Navegando nas ondas das desigualdades do capitalismo

Em “O Capital no século XXI”, PhD questiona Marx, Kuznets e Keynes propondo um novo olhar sobre a atual constituição econômica da sociedade

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PhD em economia aos 22 anos pelo MIT , Piketty escreveu “O Capital no Século XXI” na ambiência parisiense de interação da economia e outras ciências sociais | Foto: Reprodução/DealBreaker

Salatiel Soares Correia­
Especial para o Jornal Opção

Na sociedade francesa do século dezenove, quem tinha a sorte de nascer numa família de grandes posses poderia passar o resto de sua existência sem trabalhar. Vencer na vida pelos estudos, que conduziam a carreiras meritocráticas, jamais significava ter ascensão social comparável à daqueles que desde o nascimento recebiam heranças. Vivia-se os tempos da belle époque.

Um dos maiores intérpretes da alma francesa daqueles tempos, o escritor Honoré de Balzac, bem retratou esse espírito de opulência em um de seus mais célebres romances: “O Pai Goriot”. Nesse romance, o jovem nobre falido Eugène de Rastinac consegue, através de um primo distante, ter acesso à alta sociedade francesa e com ela vislumbrar-se.

Como fazer parte daquele meio sem ser rico de nascença? É exatamente nesse momento que o gênio de Balzac coloca o personagem Vau­drin em cena mostrando a Eugène que, pela meritocracia, ele jamais conseguiria realizar seu intento. “O sucesso social adquirido pelo estudo, pelo mérito e pelo trabalho é uma ilusão”, explicava Vaudrin a Eugène.
Com o intuito de convencer Eugène a seguir o caminho, não da meritocracia e sim do golpe do baú, Vaudrin cita o exemplo das duas profissões de maior sucesso da época: Direito e Medicina.

No tocante à renda, a conclusão de Vaudrin é um retrato do que era o poder da herança naqueles tempos de opulência da França do século 19. “Mesmo que possua o diploma de Direito mais cobiçado e merecido entre todos os jovens de Paris, mesmo que faça carreira jurídica das mais brilhantes, o que exigirá muitas concessões, ele terá de se contentar com rendas medíocres e precisará renunciar à esperança de se tornar rico.”

Concretiza Vaudrin seu raciocínio com números que espelham o quão pífias eram as rendas da época advindas do trabalho meritocrático quando comparadas àquelas dos afortunados que recebiam grandes heranças. “Por volta dos trinta anos, você será juiz, recebendo 1.200 francos por ano, e isso se não tiver desistido da carreira. Quando chegar aos quarenta, desposará a filha de um moleiro, com uma renda de uns 6.000 francos. Muito obrigado. Se tiver a sorte de encontrar um patrono, há de tornar-se procurador do rei aos trinta anos, com uma remuneração de 5000 francos, e se casará com a filha do prefeito. Se tiver disposto a cometer algumas pequenas baixezas políticas, será, aos quarenta anos, procurador-geral.”

O futuro de Eugène poderia mudar caso se casasse com Victorine, filha ilegítima de um ricaço. Só teria um problema: o irmão da jovem teria de ser assassinado –– e isso Vaudrin, homem sem escrúpulos, estava disposto a fazer desde que recebesse uma comissão pelo serviço. Eugène era um homem puro que mudara seus valores, mas não ao ponto de tornar-se cúmplice de um assassinato. Assim, não topou a parada.

A história acima é narrada num livro que vem provocando amplas discussões no mundo acadêmico, e fora dele, em razão do novo olhar a que se propôs o autor a colocar quanto ao modo desigual com que o capitalismo expande suas riquezas pelo mundo afora.

Quem implementou essa façanha, que consumiu longos quinze anos de pesquisas de sua vida, ousou questionar verdades estabelecidas por titãs da economia, a exemplo de Karl Marx, David Ri­car­do, Simon Kuznets e até John Keynes. Tra­ta-se do jovem professor francês Tho­mas Piketty. Ousadia de um jovem com inteligência acima da mé­dia? Claro que não e o leitor irá per­ceber no transcorrer destes escritos.

Quem se dispuser a enfrentar as mais de 500 páginas de “O Capital no século XXI” chegará à conclusão de que o autor desses escritos realmente apresentou um novo olhar para as questões da desigualdade. Credenciais para isso ele tem. “Piketty transformou nosso discurso econômico; jamais voltaremos a falar sobre renda e desigualdade da mesma maneira”, atesta o prêmio Nobel de Eco­no­mia Paul Krugman. Tratemos, pois, de apresentar essas credenciais juntamente com o novo olhar que enseja o autor.

Credenciais

Thomas Piketty obteve seu PhD em economia ainda muito jovem, com 22 anos, numa das mais prestigiadas universidades do mundo: o Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), nos Estados Unidos.

