[Segunda parte da resenha do livro “Mega-Ameaças — Dez Perigosas Tendências Que Ameaçam Nosso Futuro e Como Sobreviver a elas”, de Nouriel Roubini — Editora Crítica, 352 páginas, tradução de Maria de Fátima Oliva do Coutto]

Com a mente sempre voltada para previsão do futuro, o economista Nouriel Roubini (nascido na Turquia, mas cidadão americano), de 65 anos, tem muitas coisas a dizer quando o assunto relaciona-se à instabilidade financeira e ao fracasso das moedas. Ele é conhecido como Dr. Doom — ou seja, Doutor Catástrofe ou Doutor Apocalipse.

As instabilidades do Banco Central dos Estados Unidos (FED) e suas contínuas mudanças de objetivos não deixam de acarretar instabilidades ao sistema financeiro. 

Cabe, aqui, apontar o que tais mudanças representam em termos de fragilizar um dos símbolos da nação: a moeda. No entender de Nouriel Roubini, “se os bancos centrais forem prejudicados por suas pautas conflitantes e múltiplos objetivos, o valor de nossas moedas corre perigo.” Eis aí uma mega ameaça sobre o colapso financeiro que não deve ser desprezada.

Não deixa de ser uma preocupação consistente do autor apontar os perigos que corre a moeda ante as constantes mudanças do Banco Central Americano. Veja alguma dessas mudanças no transcorrer do tempo.

No passado, o único papel do FED era zelar pela estabilidade de preços. Com o transcorrer do tempo, os bancos centrais passaram a focar no crescimento e no desemprego. Atualmente, novas realidades voltam a ocorrer, no momento em que acontecem mudanças relacionadas ao clima e ao tema em torno da desigualdade entre riqueza e renda. Isso passa a ser considerado como essencial num mundo, cada vez mais, injusto.

Com a invasão da Rússia na Ucrânia, os bancos centrais mudaram novamente seus objetivos. Agora, voltados para apoiar questões nacionais dos Estados Unidos e de seus aliados no mundo ocidental. A fragilidade do dólar, como moeda adotada por inúmeros países para transações com o resto do mundo e o consequente fortalecimento da moeda chinesa constituíram-se numa mega ameaça à liderança inconteste dos Estados Unidos, construída desde o acordo de Breton Woods.  Acordo esse firmado entre a nação vencedora da segunda guerra mundial e seus aliados. Nessa nova realidade, o notável crescimento da economia chinesa não pode deixar de ser considerado como um fator perturbador ao status-quo.

Para onde vai a globalização?

Do ponto de vista ideológico, a globalização é tida, pela esquerda, como uma espécie de leviatã hobbesiano, responsável pelos desempregos e pelas mazelas sociais. Num ambiente assim, florescem as teses do protecionismo que servem como bandeira política para parcela da sociedade com visões mais pessimistas sobre a globalização.

Por outro lado, o deus mercado e suas maravilhas aproximam-se da liberdade de entrada e de saída dos produtos. Vale ressaltar que essa liberdade de ir e vir do produto, bem como o medo do desemprego, foram combustíveis para que o discurso político de Nouriel Roubini fosse levado a sério.

Outra instigante reflexão sobre os rumos da globalização, prevista pelo autor, relaciona-se aos freios que vêm sendo implementados no ritmo dessa nova fase de expansão capitalista. Na verdade, a guerra da Ucrânia e a acirrada disputa com a China colocaram, em segundo plano, as discussões quanto aos rumos do mundo globalizado. No entender de Nouriel Roubini é grande a possibilidade de surgir, no tabuleiro geopolítico mundial, uma nova Guerra Fria entre os Estados Unidos e a China. Sobre esse assunto, o autor relata uma mega ameaça relacionada ao recrudescimento da globalização e o que isso representa para a economia mundial: o fechamento de fronteiras. São suas palavras: “a nova guerra fria entre China (e seus aliados) e Estados Unidos (e a maior parte do Ocidente) deve acelerar nas duas próximas décadas. Vamos nos preparar para uma gradual, mas constante balcanização da economia mundial, quando a depressão geopolítica se agravar.”

Nouriel Roubini: o Dr. Apocalipse que acerta nas análises das crises financeiras | Foto: Reprodução

Roubini reforça seus argumentos que frenam a globalização, quando avalia questões relacionadas às compensações salariais e às normas trabalhistas. Para ele, não existe almoço grátis, quando o assunto é equiparar ganhos salariais entre países ricos e pobres. Ou seja, “os salários são mais baixos onde a produtividade da mão de obra é mais baixa.”

As variáveis ambientais, outro importante tema que deve ser considerado, clamam por medidas protecionistas fundamentais para cadenciar o ritmo da globalização. Nesse aspecto, o autor alerta para uma realidade, que contribui, decisivamente, no intuito de limitar a intensificação do mundo sem fronteiras que hoje vivenciamos.

Eis aí uma mega ameaça de fechamento das fronteiras que, certamente, restringirá a expansão dos espaços no mundo que hoje se globaliza. No entender do autor, “ambiciosos objetivos de redução de gases de efeito estufa provocam conflitos com os mercados emergentes. As emissões aumentarão, na China, na Índia e em outros países em desenvolvimento à medida que suas economias cresçam.”

