Rui

O leitor diante dos mitos (1)

Hoje, minha croniqueta quer se fixar no entendimento do mito, a partir da releitura em perspectiva de estudo que fiz do livro “Imagens e símbolos”, de Mircea Eliade

Foi o escritor Alberto Mussa[i] quem, na qualidade de ficcionista (e não de crítico), me fez voltar de forma mais intensa a estudar o mito para melhor compreender as suas saborosas histórias que compõem seu “Compêndio mítico do Rio de Janeiro”, que inclui cinco títulos.

Em um “Pós-escrito”, intitulado “Como escrevi O enigma de Qaf”, publicado como posfácio à segunda edição desse título, em 2013, Alberto Mussa já declara ter uma consciência de que as “matérias-primas ficcionais [dele] estariam vinculadas à história do Brasil, à cultura popular e às grandes cosmogonias africanas e ameríndias”.

Mesmo que tenha sido por acaso, a partir de leituras, que o premiado escritor de origem árabe tenha sido levado à poesia pré-islâmica, foi por decisão voluntária e muito esforço de pesquisa que Alberto Mussa se tornou organizador de uma bela antologia de poetas primitivos árabes – “Os poemas suspensos”.

E este passo decisivo na carreira do escritor Alberto Mussa conduz o descendente de árabes a aprofundar o estudo do idioma de seus avoengos, leva-o a Beirute e à “idade arcaica, heroica, que está na poesia épica”, onde encontra e nos resgata a poesia desses “poetas beduínos – que recitam seus poemas em primeira pessoa, que falam de si mesmos nos seus versos” e que deram ao autor “um testemunho do que é viver, pensar, sentir uma mitologia autêntica: ou seja, considerada como parte da natureza, tomada como dado objetivo da realidade imediata”.

Se é verdade que o narrador nos comove, nos convida a viver a alteridade através da alegria de suas tramas e inovadoras perspectivas, há também em Alberto Mussa “o pensamento lógico que também comove”, isto é, há na gênese do escritor um estudante de Matemática que formula com precisão seus enredos, uma teia bem tecida e envolvente.

O tripé de sustentação da obra literária de Alberto Mussa, muito bem apontado por Hermano Vianna como a sustentação do volume “Elegbara: Narrativas[ii]” (2005) é “ambiguidade – clareza – alegria”. Tudo saído de “um lago, por vezes turvíssimo, que dispersava os reflexos dos nossos mitos”, para usar a expressão de Vianna.

Em nota prévia ao excepcional romance “A biblioteca elementar”, Mussa reafirma: “chamo de “problemas mitológicos” as grandes indagações humanas, que perduram a muitíssimos milênios, relativas à constituição da ordem cósmica atual, origem e estrutura do universo; natureza dos seres visíveis e invisíveis; eventos ou qualidades que tornaram os grupos humanos distintos desses seres (e também distintos entre si); qualidades ou eventos que fizeram o homem diferente da mulher; e daí por diante.”

Não é ainda dessa vez, no entanto, que dedicarei ao Alberto Mussa uma louvação merecida pela qualidade de suas “narrativas”, ou como prefere Antonio Houaiss seus “contos, relatos, estórias, histórias, narrações, relações, enredos” e romances; além da coletânea de poemas árabes pré-islâmicos – tudo o que vem provando que Mussa é senão o melhor, um dos melhores escritores em atividade no Brasil, tendo sua obra traduzida em dezessete países, em quinze idiomas.

Hoje, minha croniqueta quer se fixar no entendimento do mito, a partir da releitura em perspectiva de estudo que fiz do livro “Imagens e símbolos”, de Mircea Eliade.

O percurso que me levou de volta aos estudos de Eliade é tortuoso, como o que levou Rick Riordan a descobrir o poeta-guerreiro, historiador e mitólogo Robert Graves, mesmo que não seja uma narrativa digna de “um regresso de Odisseu a sua casa”.

Foi como historiador das religiões que primeiramente ouvi falar de Mircea Eliade e cheguei a ler alguns trechos, sem ter me aprofundado nestes estudos do mestre romeno. Os mitos estiveram na minha mente sempre como na abordagem de Alberto Mussa, para quem “mitos falam uma linguagem popular e universal; compartilham uma gramática antiquíssima, cujas origens se confundem com as da própria humanidade”.

