O Apanhador no Campo de Centeio: Salinger e o medo da velhice

Sonhador, sem um objetivo concreto, o protagonista perambula pelas ruas sem esperança de encontrar respostas para seus questionamentos

Thauany Melo

O rosto de James Dean (1931-1955) ilustrou a conturbação do amadurecimento em “Juventude Transviada” (1955) e deu início a uma vertente cinematográfica que coloca a euforia da adolescência como o foco de tramas hollywoodianas. O período em que foi produzido — o pós-Segunda Guerra Mundial (1939-1945) — marcou os estudos psicanalíticos sobre a fase do amadurecimento humano e colocou questionamentos sobre o que ela representaria na vida de meninos e meninas. Desde então, vemos a rebeldia, as descobertas, a sexualidade como elementos que compõem a identidade dos jovens, quase sempre em contraponto às personalidades controladoras e hipócritas dos adultos.

No início da mesma década, “O Apanhador no Campo de Centeio” (1951), do escritor norte-americano Jerome David Salinger (1931-2010), levou a temática para o papel por meio do personagem Holden Caulfield. No enredo, o adolescente mal-humorado, mas sensível, relembra dois dias de sua vida confusa, que se passam após sua expulsão do colégio em que estudava em Nova York. Holden Caulfield é a personificação do que a maioria dos jovens enfrenta antes dos vinte e depois dos doze. Sonhador, mas sem um objetivo concreto, o protagonista perambula pelas ruas nova-iorquinas sem esperança alguma de encontrar respostas para os seus questionamentos, afinal, para onde vão os patos no inverno não é algo que um adulto “fajuto” saberia responder.

J. D.Salinger: autor do romance “O Apanhador no Campo de Centeio” | Foto: Reprodução

J. D. Salinger mostra no romance uma profunda capacidade de observação expressa de maneira autêntica com a linguagem e o ponto de vista que um adolescente teria nos anos 50 e, talvez, ainda hoje. Além das crises, as dúvidas e a intensidade dos sentimentos, o personagem manifesta um dos maiores medos da juventude: envelhecer. (Mais tarde, no romance “Homem Comum”, Philip Roth mostra o que ocorre com um homem que está envelhecendo. A velhice é um massacre – conclui o livro.)

O abismo da idade

Uma das poucas memórias que Caulfield julgava prazerosa era a do Museu de História Natural. O fato de o lugar permanecer sempre intacto causava uma sensação de conforto. Durante uma visita, o personagem refletiu: “Tem coisas que deviam ficar do jeito que são. Devia dar pra você meter essas coisas numa daquelas vitrinonas e só deixá-las ali quietinhas. Sei que é impossível, mas é triste mesmo assim”.

A situação expõe o medo de Holden da mudança e do amadurecimento, como se quisesse perdurar na pele daquele adolescente aventureiro e confuso, quase numa Síndrome de Peter Pan.

O primeiro diálogo que o adolescente tem com um velho, o professor Spencer, ele o descreve com pena e desvalor. Holden conta, com certo desdém, como ficara feliz comprando um cobertor e como as pessoas velhas se empolgavam diante de qualquer banalidade. No quarto de Spencer, o menino descreve apenas remédios, cheiro de Vick e o ar deprimente da velhice: “Tinha comprimido e remédio pra tudo quanto era lado, e estava tudo com cheiro de descongestionante Vick. Era bem deprimente. Até porque não sou louco por ver gente doente. O que deixava a coisa mais deprimente era que o nosso amigo Spencer estava com um roupão de banho tristíssimo, mulambento, que deve ter nascido com ele ou sei lá o que”.

De fato, a velhice assombra grande parte das pessoas que ainda não chegaram lá — e talvez quem já chegou. É sinônimo de morte para o corpo e para a alma, de remédios, solidão, estagnação, impotência e tudo que se opõe a excitação da juventude. Envelhecer é, para a maioria, triste e Caulfield expressa isso com sua visão amarga dos velhos.

Em sua cabeça, envelhecer significaria tornar-se acomodado, hipócrita e deprimente. Para ele, não tem como não odiar dizer alguma coisa nova para alguém que tem uns 100 anos de idade, porque eles não gostam de ouvir novidades. Ou a mediocridade da velhice combinaria com empregos igualmente medíocres: “Que trabalhinho maravilha pra um sujeito de sessenta e cinco anos. Carregar mala dos outros e ficar esperando gorjeta”.

J. D. Salinger nos tempos da guerra | Foto: Reprodução

Em meio as descrições impetuosas que faz dos velhos e todos os seres humanos que o cercam, Holden Caulfield salva as crianças. Seus irmãos mais novos, Phoebe e Allie, são descritos como carinhosos, inteligentes e divertidos, aparentemente as únicas pessoas possíveis de se relacionar.

Sua ideia de criança é idílica em contraponto ao suposto caráter deprimente da velhice e, ao invés de enxergar a infância como um processo de amadurecimento, Holden Caulfield lida com ela como o único momento possível para viver antes de cair no abismo da idade ou no abismo trágico que fica no fim do campo de centeio, de onde as crianças despencam depois de anos prazerosos.

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