Novo filme de Laís Bodanzky debate o papel social da mulher

“Como Nossos Pais” analisa as dinâmicas familiares brasileiras, em que a essencial figura feminina se vê em meio à carga brutal de afazeres e o drama da implacável falibilidade

Atriz Maria Ribeiro (e), no papel da protagonista Rosa, contracena com Clarisse Abujamra, que interpreta Clarice, mãe de Rosa

Esta semana, saiu em home vídeo pelas plataformas de streaming o mais novo filme de Laís Bodansky, “Como Nossos Pais” (2017). Diretora de obras como “Bicho de Sete Cabeças” (2001), “Chega de Saudade” (2008) e “As Melhores Coisas do Mundo” (2010), nesse novo trabalho, Laís – que também assina o roteiro em conjunto com Luiz Bolognesi – coloca como pano de fundo as relações familiares para explorar um tema difícil (porque delicado), mas importantíssimo: o papel social da mulher.

Não dá para afirmar assim, de cara, que o objetivo do filme é levantar a bandeira do feminismo – ainda que Bodanzky, vencedora de seis Kikitos no Festival de Gramado deste ano, seja inequivocamente uma grande feminista. Mas ao se deter sobre os bônus e ônus que sua protagonista Rosa joga na balança, ao tentar ser boa filha, dedicada esposa e carinhosa mãe, fica mais do que claro que a análise das dinâmicas familiares brasileiras está visceralmente ligada à crítica quanto ao papel social da mulher. Uma família perfeita precisa de uma mulher dedicada. Quem nunca ouviu?

A tonalidade do filme é estabelecida logo nas primeiras cenas: a aparente alegria que paira sobre um almoço familiar é abruptamente rasgada por discussões comezinhas, daquelas típicas de relacionamentos desgastados pelos anos de convivência. Mãe briga com filha, que briga com marido, que joga na cara de cunhada, que cutuca genro… todo mundo sabe como é. E isso termina numa grande tempestade – literal e figurativamente.

Rosa (magistralmente interpretada por Maria Ribeiro), que como qualquer pessoa normal quer, conscientemente ou não, corresponder a todos os papéis comumente atribuídos a ela, se vê cada vez mais acossada frente à sua implacável falibilidade. Não dá para ser perfeita, cumprir com todas as missões de forma impecável, quase onisciente. E no meio de uma discussão com sua mãe, Clarice (Clarisse Abujamra, numa interpretação inicialmente caricata, mas que logo brilha), descobre de forma absolutamente inesperada uma reviravolta em seu passado. Não bastasse isso, dias depois, toma ciência de uma guinada também em seu futuro.

Mesma balança

Balizada por esses dois fatos pesados envolvendo nascimento e morte de planos, sonhos e lembranças, Rosa – que é pressionada a assumir a posição de supermãe pelas gerações anteriores e posteriores – inicia uma jornada de profunda autocrítica. Sua rotina a sufoca, a impele à irritação, frequentemente lidando com a pressão de ser perfeita, até que o copo transborda. A perfeição não existe, e as pequenas mentiras cotidianamente contadas precisam ser enfrentadas nesse processo de transformação.

A trama perde um pouco da profundidade ao colocar os personagens masculinos todos na mesma balança, de forma plana. Inicialmente, a intenção talvez tenha sido a de cravar que a mulher é a única responsável por assumir o papel que quiser, da forma que quiser, independentemente do machismo que a rodeia, ainda que para isso seja necessária uma boa dose de sacrifício – o que é uma conclusão lógica do filme. Mas, em que pese a ausência de personagens francamente machistas no enredo – o que afasta a obra das discussões rasas a respeito de desigualdade de gênero -, todos os homens retratados são patéticos.

Pegos em contradições flagrantes, donjuanismos canastrões, descontrole orçamentário, desleixo com a rotina, submissão, defeitos óbvios e deslizes infantis, nenhum dos homens se salva. Pedro (Felipe Rocha), em especial, é erguido ao mais alto patamar, protagonizando uma cena de arrancar suspiros na plateia, para em seguida figurar numa das mais patéticas cenas de derrocada moral.

Contraponto americano

Nesse ponto, é interessante um intertexto que se pode fazer com “Big Little Lies”, uma série recentemente lançada pela HBO que conta com Reese Whiterspoon, Nicole Kidman e Laura Dern no elenco. O drama americano narra a história de mulheres envoltas em seus conflitos sociais numa pequena cidade da Califórnia. A trama bem elaborada com o tom “girl power” evidencia a força e superação femininas – individualmente e em conjunto – fazendo coro ao pedido de Chimamanda Ngozi Adichie: sejamos todos feministas; homens, inclusive. (Na série gringa, entretanto, as personagens masculinos são tratados de forma mais profunda e digna.)

Mas, conforme já dito, “Como Nossos Pais” não é um filme de bandeira. É muito mais profundo e urgente do que isso. O diálogo final entre Rosa e seu patético marido Dado (que, me desculpe a Clarice, não é tão legal assim), vivido por um Paulo Vilhena que interpreta a si mesmo – como quase sempre -, é de arrepiar.

Pela verdade, pela sobriedade, pela sinceridade. É preciso abandonar as pequenas mentiras do dia a dia se quisermos descobrir a nós mesmos. Jogar a roupa suja fora. E, mais especificamente quanto às mulheres, pressionadas por papéis sociais impostos geração após geração, é preciso reconhecer que a força feminina vem justamente de se saber falha, com honestidade e sinceridade para consigo mesma, mas compreender-se sem limites para buscar a própria felicidade.

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