O grande espetáculo de magia na literatura de Brian Moore

Obra do escritor irlandês Brian Moore, “A Mulher do Mágico” apresenta um mergulho do autor no romance histórico com críticas ao colonialismo europeu do século 19

Mariza Santana
Especial para o Jornal Opção

O escritor Brian Moore (1921-1999) ficou conhecido pelas descrições em seus romances da vida na Irlanda do Norte, sua terra natal, após a Segunda Guerra Mundial (1939-1945), principalmente ao narrar as relações nas comunidades daquele país. O romancista e roteirista, que emigrou para o Canadá e morou nos Estados Unidos, faleceu em 1999. Mas deixou uma extensa obra, inclusive alguns livros de sua autoria foram levados para a tela do cinema. Ele foi descrito como “um dos poucos mestres genuínos do romance contemporâneo” e recebeu importantes prêmios literários.

Entretanto, ao se aventurar em novas plagas, Brian Moore escreveu um romance histórico, ambientado na França e na Argélia em meados do século 19, momento em que os países europeus participavam de uma corrida colonialista para dominar nacos das terras africanas. Foi esse cenário escolhido por Brian Moore para o romance “A Mulher do Mágico” (Companhia das Letras, 232 páginas, tradução de Anna Olga de Barros Barreto), narrativa que desenvolve com mestria, capturando a atenção do leitor da primeira à última página.

A história é narrada do ponto de vista de Emmeline Lambert, a mulher de Henri Lambert, provavelmente o maior ilusionista de toda a Europa na época. O casal é convidado para uma das famosas recepções da corte do rei francês Luís Napoleão. O monarca, aconselhado por um militar baseado na Argélia, tinha planos importantes para o mágico. Assim, Emmeline e o marido, oriundos da classe burguesa, conhecem os luxos da corte francesa, que são detalhados pela mulher, no início com certo sentimento de desconforto.

Henri Lambert recebe do rei Luís Napoleão a missão de impressionar líderes religiosos de tribos revoltosas da Argélia, com seus truques de mágica, de forma a mostrar a superioridade europeia sobre os “bárbaros” muçulmanos. E assim preparar o terreno para a conquista final daquele pedaço do Norte da África pelo exército da França.

Brian Moore: escritor irlandês | Foto: Reprodução

A partir deste momento, o leitor é transportado para um cenário de mil e uma noites, a partir de Argel e outras localidades daquela parte do continente habitada por povos árabes, com seu deserto, os principais personagens e os costumes exóticos aos olhos dos europeus. Tudo é descrito pelo ponto de vista da mulher do mágico, que em alguns momentos se mostra encantada com a cultura árabe, e em outros percebe os riscos e ameaças daquele choque de concepções. Em certo momento, ela se revolta contra a política de dominação perpetuada por seus compatriotas franceses, embora da maneira possível para uma dama europeia no contexto do século 19.

O marido de Emmeline, por sua vez, só vê a glória que poderá obter ao se sair bem-sucedido da missão recebida do próprio rei francês. O desenlace da história escrita por Brian Moore é surpreendente, embora coerente. É melhor não antecipar para não tirar o gosto do leitor de poder seguir todas as páginas escritas por Brian Moore nessa obra literária cativante e de qualidade.

No romance “A Mulher do Mágico” pode-se notar, nas entrelinhas, uma crítica velada à política de colonialismo adotada por países europeus, como Inglaterra e França, entre outros. No século 19, as então potências coloniais praticamente fatiaram a África, sem nenhum respeito pelos povos e culturas locais, em busca apenas de riqueza e poder.

Foi a partir dessa política colonialista, que tanto mal fez ao continente europeu, (cujos países ainda hoje carregam as marcas deixadas por essa dominação externa) que foram plantadas as sementes as quais levariam à Primeira Guerra Mundial — e também à Segunda Grande Guerra — e que causaram a morte de milhões de pessoas, compreendendo alguns dos capítulos mais sangrentos (e lamentáveis) da história da humanidade. Isso sem falar na conquista das Américas, mas aí já daria para escrever outros romances.

Mariza Santana, crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.

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