Na terceira margem do rio se foi um sonho

“Temi a ira de nossa mãe, mas obedeci, de vez de jeito. O rumo daquilo me animava, chega que um propósito perguntei: — “Pai, o senhor me leva junto, nessa sua canoa?” (Guimarães Rosa, A Terceira Margem do Rio)

Foto: Reprodução

Rios são poéticos por si só. Suas águas ligeiras, capazes de levar consigo o inimaginável em um único mergulho, podem deslumbrar e, ao mesmo tempo, assustar. O pai em A Terceira Margem do Rio percebeu tamanha complexidade e tomou ousada decisão: viver em uma canoa no meio daquela imensidão de água.

O filho, por sua vez, por mais que num primeiro momento quisera acompanhar-lhe, ficou. A saudade e incompreensão também. A mãe vestiu-se de um misto de raiva com vergonha. Um trio — pai, mãe e filho — e um cenário — o rio. Nem Guimarães Rosa poderia imaginar que esse mesmo combinado de um de seus mais famosos contos poderia protagonizar história tão trágica como a que se viu no dia 25 de junho de 2019.

Um migrante de El Salvador e sua filha de quase dois anos de idade morreram afogados, quando tentavam atravessar o Rio Bravo, na altura da cidade de Matamoros, em Tamaulipas, no México. Duas perdas na luta dos sonhadores por uma vida nos Estados Unidos, que ousaram enfrentar a bravura das águas.

A mãe, na outra margem do rio, via tudo acontecer. A bravura do rio a expulsou de suas furiosas águas. Seu esposo tentava salvar a filha, colocando-a sob sua camiseta. Mal sabia que logo à frente talvez precisasse de uma camiseta para proteger a si também.

Os três tinham um único objetivo: chegar ao lado americano. Óscar Martinez Ramírez, 25 anos, era cozinheiro em El Salvador e sonhava em uma vida melhor para ele, a esposa, Tania Vanessa Ávalos, de 21, e a filha, Valéria.

Óscar atravessou a menina e a deixou lá para buscar Tania. Valéria, temendo o abandono do pai, se jogou no rio. Foi aí que ele teve que voltar e tentar salvar a filha. A história foi contada pela mãe à polícia, aos gritos e às lágrimas.

O Rio Bravo levou sua família e com ela ficaram, assim como com o eu lírico do conto de Guimarães, a saudade e a incompreensão. A avó de Valéria contou à Associated Press: “Ele a colocou em sua camisa e imagino que tenha dito a si mesmo: ‘cheguei até aqui’ e decidiu seguir com ela”.

Ao contrário do pai isolado na canoa em meio ao rio, Óscar agarrou-se à sua cria e fez da camisa canoa. Que as águas os levassem. Para a vida ou para a morte. A imagem viralizada após isso responde: a morte.

Corpos que vivem na fronteira e morrem na fronteira. Naquela que divide o desenvolvido do subdesenvolvido, o rico do pobre, o realizado do sonhador. À primeira margem, a mãe desolada, à segunda, o pai e a filha mortos e, à terceira, levados pelas correntezas, os sonhos jamais conquistados.

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