Oscar, Mostra de Cinema de Tiradentes e a era dos festivais

Mostra de Tiradentes caminha ao lado de festivais considerados como “alternativos” e isso é importante para o cinema nacional

Todo ano, e cada vez mais, milhões de olhos afoitos acompanham a divulgação da lista de filmes indicados ao Oscar. Mais do que mera concorrência, os preferidos da Academia acabam virando referencial do que o mercado tem de melhor a oferecer, e simbolizam o posto máximo a ser aspirado por qualquer realizador do audiovisual. Não é à toa que o prêmio virou referência também em outras áreas (e, assim, o “Eisner” virou o Oscar dos quadrinhos, “Grammy” o Oscar da música e o “Emmy” o Oscar da televisão). Mas a estratégia não é inocente, por óbvio. Questões artísticas, não raro, são cotadas à margem na escolha dos melhores. O mercado está por trás de tudo.

O resultado é que frequentemente nos questionamos se os escolhidos para concorrer em cada categoria realmente são merecedores de tamanha atenção. Seríamos todos tão leigos a ponto de não perceber a beleza escondida em “Crash – No Limite” (ganhador de melhor filme em 2004), a genialidade de “Shakespeare Apaixonado” (vencedor na categoria principal em 1998), ou a justiça de 14 indicações a “La La Land” neste ano?

Seja o que for, aqui abaixo do Equador, há duas décadas nadando contra a maré, a Mostra de Cinema de Tiradentes chega à sua 20ª edição e se firma como um dos principais festivais do Brasil. Com a abertura em 20 de janeiro passado, o festival anunciará os vencedores neste sábado, 28, mantendo firme o propósito de fomentar o cinema nacional.

Em gritante e irônico contraste com a maior premiação de cinema do mundo, a Mostra de Tiradentes escolheu, especialmente esse ano (mas em perfeita consonância com os ideais originários do festival), prestigiar o chamado cinema de resistência e reação. Conscientes de que vivemos em tempos obscuros, com a crise econômica batendo à porta, os realizadores buscaram cultivar um espaço para as produções independentes, ou que dependessem de meios alternativos de captação de recursos — os tradicionais seriam aqueles advindos de editais, leis de incentivo, concursos etc.

À parte a questão orçamentária, o que se busca é a valorização do cinema dito livre, com maior liberdade de criação e velocidade de reação. Com esse objetivo, a Mostra caminha ao lado de festivais considerados como “alternativos” ou com um viés independente, como o Festival de Sundance, criado na década de 80 pelo ator e diretor Robert Redford, por exemplo.

Mas qual a importância de nadar contra a maré?

Historicamente, o cinema brasileiro se desenvolveu a partir de uma relação tumultuada com o mercado. Inicialmente com parcos recursos, fomentou-se a produção sem que se preocupasse com o mercado consumidor. A preocupação dos produtores brasileiros era atingir o padrão de qualidade da indústria hollywoodiana.

Assim, grandes estúdios da primeira metade do século passado, como a Atlântida Cinematográfica, a Companhia Vera Cruz ou a Cinédia, responsáveis por obras icônicas da chanchada nacional, acomodaram-se em recursos de fácil assimilação pelo público (como o humor grosseiro, a paródia e as marchinhas de carnaval) para que fosse possível a popularização das obras. O resultado foi o cultivo de um público pouco exigente, ainda afeito majoritariamente às produções gringas.

Em oposição, anos mais tarde, o Cinema Novo veio com uma proposta intencionalmente pobre de recursos — em que pese rica de significados (a chamada “estética da fome”) — causando um distanciamento ainda maior do cinema nacional com o público de massa. O Cinema Marginal, logo em seguida, tentou reatar a relação com o mercado popular, e participou do início da difícil transição para o que viria a ser o modelo de produção nacional pelas próximas décadas: a Embrafilme, empresa estatal de fomento e produção instituída na ditadura.

Durante todo esse tempo, o cinema nacional falhou em sua grande empreitada, que foi a instituição de um vigoroso e estável mercado consumidor. Em compensação, galgou degraus cada vez mais altos rumo ao que seria uma “identidade do cinema nacional”.

Entendida essa realidade, é possível verificar a importância que os festivais de cinema têm na definição dos rumos do cinema nacional e internacional. Os mercados estão sendo constantemente construídos, e os festivais são a vitrine do que é produzido em determinada época — a nossa época.

Nacionais ou internacionais, grandes ou pequenos, todos têm o seu valor, mas o público — nós — devemos nos conscientizar do nosso papel na definição do que seja “o melhor”, porque nós somos o mercado. É preciso saber olhar o que nos é exibido. Nadar contra a maré nada mais é do que voltar os olhos ao que a indústria majoritária não tem interesse em que vejamos.

Mais do que nunca, vivemos na Era dos Festivais. Nesse contexto, o Oscar merece tanta atenção quanto o “Troféu Barroco”, cujos vencedores, em 5 categorias, serão anunciados neste domingo na cidade de Tiradentes, em Minas Gerais.

João Paulo Lopes Tito é advogado e estudante de Cinema e Audiovisual

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