O interessante de sua formação acadêmica é que, sendo um profundo conhecedor de modelos matemáticos –– portanto, um homem de gênio que, nessa condição, conversa com as estrelas ––, demonstra em seus escritos ser um crítico do culto desses modelos como instrumento para explicação da realidade econômica. Para ele, “a economia jamais abandonou sua paixão infantil pela matemática e pelas especulações puramente teóricas, quase sempre muito ideológicas, deixando de lado a pesquisa histórica e a aproximação com as outras ciências sociais”.

Na sua perspectiva, a economia deve necessariamente se inserir dentro do todo das ciências sociais e, nessa condição, interagir com outras ciências, a exemplo da história, sociologia e antropologia. Ciente disso, tomou esse pesquisador a decisão de retornar ao país cujo ambiente e tradição de conversa entre essas ciências era possível e fértil: a França. “O Capital no Século XXI” foi desenvolvido nessa ambiência parisiense holística de interação da economia com outros ramos das ciências sociais –– o que torna a pesquisa de Piquetty inovadora, estimulante para quem lê e valiosa para o entendimento atual e futuro das desigualdades do capitalismo. É, sem dúvida, o poder da história lastreada em dois instrumentos dos quais dispõe o autor: sólidos conhecimentos e uma estupenda base de dados estatísticos.

De posse desses atributos, pode ele navegar por mares nunca navegados por Marx. E isso é compreensível: a visão de Marx se limitou a uma época de espoliação do trabalho pelo capital industrial. Além disso, não dispôs o autor de “O Capital”, nem dos dados ou mesmo dos recursos estatísticos de que teve acesso o sábio francês para elaborar sua primorosa análise. A história do capitalismo dava seus primeiros passos nos tempos de Marx. Em pleno século XXI, Piketty dispôs de uma base histórica de 300 anos para colocar novos olhares a respeito desse tema.

Tese central

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O entendimento da dinâmica das desigualdades no sistema capitalista através do tempo é, sem dúvida, a principal contribuição da extensa pesquisa que implementou Thomas Piketty. Para atingir esse objetivo, valeu-se, o autor, da comparação de duas importantes variáveis que possibilitaram o entendimento desse processo. Elas são a taxa de remuneração do capital (o que rende, em média, o capital durante um ano, sob a forma de lucros, dividendos, juros, aluguéis e outras rendas do capital) e a taxa de crescimento (crescimento anual da renda e da produção). Da comparação dessas duas variáveis é possível extrair importantes informações que nos ajudarão a compreender a dinâmica das desigualdades. Vejamos quais são elas.

No caso de a taxa de remuneração do capital exceder substancialmente a taxa de crescimento, a riqueza aumenta mais rápido que a renda e a produção. Essa foi a situação da belle époque, em que ser capitalista era sinônimo de que quem detinha a riqueza poderia viver sem trabalhar. Nessa situação, a riqueza herdada tenderá a aumentar mais rápido do que a renda e a produção. Resultado: bastará os herdeiros pouparem uma pequena parte do seu capital para que a riqueza possa, assim, se perpetuar ao longo do tempo. De acordo com o autor, “é quase inevitável que a fortuna herdada supere a riqueza constituída durante uma vida de trabalho e que a concentração do capital atinja níveis muito altos, potencialmente incomparáveis com os valores meritocráticos e [com] os princípios da justiça social, que estão na base de nossas sociedades democráticas modernas”.

Ciente disso, o autor alerta, em seus escritos, que “é o que parece começar a acontecer neste início de século: o poder econômico das heranças que passam de geração em geração ser sempre mais substancial do que o poder daqueles que empreendem e geram riquezas através do mérito do trabalho. E o motivo se centra no fato de os patrimônios herdados do passado se recapitalizarem mais rápido possibilitando assim que o capitalista se torne um rentista e domine cada vez mais quem só possui como principal ativo a força do trabalho”.

Cabe aqui um exemplo. Veja-se o caso da bilionária francesa Liliane Bettencourt. Piketty a cita como exemplo de pessoa que nunca trabalhou na vida, mas isso não impediu que sua riqueza se multiplicasse e, hoje, esteja na casa dos 30 bilhões de dólares. Detalhe: a velocidade de capitalização dessa fortuna foi igual à de um empreendedor que se aposentou recentemente, mas sempre trabalhou: Bill Gates. Tanto em uma como em outra situação, a fortuna se reproduzirá no tempo, estando eles trabalhando ou não, pois dinheiro faz dinheiro.

