O discípulo de Rimbaud

Uma homenagem aos 100 anos da morte de Georg Trakl, marco da poesia expressionista alemã

Rafael Teodoro
Especial para o Jornal Opção

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Foto: Wikipedia Commons

Georg Trakl nasceu no dia 3 de fevereiro de 1887 na cidade de Salzburgo, na Áustria. Cresceu numa família altamente problemática. A morte precoce de seu pai (que era vendedor) fê-lo assumir o fardo de sustentar a mãe e a irmã com quem manteve uma relação incestuosa. Seus gravíssimos problemas emocionais levaram-no ainda muito jovem a consumir ópio e cocaína, a buscar nas drogas um alívio que nunca atingiria.

Atormentado pelas lembranças da Primeira Guerra Mundial, conflito bélico no qual serviu como oficial farmacêutico, Trakl, que era um homem extremamente sensível, não resistiu à dor e sucumbiu aos seus tormentos. No dia 3 de novembro de 1914, suicidou-se no hospital de Cracóvia (Polônia) com uma overdose de cocaína. Ele tinha então apenas 27 anos.

Autor de obra pequena, nunca teve seu talento reconhecido em vida (a maior das injustiças que se pode fazer a um gênio). Só postumamente a beleza imagética da sua lírica — fortemente marcada por temas como a tristeza, o desespero, a solidão, a loucura, a morte, a paixão pela irmã, a religiosidade (busca de Deus) — foi descoberta. Hoje a crítica mundial reconhece Trakl como o maior dos poetas da chamada “poesia expressionista alemã”.

Na minha adolescência, enquanto a obra de Dostoiévski monopolizava minha atenção no romance, nos versos de Trakl eu matava meu vício em poesia. Foi o poeta que mais li nesse período tão difícil da minha vida — quando lutava contra sérias adversidades sociais e familiares para conquistar a duras penas minha formação intelectual. Assim me lançava de peito aberto numa missão sobretudo difícil, uma vez que, à diferença da maioria dos meus pares etários e condiscípulos, nunca me dei por satisfeito com a limitada educação que me era oferecida. Naqueles idos eu contava 15 anos de idade e agia sob influência direta do meu então professor de Literatura, Rômulo S’antanna (in memoriam), um jovem germanista que, no correr das aulas, havia percebido meu sincero interesse pela poesia simbolista francesa, especialmente pela obra de Arthur Rimbaud. Coube ao Rômulo apresentar-me à escola expressionista em língua alemã. De certa maneira, ele também lançou as bases de um movimento da minha vida que, nos anos seguintes, só se aprofundaria: a minha ligação estreita com a cultura erudita europeia e, especialmente, alemã.

Também nesse ano iniciei meus estudos de violão erudito em conservatório (o único estabelecimento de ensino que frequentei na vida que foi capaz de me proporcionar alguma felicidade), submetido a uma rigidez de aprendizado incomum. Eu não sabia, mas aquelas peças se encaixavam, a inclinar-me cada vez mais para a disciplinada vida cultural alemã. A música erudita ajudou-me a curar o silêncio da minha alma. A poesia de Trakl ajudou-me a curar minha própria solidão.

No dia 3 de novembro de 2014 se completam 100 anos da morte de Georg Trakl. De­certo muitos ignorarão o falecimento do artista. Não este autor, que escreve tão so­mente para falar das coisas que ama. E que ama abertamente — de todo o coração — a poesia que Georg Trakl escreveu.

Na minha opinião de crítico, Georg Trakl foi o maior poeta do século 20. Na minha opinião de leitor, nenhum outro poeta teve uma importância tão grande na minha vida. Ainda hoje, mesmo após a leitura dos mais diversos autores, neste exercício adorável de sensibilidade que é a poesia, nunca encontrei um poeta cujos versos fossem capazes de causar um impacto tão grande sobre mim. Trakl paralisa a minha alma.

Trakl é o arauto poético do luto silente, das noites repletas de lágrimas, da vida pedregosa. Trakl é o portador da noite branca, o mensageiro do lamento de um inverno solitário que há 15 anos me assombra. A poesia de Trakl é como o sopro de um vento quente expirado por um anjo de fogo angustiado, cheio de tormento e dor, mas da qual, apesar disso, é impossível se afastar. Pelo menos não sem sacrificar alguns dos mais belos versos que a sensibilidade poética humana já foi capaz de conceber.

Rafael Teodoro é advogado e crítico de música e literatura.

Dois poemas de Georg Trakl

VENTO QUENTE

Lamento cego no vento, dias lunares de inverno,
Infância, os passos se perdem discretos em negra sebe,
Longo toque noturno.
Discreta vem a noite branca,

Transforma em sonhos purpúreos tormento e dor
Da vida pedregosa,
Para que nunca o espinho deixe o corpo em decomposição.
Profunda em sono suspira a alma angustiada,

Profundo o vento em árvores destruídas,
E a figura de lamento da mãe
Vagueia pela floresta solitária

Desse luto silente; noites
Repletas de lágrimas, de anjos de fogo.
Prateado, espatifa-se contra a parede nua um esqueleto de criança.

DE PROFUNDIS

Há um restolhal, onde cai uma chuva negra.
Há uma árvore marrom; ali solitária.
Há um vento sibilante, que rodeia cabanas vazias.
Como é triste o entardecer

Passando pela aldeia
A terra órfã recolhe ainda raras espigas.
Seus olhos arregalam-se redondos e dourados no crepúsculo,
E seu colo espera o noivo divino.

Na volta
Os pastores acharam o doce corpo
Apodrecido no espinheiro.

Sou uma sombra distante de lugarejos escuros.
O silêncio de Deus
Bebi na fonte do bosque.

Na minha testa pisa metal frio
Aranhas procuram meu coração.
Há uma luz, que se apaga na minha boca.

À noite encontrei-me num pântano,
Pleno de lixo e pó das estrelas.
Na avelãzeira
Soaram de novo anjos cristalinos.

(Tradução de Cláudia Cavalcanti)

via Revista Bula

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