Ademir Luiz

“Cantos”, do poeta Adalberto de Queiroz, nasce sob o signo da tradição poética. O livro foi vencedor do Concurso Literário Leodegária de Jesus, realizado pela Contato Comunicações, dirigida por Iuri Godinho, no contexto da ocupação cultural do Palácio Conde dos Arcos, promovida pela União Brasileira de Escritores Seção de Goiás (UBE Goiás), em 2024.

A escolha do nome de Leodegária de Jesus para o concurso estabelece uma ponte entre diferentes gerações da literatura goiana.

Nascida em 1889, Leodegária foi poeta, professora e jornalista e publicou “Corôa de Lyrios” em 1906, quando tinha apenas 17 anos. Sua trajetória possui importância especial na história da literatura produzida por mulheres em Goiás.

Ao recuperar seu nome como referência de um concurso literário, a iniciativa reafirma a permanência de uma autora cuja obra e trajetória vêm sendo progressivamente redescobertas e valorizadas. A própria pesquisa sobre a literatura goiana continua identificando “Orchideas”, de Leodegária, como uma obra de referência histórica.

É nesse horizonte de memória e continuidade que se insere Adalberto de Queiroz, poeta, escritor e jornalista, integrante da Academia Goiana de Letras, e autor de uma obra marcada pela sofisticação literária e diálogo com a tradição. Seu percurso inclui livros como Frágil Armação, Destino Palavra, O rio incontornável e Cadernos de Sizenando.

Recentemente, teve uma coletânea organizada pelo poeta e editor da celebrada Revista Bula, Carlos Willian Leite, Duro Feito Pedra, Frágil Feito Pólen.

Adalberto de Queiroz capa do livro Cantos ok1

A poesia de Adalberto de Queiroz, conhecido como “Barqueiro da Poesia”, caminha pelo uso da palavra como um instrumento de evocação e transcendência.

Em Adalberto de Queiroz, o “canto” pode ser compreendido tanto como voz poética quanto como espaço de memória. Cada poema constitui uma forma de dizer e preservar uma experiência, transformando o vivido em linguagem

O próprio título, Cantos, remete a uma das mais antigas matrizes da poesia. Antes de ser apenas palavra escrita, a poesia foi canto: voz, ritmo, memória e transmissão de experiências.

Na tradição ocidental, o termo também passou a designar partes de grandes poemas, como na Divina Comédia, de Dante Alighieri, e em Os Lusíadas, de Camões, e O Cantar de Rolando, épico que criou espiritualmente a França. No século XX, Ezra Pound levou essa tradição a uma dimensão monumental em seus Cantos, reunindo fragmentos de diferentes culturas, épocas e línguas.

Em Adalberto de Queiroz, o “canto” pode ser compreendido tanto como voz poética quanto como espaço de memória. Cada poema constitui uma forma de dizer e preservar uma experiência, transformando o vivido em linguagem.

O livro se coloca, assim, entre a tradição e o presente, entre a memória individual e a memória cultural. O poeta é sempre um farol para a humanidade, guia e tradutor do Zeitgeist de cada período, formando uma rede de tempos sobrepostos que, juntos, compõem o que chamamos de tradição. Adalberto de Queiroz abraça essa responsabilidade, embora nem sempre seja simpático ao espírito de seu próprio tempo, tantas vezes banal. Sua poesia, como os santos na ortodoxia católica, pode ajudar a pender a balança para o lado positivo da arte. Não duvido que um de seus poemas possa ter evitado um novo dilúvio.

Sua premiação ter ocorrido no Palácio Conde dos Arcos acrescenta ainda uma dimensão simbólica à obra. Um espaço profundamente associado à história política de Goiás foi transformado, pela ação da UBE-Goiás, em lugar de encontro entre escritores, leitores e diferentes manifestações culturais. Nesse cenário, Cantos representa não apenas o reconhecimento de um poeta, mas a continuidade da própria literatura goiana.

Leodegária de Jesus e Adalberto de Queiroz encontram-se, portanto, por meio da poesia, separados por mais de um século, mas unidos pela mesma necessidade essencial: fazer da palavra uma forma de permanência. O concurso que leva o nome da poeta pioneira e premia o livro de um poeta contemporâneo transforma a literatura em ponte entre gerações. Cantos é, nesse sentido, uma voz que se acrescenta a outras vozes e reafirma que a poesia, quando encontra leitores, nunca deixa de cantar.

Ademir Luiz, presidente da UBE-Goiás, é colaborador do Jornal Opção. O texto acima é a apresentação do livro, publicada com autorização tanto do autor quanto do poeta Adalberto de Queiroz.