O mausoléu de papel de Scholastique Mukasonga

De forma sensível, mas sem se limitar à autocomiseração, autora expõe em “Baratas” as chagas causadas pelo conflito étnico que, por décadas, assolou a Ruanda

Scholastique Mukasonga: guardiã da memória de um povo. Foto: Divulgação

Dizem que o tempo cura todas as feridas. Essa máxima pode valer para muitos, mas está longe de ser uma unanimidade. Principalmente para aqueles que carregam nos ombros o fardo de ser um sobrevivente, confinado nos anos que lhe restam ao exílio em uma estranha terra das lembranças, onde ninguém lhe espera. Depositário da memória do sofrimento e morte dos que partiram em agonia. “Não me resta nada a não ser a lancinante recriminação de estar viva em meio a todos os meus mortos”. Assim diz a escritora tutsi de Ruanda, Scholastique Mukasonga, que compartilha deste infindável drama.

Em abril de 1994, quando seu país de origem foi estraçalhado por um genocídio sem precedentes, Mukasonga já era uma mulher casada, mãe de dois filhos, residindo na França. Em sua nova pátria, não havia barreiras para controlar o ir e vir daqueles se sua etnia. Já não andava de cabeça baixa, nem se sobressaltava com a visão de um uniforme. Já não era humilhada por milicianos. Não era mais uma “inyenzi”, ou “barata”. É justamente o ultrajante termo que dá nome ao livro, “Baratas”, terceira obra de um ciclo testemunhal composto ainda por “A Mulher dos Pés Descalços” e “Nossa Senhora do Nilo”, todos publicados pela Editora Nós, em 2017, por ocasião da Flip, que apresentou a ruandesa ao público brasileiro.

Nascida em 1956, Mukasonga teve que, desde muito cedo, lutar para viver. Ou como a própria africana melhor define, “subviver”. O primeiro registro do terror foi cravado em sua memória logo aos três anos, em 1959, quando começaram os primeiros ataques de hutus contra tutsis.
“Eu me lembro. Meus irmãos e minha irmã estavam na escola. Eu estava em casa com minha mãe. De repente, vimos fumaça subindo de todos os lados, sobre as encostas do monte Makwaza, do vale do Rususa, onde morava Suzanne, mãe de Ruvebana que, para mim, era como minha avó. Depois escutamos os barulhos, os gritos, um rumor como um enxame de abelhas monstruosas, um bramido que invadia tudo. Esse barulho, eu ainda o escuto hoje, como uma ameaça vinda em minha direção”.

Mukasonga: “Não me resta nada a não ser a lancinante recriminação de estar viva em meio a todos os meus mortos”. Foto: Reprodução/Facebook

De maneira objetiva, sem muitos floreios, mas ainda assim pungente e muito sensível, Scholastique Mukasonga tece uma trama que descortina o surgimento e as consequências catastróficas da máquina genocidária. Em linearidade cronológica, a autora relata a dura infância, a deportação para Nyamata, o período escolar, a ida para capital Kigali e luta para terminar os estudos – um dos grandes anseios dos pais. Há breves momentos de ternura e felicidade, como quando se tornou a “estrela” do vilarejo, ao ser aprovada no Exame Nacional, uma verdadeira façanha para uma tutsi àquela altura. É muito tocante o respeito ao pai, Cosma, e o apego à mãe, Stefania, que ficaria nas lembranças de Mukasonga como uma “frágil” e “pequena silhueta envolvida em sua canga, que se apaga na beira da estrada” (impossível não se comover com esta imagem).

“Baratas” é o roteiro de um longo e doloroso processo de aniquilamento do indivíduo: as pequenas humilhações cotidianas, o medo e a política segregacionista de erradicação de uma população submetida à condição de animal a ser destruído. Pessoas que, apesar do duríssimo jugo da miséria em que viviam, só queriam viver felizes, com suas famílias. Pessoas com desejos e sentimentos, mas que não bastasse a extrema pobreza que tinham que enfrentar, ainda tiveram que encarar a face mais cruel do homem. A autora poupa o leitor dos detalhes mais sórdidos. Não há sangue e vísceras expostas, mas ainda assim é possível sentir o soco atingir o estômago em várias passagens do livro.

Assistente social por formação, Mukasonga nunca havia se imaginado escritora, mas foi nas palavras que encontrou uma válvula de escape para suas angústias e um meio para sepultar, ainda que simbolicamente, seus mortos sem corpos. Só entre familiares mais próximos, autora perdeu 37 pessoas, sem contar amigos, vizinhos e conhecidos. A maioria, não obteve um enterro digno, ao rigor das tradições, pois se perderam em meio a montanhas de despojos e ossadas anônimas. Ao contar sua história para mundo, Scholastique Mukasonga fez do testemunho um ato de resistência e tornou-se mais que uma escritora, mas a guardiã da memória de um povo:

“Os assassinos quiseram apagar até suas lembranças, mas no caderno escolar que nunca me deixa, registro seus nomes, e não tenho pelos meus e por todos aqueles que pereceram em Nyamata, nada além deste túmulo de papel”.

Genocídio
As diferenças físicas e culturais entre hutus e tutsis são mínimas, mas foram o suficiente para serem maquiavelicamente acirradas pelos colonizadores belgas, de modo a atender seus interesses de exploração. O conflito entre as etnias ocorreu principalmente na área dos atuais Ruanda e Burundi, pequenos países localizados no oeste da África. Cerca de 85% dos ruandeses são hutus, mas a minoria tutsi dominou por muito tempo o país. Em 1959, os hutus derrubaram a monarquia e dezenas de milhares de tutsis fugiram para países vizinhos, incluindo a Uganda. Um grupo de exilados tutsis formou um grupo rebelde, a Frente Patriótica Ruandesa (RPF), que invadiu Ruanda em 1990 e lutou continuamente até que um acordo de paz foi estabelecido em 1993.

Ao longo de décadas, Ruanda viveu sob o signo da tensão, até que o estopim para o holocausto ruandês aconteceu na noite de 6 de abril de 1994, quando o avião que transportava os então presidentes de Ruanda, Juvenal Habyarimana, e do Burundi, Cyprien Ntaryamira, ambos hutus, foi derrubado. Extremistas hutus culparam a RPF e imediatamente começaram uma campanha bem organizada de assassinato. A RPF disse que o avião tinha sido abatido por Hutus para fornecer uma desculpa para o genocídio.

Os números não são precisos. Algumas fontes afirmam que mais de 500 mil pessoas foram massacradas entre 7 de abril e 15 de julho de 1994, enquanto que outras apontam até 1 milhão de vítimas. Quase todas as mulheres foram estupradas. Muitos dos 5 mil meninos nascidos dessas violações foram assassinados. O genocídio só terminou quando a Frente Patriótica Ruandesa derrotou o governo e se instalou definitivamente no poder. Até os dias atuais, o massacre assombra Ruanda. O país segue enfrentando problemas étnicos e religiosos, ao mesmo tempo que sofre com dificuldades econômicas e corrupção, gerando extrema pobreza entre a população.

Título: Baratas
Autor: Scholastique Mukasonga
Editora: Nós
Valor: R$ 29,90

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