O analfabetismo funcional entrou em metástase. Vamos consultar Lima Barreto?        

“Não sei grego nem latim, não li a gramática do sr. Cândido Lago, nunca pus casaca e até hoje não consegui conversar 5 minutos com um diplomata bem talhado” — Lima Barreto

Brasigóis Felício

Especial para o Opção Cultural

Num tempo e lugar em que prolifera a malta dos analfabetos funcionais, e dos ágrafos, avessos ao convívio com os livros, às bibliotecas, e seus habitantes, com o triunfo da mediocridade e o sucesso da banalidade surfando a onda globalitária da aversão à profundidade dos estudos e das posturas no existir, de certo modo a experiência dramática de Lima Barreto, o pingente, lamentavelmente, é em toda parte atualizada.

Pintura de Goya

Curricule-se ou morra! Eis a palavra de ordem, o desespero da gritaria geral, de que compartilham professores, pós-graduados ou não, ou alunos em frenética correria para ter um dr. antes do nome civil.

Em grande parte —  e talvez na totalidade — das universidades e empoderadas e periféricas faculdades, periféricas ou não, deste Brasilzão carnavalesco, não estão fazendo ensino e aprendizado de ciência, artes e ofícios: estão se dedicando a construir currículos, cumprindo metas estabelecidas pelo MEC — que segue, impávido e colosso, em gastos e desperdícios, multiplicando as formas de enganar a sociedade, e a si próprios.

Daí o desespero, a palavra de ordem: publique ou morra! Por toda parte pululam hordas e tribos opiniáticas de pós-graduados analfabetos funcionais, condenados ao desemprego crônico. E não economizam no publicar, embora condestáveis ou neófitos acadêmicos tenham a triste certeza de que não serão lidos — nem pelos colegas de ofício, que são competidores entre si, e menos ainda pelo leitorado do “público externo”, que, em verdade, inexiste.

Publicam tanto, para morrer na praia — sendo quase a maioria do leitorado, integrante do corpo discente, não tendo sido desasnado nos cursos médio e primário, é incapaz de interpretar um texto lido ou de escrever alguma tosca algaravia sem cometer batalhões de erros gramaticais, assassinando sem piedade a “última flor do Lácio, inculta e bela”.

Lima Barreto: um dos mais importantes prosadores do Brasil | Foto: Reprodução

Lima Barreto

E como sempre, como “o contador de histórias”, vimos correndo para o lugar onde estávamos indo, embora sem nunca chegar a lugar nenhum. Como Lima Barreto, o pingente, criador de Policarpo Quaresma (um que amava o Brasil, e a terra, mais do que amava a si mesmo), venho correndo com desespero.

E corro, cada vez mais devagar, não porque aspire a glória do podium, onde erguem seus louros os que nasceram para vencer, e sim porque a quem nasceu condenado, na grei dos deserdados, a salvação não é vencer — é não ser vencido. “O que você pretende fazer aqui, no exército?”, perguntou o rude e truculento sargento ao soldado Gump: “Fazer tudo o que o senhor mandar, sargento! “Muito bem! Nunca vi um soldado tão bem-dotado! Você é um gênio, soldado Gump!”. “Nunca achei tão difícil servir ao exército, pensou o soldado Gump.: “Basta acordar bem cedo, arrumar a cama e marchar direito”.

Pintura de Goya

Na Monarquia como na República abunda a malta dos implacáveis e incansáveis defensores da “última flor do lácio, inculta e bela”. Em defesa da castidade do idioma pátrio, os homens que falam javanês terçam armas e desferem, a torto e a direito (mais a torto do que a direito), as verrinas filipinas de suas farpas ferinas. E, quanto mais abundam, mais prejudicam, como falou o pingente Lima Barreto, vítima preferencial de seus padrinhos: “Os protetores são os piores tiranos”.

Preto e pobre, Lima, o pingente, tinha de ser reprovado sempre — e o foi por seu protetor e padrinho, o visconde de Ouro Preto. E quando, no desespero de tentar escapar de seu destino previsível de mestiço e suburbano, buscou-lhe auxílio para os estudos, teve que ouvir dele uma exprobração contra “essa mania de empregos e doutorad”o, citando os ingleses e americanos: “Todo mundo quer ser doutor”. “Corei indignado e respondi, com alguma lógica, que me era impossível romper com a mania de doutorado; se os fortes e aparentados, os relacionados para a formatura apelavam, como havia eu, mesquinho, semi-aceito, de fazer exceção?”.

Assim falou Lima Barreto, o pingente (e falou por mim): “Não sei grego nem latim, não li a gramática do senhor Cândido Lago, nunca pus casaca e até hoje não consegui conversar cinco minutos com um diplomata bem talhado; sigo, entretanto, o exemplo do severo e saudoso lente de mecânica da Escola Politécnica, doutor Licínio Cardoso, que estudou longos anos de matemática para curar pela homeopatia. O seu espetáculo foi-me sempre fecundo. As reprovações que levei foram sempre justas. Antes de mim, todos os que passaram, saíam maravilhosamente; depois… oh! Então!”. Ai de mim, escritor analfabeto, escriba sem latinório, sem eira nem beira, reduzido a ser um cidadão cronicamente abatido e mordido pelos ferozes defensores da flor ferida. Crônico! Crônico! Eis o epíteto, resultado do crime hediondo que cometi: Crônico! Crônico!”

E o duro epíteto, e mau, vai com a constância de uma eumênide, a nos perseguir no leito, no baile, na igreja, através dos meses, anos, torturando-nos a vida toda. Os graves burgueses ao saber viram-nos as costas; um criminoso, talvez, pensam. As deliciosas moças riem à socapa e, entre si, tão preciosas criaturas, endossadas por algum primo elegante, apostrofarão: uma zebra! Os lentes exorcizam e excomungam o pobre diabo… E assim vivemos nós, a ouvir sempre dos céus, das árvores, das coisas mudas, o duro epíteto: crônico! Crônico!

Logo adiante, na mesma crônica, Lima Barreto consola-se, lembrando que Aristóteles, Homero e Descartes não seriam aprovados na Escola Politécnica, onde jamais conquistariam o canudo nobilitante: “Só tu — grave e equilibrado Pacheco! — só tu não ouvirás durante o existir aquele desgracioso vocábulo. Burgueses honestos, lentes austeros, meninas casadoiras! Repeti aos ouvidos de Descartes, de Homero, de Aristóteles, aos meus também, tão agudo dizer, e reservai vossa consideração, as vossas delicadas mãos aos que não são analfabetos crônicos como eu”.

Brasigóis Felício, escritor e jornalista, é membro da Academia Goiana de Letras e colaborador do Jornal Opção.

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