Ao abrir o seu livro “Aspects du mythe[iii]”, Mircea Eliade fala da importância do “mito vivo” para nossa compreensão da cultura ocidental, a partir da compreensão que se tem do mito, a partir da metade do século XX. “Em lugar de tratar o mito dentro da acepção usual do termo, i.e., como “fábula”, “invenção”, “ficção” – como fizeram seus predecessores [do séc. XIX], os cientistas atuais aceitaram tratar os mitos, tal como foram compreendidos nas sociedades arcaicas, onde mito designava uma “história verdadeira” e que, mais do isso, altamente preciosa porque sagrada, exemplar e significativa.

De um lado, temos o contínuo uso popular da palavra mito como significando “ficção”, ou como “ilusão”, enquanto para os etnólogos e historiadores das religiões os sentidos de “tradição sagrada, revelação primordial, modelo exemplar”.

O professor e crítico canadense Northrop Frye nos ensina em sua “Anatomia da crítica[iv]” que “de três modos organizam-se os mitos e símbolos arquetípicos em literatura”:

“Primeiro, há o mito não deslocado, que geralmente se preocupa com deuses ou demônio, e que toma a forma de dois mundos contrastantes de total identificação metafórica, um desejável e outro indesejável. Esses mundos identificam-se com os céus e infernos existenciais das religiões contemporâneas da tal literatura. Chamamos a essas duas formas de organização metafórica, respectivamente apocalíptica e demoníaca.

“Segundo, temos a tendência geral a que chamamos romanesca, a tendência a sugerir padrões míticos implícitos num mundo mais estreitamente associado com a experiência humana.

“Terceiro, temos a tendência do “realismo” (minha aversão a esse termo inepto reflete-se nas aspas), de descarregar a ênfase no conteúdo e na representação em vez de descarrega-la na forma da estória.”

Frye nos dá alguns exemplos nas escritas de Hawthorne, Poe, Conrad, Hardy e Virgínia Woolf, sublinhando que para tornar a estória “plausível, simétrica e moralmente aceitável, impõe-se uma boa soma de deslocação”. Esse princípio é assim explicado pelo mestre canadense: deslocação: “o que pode ser identificado metaforicamente num mito pode ser vinculado, na estória romanesca, por alguma forma de símile: analogia, associação significativa, imagem incidental agregada, e semelhantes.

Isso tudo porque, ainda segundo Frye, “no mito podemos ter um deus-Sol ou um deus-árvore; mas numa estória romanesca, o que temos é uma pessoa significativamente associada com o Sol ou com as árvores”.

O pesquisador e crítico paranaense Francisco Escorsim afirmou no Congresso de Literatura Católica (2018) que “não há como entender literatura sem a base imaginativa que os mitos fornecem. E a Bíblia Sagrada pode ser considerada como “o mito dos mitos” – a grande síntese:

As pessoas precisam ser despertadas para a literatura, antes de tudo. O desafio maior hoje é este. Mas, em despertando, é indispensável destacar a importância da Bíblia. Simplesmente porque não há como entender literatura sem a base imaginativa que os mitos fornecem e, de todos, a Bíblia é o maior e mais importante. E como prova da necessidade absoluta disso aponto o fato facilmente verificável dos que torceram o nariz ao ler essa associação entre mito e Bíblia. Ainda impera no imaginário a noção de que os mitos são uma grande mentira, quando é o contrário disso. Para a literatura ocidental, a Bíblia e os mitos gregos formam o continente onde aquela nasceu, cresce e perdura.”

Alguns títulos que podem ajudar o leitor a fazer conexão entre mito e literatura

O cristianismo, como nos ensina Mircea Eliade, em “Imagens e símbolos[v]”, “herdou uma tradição religiosa muito antiga e complexa, cujas estruturas sobreviveram dentro da Igreja, embora os valores espirituais e a orientação teológica tenham mudado. De qualquer maneira, nada daquilo que através do Cosmos manifesta a Glória – para falarmos em termos cristãos – pode deixar um crente indiferente.” É, pois, natural concordar com Eliade que “para captar as verdadeiras estruturas e funções dos símbolos [e dos mitos, digo eu!] temos de nos referir ao inesgotável repertório da história das religiões”.

