Soraya Castro

Especial para o Jornal Opção

“124 era rancorosa”. Toni Morrison (1931-2019) não perde tempo.

Em junho de 2006, anotei a data na primeira página de um livro, como faço com todos que leio. Não sabia, então, que ele não fecharia tão cedo. Vinte anos depois, ao revisitá-lo, entendi que alguns livros não envelhecem, eles esperam, e, quando você os reabre, percebe que eram eles que tinham algo a dizer, e não você que tinha algo a entender.

“Amada” (Companhia das Letras, 368 páginas, tradução de José Rubens Siqueira), lançado em 1987 e o primeiro romance de Toni Morrison que faz parte de uma trilogia, é um desses.

Morrison (ganhadora do Nobel de Literatura em 1993 e uma das vozes mais importantes da literatura americana) sabia exatamente o que estava fazendo quando escolheu essa frase de abertura. 124 era o nome de uma casa, sem um nome, apenas um número. Não tem descrição arquitetônica, e sim um caráter moral. É rancorosa. Não está apenas assombrada, ela é algo. Esse deslocamento já anuncia o método da escritora: aqui, o passado não é pano de fundo, ele ocupa lugar.

Ler Morrison é, antes de tudo, uma experiência sensorial. Nos três romances que li da autora, percebi que não descreve o trauma — o reconstrói de dentro. A memória, em seus livros, não obedece à cronologia porque a trama não cede a ordens — certas experiências não pertencem só a quem as viveu, elas ocupam lugares, objetos, podem ser capturadas por outras pessoas em outros tempos. É por isso que a casa 124 não é simplesmente assombrada; ela é o passado com endereço fixo.

Toni Morrison foto Reprodução
Toni Morrison: autora de uma obra tão ou mais forte do que a de William Faulkner | Foto: Reprodução

Sethe, a escravidão e o espírito

Dentro dela vive Sethe, uma mulher que fugiu da escravidão em que era mantida na fazenda Sweet Home (ah, as histórias e suas ironias sutis…), e isso importa dizer logo: alcançou a liberdade por conta própria e conseguiu chegar à casa 124. Não foi recapturada.

Por um breve e frágil momento, existiu algo como vida nessa casa, em Ohio, onde morava com a sogra e os filhos. Contudo, pouco tempo depois, homens da fazenda vieram buscá-la, e Sethe fez algo irreversível: matou uma de suas filhas. Não por crueldade, mas por uma lógica que o texto não simplifica nem condena: melhor morta que escravizada. É o tipo de escolha que só existe dentro de um horror específico, e Morrison recusa-se a julgá-la de fora.

O espírito da criança fica. Derruba objetos, faz as paredes tremerem, expulsa quem tenta ficar. Anos depois, quando um homem chamado Paul D (também um ex-escravizado de Sweet Home) aparece e enfrenta o espírito, o fantasma some — mas não resolve; apenas muda de forma.

Logo, chega uma jovem, exausta como se viesse de muito longe, e senta-se do lado de fora da casa. Bebe água como alguém que esteve ausente por tempo demais. Diz o próprio nome: Amada. Nesse momento, ninguém confirma, porém também não nega.

A pergunta sobre quem ela é (a filha ressuscitada, trauma corporificado, memória em carne viva) é uma das que Morrison sustenta sem responder, e faz isso muito bem, pois o livro não é sobre o que aconteceu: é sobre o que não conseguiu ser integrado depois. E é justamente aí que a forma do romance começa a fazer todo o sentido.

Toni Morrison usa narradores múltiplos em “Amada”, mas não da maneira clássica, organizada, com perspectivas claramente demarcadas. A voz narrativa desliza entre consciências. Você está lendo e, sem aviso formal, está dentro de Denver, a filha mais nova. Depois, dentro de Sethe. Depois, dentro de Amada, num fluxo que beira o ininteligível, e, finalmente, a história passa a ser compreendida em sua complexidade. Você não acompanha o trauma, você o atravessa.

