O anjo perturbado

A história do meu amigo Joãozinho, que, praticando o “morcegoso”, desenhava umas loucuras surrealistas

Gabriel Nascente

Abri a gaveta e lá estava a minha memória, que dormia como um filhote de gato, ronronando. Tirei-a, com a mão. Dei cordas e ela começou a funcionar: — Tudo o que você fez ao longo de tua existência, maluca de babar, eu embuti nos segredos do ar. Agora, se voou, não sei. Sei que arranco lembranças do cinerário. Ela me disse.

Pintura de Vladimir Kazak | Foto: Reprodução

Depois eu mordi a ponta da minha caneta. Divisei lá fora os ramos da palmeira, esgarçada em sereno verde de garbo. A palmeira, sempre altiva, acima dos telhados. Sacudi as ideias. Cocei; e me vi numa rede, ao lado de um roto tanque de lavar roupas, e de tempestuosa chuva, com estralos de relâmpagos. Eu me queimava em febre, e lia Franz Kafka: O castelo, em sua gigantesca atmosfera de pesadelo, onde K. (o protagonista) é o estranho do labirinto, de advogado a revisor de jornal, de agrimensor a bedel. E o estalajadeiro? E a aldeia? Ia-me, imerso, submerso, às tonturas daquela fascinante leitura.

A minha idade ali somava 14 anos. E já então as emoções me ferroavam o espírito, com apetites estéticos de ser um escritor. Motivos de muitos escárnios na minha juventude. Tinha nada não. Eu era mesmo um louco amarrando sonhos com o cordame das palavras.

O Joãozinho, filho do pintor de paredes João Batista, da turbinada grei dos alcoólatras, escondia uma corrosiva neurose nas galerias de seu sistema nervoso; dado porque — e principalmente — era feio pra caramba! E sua boca fedia a álcool, hálito da Besta do Apocalipse. O Joãozinho e sua soturna vocação para suicídio, sem ninguém que descobrisse essa semente do demônio germinando entre os recônditos de tua pobre alma.

Pintura de Gustave Courbert

Era meu amigo. E de impudicas safadezas com as donzelas da região. Enquanto um atacava, o outro era o vigia. Pulávamos os muros da Escola Técnica, amoitando as namoradinhas.

Matávamos as aulas, em nome de nossas vadiagens libidinosas. O professor de desenho industrial e eletrotécnico, o engenheiro Jorge Felix de Sousa, dizia, todo compenetrado em seus princípios de castidade cristã: “O… tem uma leve vocação para ser tarado!” E todos explodiam em ruidosas gargalhadas.

Mais tarde, descobrimos que o Joãozinho praticava o morcegoso — vício de esconder-se num cômodo escuro do barracão de fundos de sua casa, onde, em meio à fedentina das paredes úmidas e restos de tintas podres, e de pincel em punha, desenhava umas loucuras surrealistas, dizendo-se ser ele o novo Van Gogh, do século 20.

O tempo engoliu todos os relógios e auroras das nossas juventudes. E o Joãozinho sumiu. Eu fui fugido de minha terra natal — Goiânia — para São Paulo, num repto de ousada loucura. Ir viver na pauliceia de Mário de Andrade, vendendo poesia para o povo. Aos domingos era na Praça da República, onde eu armava a minha barraca de menestrel. E, durante as semanas, peregrinava à procura de emprego, mas exercendo o meu ofício de camelô da poesia, de bar em bar, exposto às lufadas de frio das noites paulistanas.

E foi que, durante uma de minhas andanças pelo redemoinho de gentes, ao longo da Avenida São João, entrei de repente num boteco, para beber uma cerveja, de pé, à orla do balcão. Olhei para rua, e vi um vulto, como que estonteado, maltrapilho, e faminto. Era o Joãozinho. Meu Deus, de onde você veio, filho de Cristo? Exclamei, estupefato. “Não sei. Eu quero uma pinga. Estou com fome.” Ofereci então um sanduíche e depois um copo de cerveja. Ele deu uma dentada e bebeu. Súbito, vomitou. E saiu correndo. Eu nunca mais vi o Joãozinho.

Anos depois, alguém, em São Paulo, e, por coincidência, na Praça da República, me deu a fatídica notícia: “Ocê se lembra daquele seu amigo de infância, o Joãozinho? Pois é. O infeliz se suicidou. bebendo formicida, lá no brejo do córrego João Leite. Isso mesmo, deu fim à sua própria vida”.

— Que siga ele para o empíreo, ó alma de anjo perturbado!, lamentei-o lacrimoso.

Gabriel Nascente, poeta e prosador, é cronista do Jornal Opção. E-mail: [email protected]

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.