Com seu olhar aguçado sobre as entranhas do mundo globalizado, Nouriel Roubini aponta para uma realidade imperceptível para maioria dos estudiosos dessa nova face de expansão capitalista:  o excesso de preocupação com as variáveis ambientais. Essas variáveis, no fundo, refletem “a raiva contra a crescente  diferença de riqueza entre os donos do capital e  a grande maioria dos cidadãos. E, como sempre, o mal-estar econômico exige um bode expiatório.” Dito isso, conclui o autor: “como é de se prever, os oponentes da globalização sairão com vantagem.”

Em seus escritos, ele relata a dinâmica da globalização que, para o autor, inicia-se com as trocas de bens entre consumidores de uma aldeia e produtores de outras. Em seguida, a globalização faz-se presente no Canal da Mancha, fato que é, então, explorado, comercialmente, pelos ingleses durante a chamada “Idade das Trevas”

A primeira Guerra Mundial e a praga da “gripe espanhola, que matou milhares de pessoas, diretamente, influenciaram para que houvesse retrocesso na expansão do capitalismo. A partir daí, a economia norte-americana exerceu seu poderio de impor regras voltadas para o protecionismo.

A partir dos anos 1990, os Estados Unidos negociaram com a China a abertura econômica, que impôs ao planeta uma nova realidade de mundo sem fronteiras chamada de globalização.

Dentro dessa nova onda de modernização do capitalismo mundial, é fundamental que essa “hiperglobalização” seja gerenciada da melhor maneira possível. Para isso, Nouriel Roubini relata que a dinâmica da modernização do capitalismo globalizado produz ganhadores e perdedores.

Na condição de ganhadores encontram-se os trabalhadores das modernas indústrias chinesas, os trabalhadores qualificados dos mercados emergentes, as exportações chinesas, os trabalhadores superqualificados chineses, etc.

Por outro lado, entre os perdedores enquadram-se trabalhadores de baixa e de média especialização em fábricas e indústrias. Também, inclui-se entre os perdedores, os trabalhadores rurais.

A globalização, simplesmente, destruiu empregos para vida toda. Como os  empregos bons, estáveis, bem remunerados e feitos para durar até a aposentadoria, praticamente, quase não existem mais no mercado.

Para constatar essa realidade, explicito o exemplo descrito por Nouriel Roubini para demonstrar a instabilidade de empregos bem remunerados quando se conecta o comércio com a tecnologia. Vamos, pois, ao exemplo:

“Suponha que uma invenção permita a fabricantes produzir uma nova torradeira, um micro-ondas ou uma cafeteira com um quinto de trabalho e capital. Esses novos aparelhos são vendidos por dez dólares, e não mais pelo custo inicial de 50 dólares. Todo consumidor que compra um aparelho desses desfruta de um subsídio no valor de 40 dólares. O que imagina que acontecerá em seguida? Quatro quintos da força de trabalho na indústria fabricante de torradeiras, cafeteiras e micro-ondas perderão seus empregos.”

A globalização intensificou, mais ainda, a perda de empregos, no momento em que os algoritmos passaram ser usados com frequência. A respeito desse assunto, o autor relata o desaparecimento de empregos da seguinte natureza: caixas de supermercados, cobradores de pedágio nas autoestradas, agentes de viagem e caixas de bancos.” Relata o autor, para, em seguida indagar “Quem será o próximo?

Certamente, nada semelhante ao que ocorreu, nos tempos da Revolução Industrial, em que o trabalhador rural mudava de emprego, geralmente, empregando-se no chamado “chão da fábrica.” Nessa nova realidade que vivemos, a perda do emprego manifesta-se com a extinção das profissões.

O perigo de “desglobalização”

O grande alerta do autor refere-se ao fato dos perigos da “desglobalização” desestruturar gigantescas redes, que conectam milhões de usuários finais e estabelecimentos de produção de componentes em diversas partes do mundo.

 Nouriel Roubini aponta para outro grande inconveniente da “desglobalização”. Ele centra-se no lado invisível dos bens intangíveis, que são invisíveis aos nossos olhos. A seu juízo, a maioria das pessoas enxergam bens tangíveis. Entretanto, aquilo que é invisível aos olhos das pessoas, os bens intangíveis, representam de 75% do valor do produto.

Portanto, o olhar para o comércio e para suas grandes movimentações pode criar uma impressão de otimismo que não reflete a realidade das coisas.

Após levantar pontos importantes a respeito da desaceleração (ou não) da globalização, resta-nos indagar: que faz da globalização uma mega ameaça na visão do autor? Deixemos que o próprio responda: “Um excessivo retrocesso do comércio e da globalização representa uma mega ameaça para o mundo da alta tecnologia no qual vivemos, teremos sorte se, depois de três décadas de hiberglobalização, não descambarmos para a desglobalização radical”.

Salatiel Soares Correia é engenheiro, bacharel em administração de empresas, mestre em energia pela Unicamp, autor de oito livros relacionados aos seguintes temas: energia, economia, política e desenvolvimento regional. É colaborador do Jornal Opção.

Leia a primeira parte da resenha