O amor em minúsculo: bell hooks em tudo sobre o amor

No primeiro livro da Trilogia do Amor, a escolha do ato de amar é visto como um processo de construção de uma sociedade igualitária

tudo sobre o amor de bell hooks. Assim mesmo, em minúsculo. Ao resgatar o nome da bisavó, a autora estadunidense, também utiliza o nome desta forma como um posicionamento político que ela buscou para romper com as convenções linguísticas e acadêmicas do sistema. Isto porque, o desejo maior de bell hooks sempre foi o de colocar um enfoque maior ao seu trabalho, não à sua pessoa.

Infelizmente, bell hooks deixou o mundo no dia 15 de dezembro do ano passado, aos 69 anos, devido a insuficiência renal em estágio terminal. Gloria Jean Watkins – nome de certidão – nasceu em 1952, na cidade de Hopkinsville, Kentucky. Em 1973, se formou em Inglês na Universidade Stanford, fez um mestrado, também em Letras na Universidade de Wisconsin e, por fim, um doutorado de Literatura na Universidade de Califórnia em Santa Cruz. Porém, foi no ano de 1981, que bell hooks fez a primeira revolução: lançou seu primeiro livro.

“Eu não sou uma mulher negra? Mulheres negras e o feminismo” é uma análise do movimento feminista contemporâneo, a partir da analise do discurso de Sojourner Truth, uma mulher negra que foi escravizada e, em 1857, já livre, apontou as incoerências nas falas de mulheres brancas que se reuniram em uma assembléia para discutir o sufrágio feminino.

A partir daí, mais de outros 40 livros foram lançados por bell hooks, sobre raça, feminismo e educação. Além disso, com o pé na literatura, as poesias e textos autobiográficos também foram atravessados por ela, sendo que um dos temas mais prestigiados por hooks, a busca por entender o que é o amor.

Falando sobre o amor

Com o lançamento do livro “tudo sobre o amor: novas perspectivas” somente em 2021 no Brasil, o texto foi publicado, originalmente, nos Estados Unidos no início dos anos 2000, em forma de trilogia. Intitulada como “Trilogia do Amor”, até o momento só o primeiro exemplar foi lançado aqui (tudo sobre amor), sendo que “salvação: pessoas negras e amor”, de 2001, e o “comunhão: a busca feminina pelo amor”, 2002, ainda não foram traduzidos para o português. Neste livro inicial, bell hooks faz a pergunta do que seria o amor, afinal?

Em uma busca ao longo da vida para entender e conceituar o amor, a autora deixa todas as definições subjetivas para trás em “tudo sobre o amor”. Nesta obra, a autora faz uma análise crítica de frases comuns e subjetivas, como “o amor é inexplicável” ou “o amor é uma incógnita”. No primeiro livro, hooks evitou pulverizar o significado do amor, justificando que assim, a sociedade acaba tornando-o mais difícil de entender.

Em contramão do pensamento corrente que entende o amor como uma fraqueza e irracionalidade, bell hooks faz o primeiro movimento contrário contra isso ao escrever que é preciso deixar claro que, para entender o amor, é necessário entendê-lo como uma ação, não um sentimento. Para bell hooks, o ser humano escolhe amar, assim como escolhe realizar uma ação.

Nessa linha, os sentimentos não são escolhidos. É preciso vivenciar, de fato, todos os sentimentos humanos, até mesmo os considerados “ruins”, como a raiva e tristeza. Ninguém escolhe sentir esses sentimentos, porém, eles aparecem e, com isso, é preciso lidar com eles. Já o amor andaria contrário a isso. Se é uma ação, se pode vivê-lo e utilizá-lo como uma força transformadora. Quando você ama, você faz uma decisão.

Para a autora, o amor é um mecanismo contra a ganância e obsessão pelo poder que domina a sociedade atual. Para ela, nós não temos que amar. Escolhemos amar. O amor é uma força de vontade. Esta que será usada contra uma cultura patriarcal de abuso e violência.

Com o apoio do livro de autoajuda do psiquiatra chamado M. Sctott Peck, a autora conseguiu definir ainda mais o amor. “A trilha menos percorrida: uma nova visão da psicologia sobre o amor, os valores tradicionais e o crescimento espiritual”, de 1978, mostra que o amor é visto como uma vontade de nutrir nosso crescimento espiritual e de outra pessoa. Então, amor – o ato de escolha – é, antes de tudo, alimentar a sua alma e, consequentemente, a de alguém.

Ao ver o amor como uma forma de bem-estar coletivo, para de ver essa pratica como única e exclusivamente romântica se torna uma tarefa mais fácil. Isto porque se pode escolher amar em todas as relações e contextos, sejam elas as familiares, nas amizades, no trabalho ou nas vivências religiosas.

Com isso, ao terminar, fica aqui a questão: você escolheu amar hoje?

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