Resumindo: a tese central do autor se relaciona em comparar os efeitos de uma diferença que aparenta ser pequena, no curto prazo, entre a taxa de remuneração do capital e a taxa de crescimento da renda e da produção. Vale ressaltar que, no longo prazo, tal diferença se torna desestabilizadora tanto para a estrutura quanto para a dinâmica da desigualdade de uma sociedade. Posto isso, vejamos um pouco dessa dinâmica de desigualdades em algumas das mais importantes economias capitalistas do mundo.

O olhar de Piketty

Luminoso e revelador. Talvez sejam esses os dois adjetivos que melhor expressam o olhar do autor em torno das desigualdades nos principais países do primeiro mundo e, quando os dados possibilitaram, em alguns países do chamado mundo em desenvolvimento.

Seus escritos iluminam as diferenças entre continentes e países mostrando de que forma o paradoxo do capitalismo foi se estabelecendo em cada um deles. Não restam dúvidas de que, com o passar dos séculos, as desigualdades do sistema capitalista foram mudando de forma sem alterar sua natureza excludente. Nesse sentido, a obra do sábio francês é reveladora quando se observa a evolução da estrutura das desigualdades no decurso do tempo.
Voltemos ao exemplo da belle époque. Se, naquela época, para se alçar ao topo da estrutura social, bastava ser herdeiro para se desprezar por completo o trabalho meritocrático conquistado pela educação, esses valores foram se metamorfoseando ao longo do tempo.

Veja-se o mundo pós-guerras (no século XX, ocorreram duas grandes guerras) e o que nos diz o autor, lastreado numa poderosa base de dados estatísticos a esse respeito: “a herança se reduziu a quase nada em comparação com o passado e, pela primeira vez na história do trabalho, os estudos tornaram o caminho seguro para alcançar o topo da distribuição de renda”. O olhar acurado de Piketty ainda enfatiza que “passamos de uma sociedade de rentistas para uma de executivos ── isto é, de uma sociedade em que o centésimo superior era representado por rentistas (pessoas que detinham um patrimônio suficientemente importante para viver de rendas produzidas por esse capital) para outra em que o pico da hierarquia de rendas, incluindo o centésimo superior, é composto de assalariados muitíssimo bem remunerados, pessoas que vivem da renda do seu trabalho”. Moral da história: quem olhar para essa nova classe social verá os superexecutivos, os empreendedores como ilustres representantes de uma nova dinâmica do capitalismo que se mantém menos desigual no topo para permanecer o que sempre foi na base: tão desigual como era há 300 anos.

Nos dias de hoje, ao que tudo indica, as desigualdades vêm mudando novamente de forma, voltando a ser o que eram antes. Vivemos tempos de baixo crescimento demográfico. É por essa razão que hoje se percebe um novo renascer do poder das heranças, em cujo contexto volta a prevalecer a sociedade dos rentistas. Embora desigual no topo, as grandes fortunas de hoje têm de conviver com um fantasma que antes não tinham em seu encalço: o Estado e seu direito soberano de tributar. Mas isso é assunto para mais adiante.

Mundo afora

Outro grande mérito de “O Capital no século XXI” se centra no fato desses escritos promoverem estimulantes reflexões a respeito das diferentes maneiras com que as desigualdades foram se consolidando pelo mundo afora. Nesse sentido, muito contribuiu para o sucesso do trabalho do autor não só sua valiosa base de dados, mas, sobretudo, seu admirável fôlego de pesquisador incansável. El compreendeu a dinâmica passada desse sistema nos diferentes países e a partir dessa dinâmica nos mostrou, com sua fé na democracia, que a solução da exclusão passa, sobretudo, pelo trabalho integrado desses países em torno da construção de um mundo mais justo.

Veja o caso da terra natal do autor. Lá, os dados revelam uma contínua diminuição da desigualdade total de renda, principalmente depois da Segunda Guerra Mundial. Na França, embora o patamar da desigualdade tenha decrescido, mantiveram-se desiguais as rendas advindas dos salários. É como atesta o autor: “O nível dos salários sem dúvida mudou por completo. Contudo, as hierarquias salariais permaneceram relativamente inalteradas. Não fosse a queda das rendas do capital, a desigualdade da renda não teria diminuído no século XX”. O que a França viu de fato nascer foi um sociedade de executivos bem-remunerados que, sem serem herdeiros, gozavam de um alto padrão de vida.

Em nenhum outro país, essa classe de superexecutivos se mostrou tão expressiva como nos Estados Unidos. Lá, a figura deles, impregnados pelos elevados bônus e gratificações, in­fluenciou diretamente no aumento das desigualdades da renda do trabalho. Outro fato interessante notado pelo autor se revela quando esse compara o fluxo das desigualdades no período considerado como o “suicídio da Europa” (após a Primeira e Segunda Guerras Mundiais).