No capítulo que trata de “Simbolismo e história”, Eliade destaca um ponto preciso, que “lembrando as principais linhas do simbolismo aquático”, houve “uma nova valorização religiosa das Águas instaurada pelo cristianismo. Os Padres da Igreja não deixaram de explorar certos valores pré-cristãos e universais do simbolismo aquático, enriquecendo-os até mesmo de significados inéditos, relacionando-os ao drama histórico do Cristo.”

Se o simbolismo cristão foi situado especificamente no contexto da correspondência com a Bíblia, como no início da Igreja, este pode muito bem ser recolocado no contexto do simbolismo geral, universalmente confirmado pelas religiões do mundo não-Cristão.

Infelizmente, como nos advertia Leszec Kolakowski[vi] (1972), “no pensamento profano comum dominam, com respeito [não apenas ao Cristianismo], mas a todas as “religiões arcaicas”, as ideias difundidas por uma ciência das religiões de inspiração evolucionista.” E, pior ainda, “o cristianismo de nosso século [XX] faz tantas concessões a seus inimigos triunfantes, teme tanto a crítica racionalista e cede em tão grande medida a seus golpes, que, pelo menos na catequese pública, não tem o valor de expor componentes essenciais de sua imagem tradicional do mundo…

Talvez por isso, seja tão relevante mostrar uma aplicação do mito no romance do jovem escritor brasileiro Rodrigo Duarte Garcia, que ao retomar um símbolo, recupera a imagem arquetípica de um mito (o da Cruz como a Árvore Cósmica), no Cap. XXXIV do romance “Os invernos da ilha”[vii], com a história da tentativa de destruição da cruz de madeira por piratas holandeses:

“Mas a resistência de um dos selvagens foi a gota d´água para o general Nicolas Pietersz, que acompanhava os trabalhos e andava nervoso como um demônio: inconformado pela desobediência, ele mandou açoitar os prisioneiros e derrubar a cruz de madeira.
“Os selvagens gritavam “kürus, kürus” (cruz, em língua mapuche), sem parar, enquanto os homens partiam para atacar o madeiro a machadadas. E o relato que então me chegava era inacreditável – mal sabia eu –, porque os golpes mais fortes não eram capazes de sequer arranhar a cruz disposta no meio da praia. Uma dezena dos nossos arremeteram contra ela, mas a madeira que a revestia parecia enfeitiçada, embonada com algum lodo sobrenatural que fazia os machados escorregar de lado, sem lhe causar estrago nenhum.
“E assim ficaram por muito tempo, no esforço inútil de ataques repetidos e cada vez mais furiosos. Quanto mais frustrada se via a tentativa de levar abaixo a cruz, mais os nativos se agitavam. O menino Pedro de Araoz repetia que aquilo era um milagre e tentava persignar-se entre as correntes que o envolviam.
[…]

Duarte Garcia e um exemplo dos símbolos e mitos em nosso romance recente

Segue-se uma tentativa de arrancar a cruz com a força das correntes puxadas pelo navio holandês, cujo insucesso leva ao desespero o chefe do navio “Mauritius” que impõe a tática de terra-arrasada, autorizado a queima da cruz. No entanto, ao final:

“eis o inconcebível para além do mais extraordinário dos fatos: na praia, entre meia dúzia de árvores caídas, areia revirada, tocos, conchas, plantas mortas e toda espécie de sedimentos jogados, a cruz continuava de pé, indiferente e ameaçadora. Nem machados, correntes, fogo ou a borrasca lhe haviam feito vergar uma polegada sequer, que o diabo a carregasse para o mais profundo dos infernos.”

Similar ao que nos relata o estudo de Eliade, sobre o símbolo da “Árvore cósmica” das tradições indianas, a imagem da Cruz, Árvore do mundo prolonga, no cristianismo, um “antigo mito universal”, conforme estudo de Henri de Lubac, citado por Eliade.

Mas ele coloca rapidamente em evidência as inovações trazidas pelo cristianismo. Vê-se, por exemplo, na homília do pseudo-Crisóstomo, que o Universo é a Igreja:ela é o novo macrocosmo, do qual a alma cristã é a analogia em miniatura” (Lubac)

Quando somos lembrados pelo mesmo Eliade que “a liturgia bizantina canta ainda atualmente, no dia da exaltação da Santa Cruz, a árvore da vida plantada no Calvário, a árvore sobre a qual o Rei dos séculos realizou nossa salvação”, a árvore que “saindo das profundezas da Terra, ergueu-se no centro da Terra e santificou-se até o confins do Universo”, este cronista se dá conta de quanto concorda com Eliade: “a imagem da Árvore Cósmica conservou-se surpreendentemente pura”, pois “é árvore da vida para aqueles que a compreendem”  (Provérbios 3:18).

