Nicanor Parra é o bardo do chão firme e da antipoesia

Para o chileno, “a vida não tem sentido”, e essa sua abordagem desesperançosa, que percebe o mundo sem lógica ou sentido transcendente, harmoniza-se com o pensamento de Camus

Ricardo Silva

Especial para o Jornal Opção

“O autor não responde pelos incômodos que seus escritos possam provocar”, diz Nicanor Parra em “Advertência ao Leitor”, poema do seu “Poemas e Antipoemas”, de 1954, obra responsável por uma tremenda revolução na poesia chilena.

O poema está na coletânea “Só Para Maiores de Cem Anos — Antologia (Anti)Poética” (288 páginas) — que reúne, em 75 poemas, uma parte expressiva da obra de um dos maiores nomes da poesia da literatura ibero-americana. Edição bilíngue publicada pela Editora 34, a obra foi traduzida por Cide Piquet e Joana Barossi, que assina um posfácio tocante e pessoal.

A tradução é um primoroso trabalho de manutenção da linguagem, da marcação, e da temporalidade do ritmo de Parra — que funciona perfeitamente alinhada com os poemas em idioma original, no qual o leitor pode cotejar e destrinchar o elaborado exercício formulado a quatro mãos por Barossi e Piquet. Um exercício que mantém um profundo respeito à poesia de Parra e à sua linguagem.

A obra serve como um importante campo de apresentação dos leitores brasileiros a um dos maiores poetas de todos os tempos, admirado por seus colegas de ofício, como o poeta beatnik Allen Ginsberg, ou ainda William Carlos Williams. Parra foi considerado, pelo crítico Harold Bloom, como “um dos melhores poetas do Ocidente”, elogio que não pode, por mais que se tente, nivelar por baixo.

Conhecer Parra e ser inserido em sua obra é poder redimensionar o significado da produção poética e balançar as sólidas bases da poesia demiurga, de exaltação clássica e invariavelmente pedante. É enfim conhecer e simpatizar com a antipoesia, feito impetrado por Nicanor Parra e que ganhou replicadores ao redor do mundo, mas nenhum com o viço e força irônica do seu mestre fundador.

Antipoesia

A antologia (anti)poética é uma porta de entrada para este nome que circula fora do circuito pop da poesia, mas que é um dos fundamentos de uma profunda reflexão do fazer poético.

Parra foi a mente responsável pela fundação da antipoesia — a poesia calcada no rés do chão, que foge dos esquemas eloquentes da clássica poesia sobre-humana, altiva, que se ocupa dos grandes temas do amor, da morte, da vida, do qual temos Pablo Neruda como grande representante e como polo diametralmente oposto em relação ao seu conterrâneo chileno.

Nicanor Parra, formulador da antipoesia, aproxima-se do romancista Albert Camus | Foto: Reprodução

O jogo que Parra se propõe a jogar, e sobre o qual elaborou suas simplificadas regras, é a antítese do que representa Neruda. Enquanto o conterrâneo escrevia “Canto Geral”, Parra tecia as os versos de “Solilóquio do Indivíduo”, sua réplica antipoética que resignificava o status da poesia e do seu confeccionador.

Ao longo dos seus 103 anos — o poeta morreu em 2018 —, Nicanor Parra erigiu um monumento poético sólido no qual a língua sem ornamentos, o sarcasmo e a ironia, atravessados por um sentimento constantemente subversivo, eram os protagonistas. “Durante meio século/A poesia foi/O paraíso do bobo solene”, escreve Parra em “A montanha-russa”, poema da década de 60. Foi contra este paraíso solene que o antipoeta calcou seu projeto poético.

O chileno estrutura sua batalha contra ao que chama de “poesia da nuvem”, essa que se prendeu a temas grandiosos mas distantes da realidade cotidiana, e contra ela se opõe com “a poesia da terra firme”.

A antipoesia de Parra foi responsável por colocar em cheque a centralidade dos maiores nomes da poesia andina como Pablo Neruda, Vicente Huidobro, Pablo de Rokha, ou mesmo Gabriela Mistral, todos considerados a nata da vanguarda poética chilena. Não para Parra. Com sua antipoesia incrustrada de mordaz e ferina anarquia, o antipoeta não teme por nada, sendo feito do puro poder de contradizer, de se opor.

Nicanor Parra: poesia é bem diversa da poesia de um Pablo Neruda | Foto: Reprodução

“Contra a poesia das nuvens/Nós opomos/A poesia da terra firme/— Cabeça fria, coração quente/Somos terrafirmistas convictos”, escreve Parra em 1963 no poema “Manifesto”.

Pisar na terra firme da antipoesia é definir um campo de combate, que foi travado por Parra até o último dia dos seus mais de um século de existências por estas plagas terrestres. O antipoeta condena “A poesia do pequeno deus/ A poesia da vaca sagrada/ A poesia do touro de ouro”.

Contra o vazio tosco e fútil das metáforas pomposas, do beletrismo, os malabares pedantes e a retórica solene da poesia de inspiração romântica, os versos antipoéticos que jogam sem se preocupar com as regras de uma escola ou de uma corrente literária, o discurso incisivo direto que equilibra o humor, a ironia, e a capacidade de provocar sentimentos reais e desvelar-se no mais completo absurdismo, como tudo que há de absurdo na vida corriqueira.