Toni Morrison capa de Amada 500 por 300

Denver, cercada pelo desemparo alheio

Dentro desse atravessamento há uma personagem que o livro oferece como outra resposta – e foi por ela que me apaixonei em 2006, antes mesmo de entender direito o motivo. Denver. A filha mais nova de Sethe. A única que resta, após a morte da irmã, após os outros irmãos abandonarem a casa. Ela nasce durante a fuga.

Sethe, esgotada e aflita, sentindo as dores do parto, é ajudada pela única presença disponível naquele momento impossível, uma jovem branca também deslocada no mundo. Denver chega ao mundo já inserida em uma história que não escolheu, já obrigada a conviver com sombras antes mesmo de respirar. Essa cena me fisgou com força na primeira leitura e não me largou durante a segunda: há algo muito preciso em Morrison ao mostrar que Denver, desde antes de nascer, já era cercada pelo desamparo alheio. E, mesmo assim, veio.

Ela cresce dentro da casa 124, sem contato com o mundo exterior.

Como dito antes, os irmãos fogem, pois não conseguem suportar ou elaborar o que acontece naquele lugar, então apenas saem. Denver fica. Não por ser mais forte, mas porque se vincula.

Quando Amada aparece, ela sente que finalmente tem uma companhia, mas logo perde, pois Sethe se entrega completamente à filha morta e Denver some do campo de visão da própria mãe.

Toni Morrison capa de Amada 333

Então, acontece o movimento mais silencioso e radical do romance: Denver percebe que, se não agir, tudo acaba. E sai de casa. Não por estar pronta ou por ter superado algo, mas pelo motivo de não ter mais como não sair. Ela cruza o quintal, vai até a comunidade e pede ajuda. E o mundo, que ela nunca havia habitado, a recebe.

Denver não é a personagem da força; é a personagem da possibilidade. Ela não nega o passado, apenas recusa-se a viver nele. Sem declaração direta, sem discurso, ela age como alguém que acredita que pode existir além do que recebeu. É a versão prática de algo que o livro só vai formular mais tarde, pela voz de Paul D.

“Você é a sua melhor coisa”, diz Paul D

Paul D sobrevive de outra forma. Morrison descreve seu coração como uma caixa de lata de tabaco: fechada.

Quando Paul D volta, depois que a comunidade consegue expulsar Amada e Sethe encolhe-se para dentro de si mesma, senta-se ao lado dela e oferece a frase mais simples e pesada do livro: “Você é a sua melhor coisa”.

Não é consolo, e sim uma tentativa de devolver a Sethe algo que a escravidão, o trauma e a própria culpa foram tomando aos poucos — a ideia de que ela tem um valor que não depende do que carregou, do que perdeu, do que fez. A frase não cura, não apaga, mas abre uma possibilidade, e é nesse estado que Denver já se encontrava, sem precisar que ninguém a dissesse.

Morrison fecha “Amada” com uma das construções mais engenhosas que tive contato na minha vida de leitora. “Essa não é uma história para ser passada adiante”, escrita três vezes.

Na primeira leitura: não conte. Na segunda: não deixe passar. Na terceira: as duas coisas ao mesmo tempo.

É um dilema, não uma conclusão. Lembrar demais paralisa, como aconteceu com Sethe, consumida pelo retorno da filha morta. Esquecer demais apaga, e apagar, aqui, significa deixar a violência histórica da escravidão desaparecer junto com a dor. A escritora não resolve essa tensão; ela a sustenta. Usa a ambiguidade da própria língua como dispositivo narrativo. A sintaxe performa o que o livro disse. A frase é o próprio livro.

Alguns livros a gente lê. Outros, ficam esperando.

Em junho de 2006, fechei “Amada” sem realmente fechá-lo. Vinte anos depois, entendo que não era distração ou imaturidade. Era o livro fazendo o que sabe fazer: habitar. Como a casa 124. Como a memória de Sethe. Como Denver, que ficou, atravessou e saiu para o mundo quando chegou a hora.

Soraya Castro, escritora e crítica literária, é colaboradora do Jornal Opção.