tal é a mensagem de Graham Greene; e enfim amar, isto é, dar a própria alegria, livremente, para que os outros a conheçam, tal é a mensagem de Georges Bernanos.
“As três [virtudes] teologais encarnam portanto em nós o universo do amor divino; elas enxertam em nossas almas a humanidade santificante e viva de Cristo, que é o coração do mundo. Do mundo objetivo da segunda parte, passamos ao mundo interior da alma; assistimos aos esponsais da humanidade com o Verbo encarnado. Esses esponsais celebram-se numa noite de núpcias cujo leito é o madeiro da Cruz.
[…]
Neste sentido, o leitor há de compreender a tarefa de libertação cristão e de catequese do professor-Abade Moeller que teve como profissão de fé como crítico a sentença lapidar desta definição de liberdade: “Ao criar-nos, Deus criou a nossa liberdade; ao santificar-nos, deu-nos a responsabilidade da santificação do mundo…”

E assim concluiu este volume de uma obra imperdível para cristãos e ateus que desejam entender a literatura do século XX: “O silêncio de Deus é a sua própria palavra; sua ausência, a sua presença. Porque a ausência de Deus, o seu silêncio, é a Cruz, o instrumento de morte e de Ressurreição em Jesus Cristo.”

Adalberto de Queiroz, 63, Jornalista e poeta. Autor de “O rio incontornável” (poemas), Editora Mondrongo, 2017.

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