Sem prisões e sem amarras (“Em poesia tudo é permitido”). É assim que se compõe o universo da antipoesia estruturado por Nicanor Parra. O puro sumo da revolta contra os castelos de nuvens, que culminam numa obra colossal, capaz de causar uma reviravolta mental no leitor, impulsionando-o para o gozo da contradição sem medo e da imposição de sua própria personalidade no mundo.

Um poeta absurdo

Albert Camus ao publicar, em 1942, o romance “O Estrangeiro”, externaria para o mundo um dos mais conceitos filosóficos mais poderosos a se fixar na mente do sujeito contemporâneo: o absurdo.

O romance de Camus é um destes exercícios do pensamento que, por meio de uma linguagem literária, formula e engendra um campo filosófico de reflexão. É a literatura sendo plataforma de manifestação da filosofia.

Neste mesmo ano de 1942, o escritor argelino traz à lume o ensaio “Mito de Sísifo”, que é o espelho epistemológico do seu trabalho ficcional anterior.

Ao trilhar o caminho aberto por Parra e sua antipoesia, é inevitável não traçar uma similaridade entre o seu trabalho e o aquele desenvolvido por Camus. Como o escritor argelino, o poeta chileno não se exime ou se recolhe diante da tarefa de “sustentar a absurdidade do mundo”.

Um exemplo nítido e direto dessa ligação, é o triplo poema que considero como um trabalho do campo do Absurdo — dentro de uma leitura de acepção camusiana —, intitulado como “Três poesias”, do livro “Versos de Salão”, de 1962, que vale transcrição completa:

1

Já que não me resta nada por dizer

Tudo o que eu tinha pra dizer

Foi dito não sei quantas vezes.

2

Eu perguntei não sei quantas vezes

Mas ninguém responde minhas perguntas.

É absolutamente necessário

Que o abismo responda de uma vez

Porque o tempo está ficando curto.

3

Só uma coisa é clara:

Que a carne se enche de vermes.

Ao leitor que esteja familiarizado com a prosa de Albert Camus, ler estes versos de Parra traz uma inevitável associação com a voz de Meursault, narrador absurdo do romance do escritor argelino.

Para Parra, “a vida não tem sentido” — como escreve no “Solilóquio do Indivíduo” — e essa sua abordagem desesperançosa, que percebe o mundo sem lógica ou sentido transcendente, harmoniza perfeitamente com o pensamento de Camus, do qual foi contemporâneo.

Quando o argelino escreve, no seu ensaio “Mito de Sísifo”, “que não existe tal liberdade superior, a liberdade de existir que é a única que pode fundar uma verdade. A morte está ali como única realidade”, ressoa as reflexões formuladas por Parra na sua antipoesia.

Parra também não se ocupa da crença no sobrenatural, e afirma seu ateísmo quase que involuntariamente. Não crer é uma condição inexorável: “crer é crer em Deus/a única coisa que faço/é encolher os ombros/me perdoem a franqueza/não creio nem na Via Láctea”, escreve o chileno.

Assim como a vida absurda camusiana não conduz a nenhum lugar e só a inevitabilidade da morte se faz presente, na poesia de Parra não existe a preocupação com uma meta superior, ou uma condução para futuro melhor: “Minha poesia pode perfeitamente não conduzir a lugar nenhum”, como diz o poema “Advertência ao leitor” de “Poemas e Antipoemas”, de 1954.

“Antes de encontrar o absurdo, o homem cotidiano vive com metas, uma preocupação com o futuro ou a justificação (não importa em relação a quem ou a quê). Avalia suas possibilidades, conta com o porvir, com sua aposentadoria ou o trabalho dos filhos. Ainda acredita que alguma coisa em sua vida pode ser dirigida”, escreve Camus no “Mito de Sísifo” ao descrever o indivíduo que ainda não se deparou com o absurdo e que pode encaixar-se perfeitamente na descrição que Parra faz do poeta burguês para quem a “poesia foi um objeto de luxo”.

Na poesia de Nicanor Parra o que impera é o antisentimentalismo, instalado numa montanha-russa onde podemos subir se quisermos, mas que o poeta não se compromete se sairmos “botando sangue pelas bocas e narinas”. A antipoesia de Parra é um suspiro sem esperanças diante do absurdo do mundo.

Ler Nicanor Parra nesses tempos pobres, onde o destaque ainda está para a poesia grandiloquente, pomposa, recheada da retórica das platitudes dos poetas de redes sociais, onde um insosso Neruda tem um injustificado destaque e encanta jovens abobalhados pelo mundo, é ver que Parra continua a afirmar, numa profecia secular, o absurdo de tudo. Imagino que nunca tenha se afirmado como um poeta absurdo, mas já adiantava Camus que “o absurdo só tem sentido na medida em que não seja admitido”.

O antipoeta chileno foi “um país independente”. Independentemente das amarras das escolas literárias, fora do mainstream da sua e de todas as épocas. Parra viveu seus últimos anos recluso e num respeitoso ostracismo, dando aulas de matemática e física, sem ocupar-se de grandes questões. Viveu, escreveu e morreu sendo coerente com sua própria contraditoriedade. Foi aquele que defendeu a “a poesia do amanhecer” e “Só Para Maiores de Cem Anos” permite a compreensão de que, graças a Nicanor Parra, “non podemos vivir sin poesía”.

Ricardo Silva é colaborador do Jornal Opção.

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Adalberto de Queiroz

O único problema de Nicanor Parra pra nós católicos é ter mandado fazer do livro sagrado um papel higiênico. De resto, ele é muito bom. Conheço bem o poeta e o respeito, mas somos de diferentes mundos.