Morre o maior poeta caribenho, Derek Walcott

Morreu ontem, 17 de março de 2017, o poeta santa-lucense, tido como o maior poeta caribenho de todos os tempos e um dos maiores do século XX, Derek Walcott, contando então 87 anos.

Walcott caracterizou-se por estabelecer em sua obra um diálogo transversal entre a tradição poética europeia e a caribenha. O maior exemplo deste diálogo está em seu livro “Omeros”, publicado no Brasil pela Cia das Letras (1ª ed. 1994; 2ª ed. 2011), com tradução e prefácio de Paulo Vizioli.

Àqueles que quiserem saber da importância de Walcott, sugiro que leiam o percuciente ensaio do poeta Joseph Brodsky, intitulado: “On Derek Walcott”, publicado na The New York Review Of Books, em 10 de novembro de 1983.

Abaixo, segue o canto primeiro do Capítulo 1 de “Omeros”, em tradução de P. Vizioli.

***

I

“Foi assim que, num amanhecer, nós talhamos aquelas canoas.”
Philoctete sorri para os turistas, que com suas máquinas fotográficas
tentam tirar sua alma. “Logo que o vento traz a notícia

para os laurier-cannelles, suas folhas se põem a tremer
no instante em que o machado da luz do sol fere os cedros,
porque podiam ver os machados em seus próprios olhos.

O vento levanta as samambaias. Soam como o mar que alimenta a nós
pescadores durante a vida inteira; e as samambaias se curvaram: Sim,
as árvores têm que morrer! Assim, punhos premidos nos paletós —

porque estava frio nas alturas — e a respiração fazendo plumas
como a névoa, passamos o rum. Quando voltou, a bebida deu
ânimo para a gente se tornar assassinos.

Eu ergo o machado e rezo por força nas mãos,
para ferir o primeiro cedro. O orvalho me enchia os olhos,
mas atiro mais um rum branco. Então avançamos.”

Por algum dinheiro extra, sob uma amendoeira marinha,
ele lhes mostra uma cicatriz feita por uma âncora enferrujada,
enrolando uma perna das calças com o lamento ascendente

de uma concha. Ela ficou enrugada como a corola
de um ouriço-cacheiro. Não explica a sua cura.
“Tem coisas”, sorri, “que valem mais do que um dólar.”

Desde que os altos loureiros tombaram, ele deixou que uma loquaz
catarata derramasse o seu segredo do cimo do La Sorcière, deixou
que o grito de acasalamento da pomba-do-mato

passasse a sua nota aos tácitos montes azuis,
cujos regatos tagarelas, ao levá-la para o mar,
se tornam charcos preguiçosos, onde os claros peixinhos disparam

e uma garça-real espreita os juncos com um grito rouco,
enquanto fura e perfura a lama com um pé a se erguer.
Depois o silêncio é serrado ao meio por uma libélula,

e enguias assinam seus nomes pela areia clara do fundo,
quando a aurora ilumina a memória do rio
e ondas de samambaias enormes se agitam ao som do mar.

Embora a fumaça esqueça a terra de onde ela ascende
e urtigas guardem os buracos em que os loureiros morreram,
um iguano ouve os machados, toldando cada lente

sobre seu nome perdido, quando a ilha corcovada se chamava
“Iounalao” — “Onde o iguano se encontra”.
Mas, sem pressa, o iguano irá escalar

o cordame das lianas num ano, sua barbela em leque,
seus cotovelos nos quadris, sua cauda vagarosa
a mover-se com a ilha. As vagens fendidas de seus olhos

amadureceram numa pausa que durou séculos,
que se ergueu com a fumaça dos arauaques até que uma nova raça
desconhecida do lagarto se pôs a medir as árvores.

Estas eram os seus pilares que tombaram, deixando um espaço azul
para um Deus único onde antes os velhos deuses se postaram.
Foi o primeiro deus uma gomeira. O gerador

começou com um ganido; e um tubarão, de mandíbula enviesada,
mandou lascas que voavam quais cavalas sobre as águas
para dentro de ervas trêmulas. Agora desligam a serra,

ainda quente e trepidante, para examinarem a ferida que
fizera. Rasparam o seu musgo gangrenoso, depois arrancaram
a ferida da rede de lianas que ainda a prendia

a esta terra, e fizeram sinal com a cabeça. O gerador chicoteou
de volta ao trabalho, e as lascas voaram mais depressa ainda, enquanto
os dentes do tubarão roíam por igual. Eles cobriam os olhos

ante o ninho estilhaçante. Agora, sobre as pastagens
com bananeiras, a ilha levantava seus chifres. A aurora
escoou por seus vales, o sangue se espalhou sobre os cedros,

e o bosque inundou-se com a luz do sacrifício.
Uma gomeira estalava. Suas folhas uma enorme
lona que perdera o suporte central. O som rangente

fez que os pescadores saltassem para trás, enquanto o mastro oblíquo
se inclinava devagar sobre os leitos das samambaias; depois o chão
tremeu em ondas sob os pés; depois as ondas passaram.

 

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Adalberto de Queiroz

Durma em paz o sono eterno, Mr Walcott.