Nem arma, nem drogas: era poesia

Eu levava livros para os membros da Academia Brasileira de Letras e fui revistado pela Polícia Federal, que achou que eu ia para a guerra

Gabriel Nascente

Eu nunca podia imaginar que na Era Digital iria encontrar máquinas que fabricam tolos, imbecis e loucos. E a grande internet nos mergulhou na noite do abismo. A noite cósmica da catástrofe do vírus. São os tempos das pandemias.

Afora à execração deste execrável assunto, eu me construí de mim mesmo, solitário e órfão de pai. E mordido, na adolescência, por cachorro louco. Nunca ocupei uma cadeira de ensino universitário. O que eu aprendi foi com os tropeços dos meus passos, e lendo a sabedoria dos ventos, da poeira, das chuvas e dos livros. Tanto que — e disto me vanglorio — os espaços que conquistei foram construídos pelas mãos dos livros. Daí ter eu experimentado, na carne, na emoção e no espírito, abalos sísmico-psicológicos de toda natureza. Um deles eu narro: desde o inopinado acontecido naquele Aeroporto do Rio de Janeiro, em setembro de 2019, que a minha cabeça turva um remoinho de ideias, ora abnóxias, ora sem luz, obliteradas. Por falta de cavaletes para sustentar a razão.

Pintura de Igor Morski

Ora se pode! A minha poesia sendo investigada pelas mãos da Polícia Federal. Creio eu: não foi uma violação de ofício, nem abuso de autoridade policialesca; mas sim o exatamente isto o acontecido. Destino: Academia Brasileira de Letras, a Catedral Literária, lá do Petit Trianon, da Presidente Wilson; para onde eu voava, levando na bagagem o meu baú de poesia. Missão: apresentar a obra poética reunida em “A Galáxia dos Dias” aos imortais daquele templo, durante o tradicional Chá das Cinco, que antecipa as reuniões ordinárias dos acadêmicos. Era setembro. E eu embarquei sozinho, levando duas malas; sendo uma, literalmente ocupada por três pequenos caixotes de madeira, contendo cada um, em seu conteúdo, quatro avultados tomos (numerados inclusive), com mais de mil páginas, cada. Isso, essa carga, exagerou no peso da bagagem. Fui.

O Aeroporto Internacional do Galeão era aquela monstruosidade de gentes. Corri para o setor de bagagens, e ali me postei, à espera de minhas malas, pela esteira giratória. A primeira, a menor, chegou. A segunda, não. Estranhei. A esteira girava, girava, girava, e nada da minha mala. Uma formigada de arrepios queimou-me as emoções na pele. De repente, os serviços de alto-falante do aeroporto anunciaram o meu nome, com tal inesperada convocação: “Senhor Gabriel Nascente, queira, por favor, comparecer ao Guichê 8 …” Não me fiz de iracundo, nem ergui crista ostentatória. Segui, à risca, o protocolo, me dirigindo, tranquilo (nada de lobisomem nas ideias), ao referido guichê. E lá estavam dois agentes da Polícia Federal, elegantemente bem vestidos, e de trabucos às cinturas, à minha espera. “Pois não, senhores, sou eu o Gabriel Nascente, em corpo, alma e poesia, à inteira disposição daquilo que, de mim, solicitam”.

Pintura de Rafal Olbinski

— Pedimos sua permissão para abrir aquela mala. Inspeção de rotina. Visto que ela está por demais com excesso de peso. A mala é do senhor, não é?

— Sim, sim, pode abri-la. Aí dentro os senhores irão encontrar três caixotinhos de poesia e três garrafas de vinho, fabricado em Paraúna de Goiás. Fiquem à vontade!.

Curiosos foram chegando, e os policiais vasculhando, milímetro por milímetro, o conteúdo da carga. Arrancaram até o papel que embrulhava os frascos de vinho. E não encontraram nada de ilícito.

— Ao que tudo indica — exclamou um deles, espavorido —, o senhor é mesmo um gênio para escrever tudo isto. Uma vez que, pelo absurdo do peso, chegamos a pensar que o senhor estava indo pra guerra, levando arsenal de exército, metralhadoras, munições e granadas. E drogas no meio de tudo isso. Mas… que nos desculpe pelo transtorno. E felicidades na sua ida à Academia.

Só depois, a bordo do táxi, eu ri de mim, me açoitando com tal pergunta: até onde a minha poesia é comparada com armas de guerra e drogas? Eu que não brigo nem com sombras de borboletas?!

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