Isso me leva a concluir que “mesmo se as imagens e o simbolismo do sacramentalismo cristão não enviam o crédulo “antes de tudo a mitos e arquétipos imanentes, e sim à intervenção do Poder divino na história, esse sentido novo não deve impedir o conhecimento da permanência do sentido antigo, pois, afinal “a experiência dos arquétipos não elimina a experiência da fé”. E, assim, você leitor crente ou não, saberá que “o cristão pode muito bem ser um homem que renunciou a encontrar sua salvação espiritual nos mitos e na única experiência dos arquétipos imanentes; ele não renunciou, no entanto, a tudo o que significam e efetuam os mitos e as simbolizações para o homem psíquico, para o microcosmo…”

Dito isso, encerro com Eliade expressando “de uma maneira um pouco simplista: a história não conseguiu modificar radicalmente a estrutura de um simbolismo “imanente”. A história acrescenta continuamente novos significados, sem que estes últimos destruam a estrutura do símbolo” , nem tampouco o poder do mito para a compreensão do microcosmo que sou.

Adalberto de Queiroz, 63, Jornalista e poeta. Autor de “O rio incontornável”.


[i] MUSSA, Alberto. “A biblioteca elementar”. 1ª. ed. – Rio de Janeiro: Record, 2018. Último volume do ciclo denominado pelo autor de “Compêndio mítico do Rio de Janeiro”, composto por este e outros 4 títulos: “O trono da rainha Jinga”, “O senhor do lado esquerdo”, “A primeira história do mundo” e “A hipótese humana” – todos pela Editora Record.

[ii] MUSSA, Alberto. “Elegbara [Narrativas]”, 2ª. ed., Rio de Janeiro: Record, 2005.

[iii] ELIADE, Mircea. “Aspects dy mythe”. Paris: Gallimard, 1963.

[iv] FRYE, Northrop. “Anatomia da crítica”. São Paulo: Ed. Cultrix, 1973, Trad. Péricles Eugênio da Silva Ramos.

[v] ELIADE, Mircea. “Imagens e símbolos: ensaio sobre o simbolismo mágico-realigioso.” Prefácio: Georges Dumézil; trad. Sonia Cristina Tamer. São Paulo: Martins Fontes, 1991.

[vi] KOLAKOWSKI, Leszek. “A presença do mito”. Trad. José Viegas Filho. Brasília: Editora Universidade de Brasília, 1981.

[vii] GARCIA. Rodrigo Duarte. “Os invernos da ilha”. 1ª. ed., Rio de Janeiro: Record, 2016, pág. 285 passim.

Uma resposta para “O leitor diante dos mitos (1)”

  1. edson moreira disse:

    Excelente comentário, caro Adalberto. Sempre esclarecedor, você esvazia (do meu ponto-de-vista) uma possível oposição entre a compreensão conceitual do mito e a experiência humana singular, formalmente englobada por aquele. Conhecer a estrutura simbólica do mito permite uma maior compreensão da realidade do mundo -ente criado- e dos deuses – o criador, (ou como se diz, cosmogonias e teogonias). Contudo, a vivência de uma experiência mítica, como o batismo, por exemplo, que produz uma transformação, sempre será singular; pode-se até falar sobre ela, mas não se pode reproduzi-la conceitualmente. Só pode mesmo ser vivida.
    E assim, chegamos ao ponto citado da obra de Garcia, “Os invernos da ilha”, no qual a Cruz (vivência da fé) resiste como árvore da vida, ou árvore cósmica (experiência mítica).
    A consequência para a literatura de ficção é de que a literatura sempre irá buscar a experiência humana concreta, que pode ser lida como expressão de um mito, contudo, sem jamais se desviar para um discurso conceptualista, afinal, enquanto o mito é universal, a experiência humana sempre será individual.
    Obrigado, Adalberto, por mais esse belo comentário, que só nos faz mais inteligentes.

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