Nessa época, a Europa presenciou o declínio da sua sociedade de rentistas, coisa que não ocorreu nos Estados Unidos. De 1900 a 1910, os Estados Unidos eram menos desiguais que a Europa, ligeiramente mais desiguais de 1950 a 1960 e muito mais desiguais de 2000 a 2010.

Certamente, muito contribui para o aumento dessas desigualdades o tipo de Estado que se construiu de um lado e outro do oceano. Nos EUA, prevalece a ideia de Estado mínimo. Na Europa, em geral, prevalece a construção do Estado do Bem-Estar Social.

E assim Piketty vai mergulhando com sua impressionante base estatística na estrutura das desigualdades de outros países. Constata, por exemplo, que o fluxo das desigualdades, nos últimos cem anos, no Japão, muito se assemelha ao ocorrido na Europa. Que a tal propalada igualdade dos países nórdicos em nada se assemelha àquelas sociedades nórdicas de elevada desigualdade do início do século XVIII. Que os maciços investimentos em educação tornaram o capitalismo da Coreia do Sul mais inclusivo do que era antes. Enfim: o que espera, a quem se propor a enfrentar o livro, é a compreensão de uma grande lição a respeito da história do capitalismo nas mais diferentes sociedades do mundo: que esse sistema traz o paradoxo riqueza-desigualdade.

Entretanto, no tocante a ser ou mais ou menos desigual, dependerá muito da própria história da cultura e do desenvolvimento político inerente a cada sociedade desse vasto mundo globalizado, que parece ter hoje uma verdade só: a do sistema capitalista mais ou menos selvagem. Uma ou outra opção muito se relaciona com a maneira que as sociedades do mundo se organizam.

Imposto progressivo

A maneira mais adequada de explicitar o que propõe Thomas Piketty para construção de um mundo mais justo, dessa forma, atenuando as desigualdades sociais, é voltarmos ao caso que serve de exemplo para ele no sentido de ilustrar o poder das grandes fortunas: da bilionária francesa Liliane Bettencourt.

Embora essa bilionária seja detentora da maior fortuna da França, 30 bilhões de dólares, sua renda tributada é de apenas 5 milhões. Menos de um centésimo de sua renda econômica. Ante o fato, vale as seguintes indagações: como regular fortunas como essa? Como evitar que vultosos capitais fluam sorrateiramente para paraísos fiscais? Qual será o caminho, enfim, mais adequado para regular o capitalismo no século XXI?

Piketty aponta o caminho da construção da transparência. Transparência que se constrói com a tributação do capital que “obriga a especificar e ampliar o conteúdo dos acordos internacionais sobre transmissões automáticas de informações bancárias”. Transparência que se solidifica através do imposto progressivo tão necessário para revelar democraticamente as finanças dos patrimônios.

E assim encerramos esse navegar pelos escritos de “O Capital no Século XXI”. Ao concluir a minuciosa leitura desses escritos, a visão do mundo se diferencia da de quando se inicia a leitura da obra, que exala sabedoria e muita seriedade intelectual do começo ao fim. O ex-ministro Delfim Neto definiu com exatidão o valor desses escritos para o entendimento do mundo atual. Para ele, os escritos do sábio francês revelam uma “extraordinária pesquisa histórica organizada em torno de sólidos conhecimentos econômicos”. É, sem dúvida, uma obra-prima de pesquisador muito sério e comprometido com o entendimento da realidade. Afinal, é para isso que existem os intelectuais. Muito especialmente aqueles candidatos ao Prêmio Nobel. Não se assustem se Thomas Piketty estiver entre os futuros laureados.

Salatiel Soares Correia é engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, mestre em Planejamento. É autor, entre outras obras, de A Construção de Goiás.

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Leandro Santos

Imposto progressivo ? Interessante ler tenta coisa para chegar na idéia do espólio através de tributos, na cabeça de alguns um estado mais poderoso vai resolver todos os nossos problemas, impossível sem a coerção criminosa.

Jose Luiz Miranda

Muito embora alguns críticos apontem algumas falhas na pesquisas realizadas para sustentar a sua abordagem, o autor é muito feliz ao estimular uma visão diferenciada acerca das Ciências Econômicas na sociedade contemporânea, principalmente a partir da queda do muro de Berlim, o fim da “Guerra Fria” e o advento da internet que provoca uma autêntica revolução de usos, costumes e de valores, tanto para o bem como para o mal. Infelizmente, destaco eu, os meios acadêmicos e profissionais associados aos estudos da economia, claro com raras exceções, estão ainda atrelados a paradigmas internos e engessantes cujas abordagens não encontram sintonia… Leia mais

Luiz Henrique Cardoso

Querem transformar o mundo em uma Venezuela.