Morre a escritora Lêda Xavier de Almeida

Ela publicou o livro “Gente”, que registra fatos da Cidade de Goiás e de Goiânia, e deixa (editado) o livro “Gente II”

Yuri Baiocchi

Lêda Xavier de Almeida deixa um livro publicado, “Gente”, que registra de forma mais jornalística do que literária fatos cotidianos da vida social na Cidade de Goiás e em Goiânia.

Deixa ainda um livro já editado, “Gente II”, sequência daquele outro, e cujos originais foram cedidos a mim e a Maria Dulce Loyola Teixeira, seus parentes, há alguns anos. Neste trabalho, a autora foca no início de Goiânia, nos primeiros profissionais (principalmente os médicos) e nos incontáveis escritores de sua própria família, os Xavier de Almeida.

Lêda era filha da pianista Amélia Xavier de Almeida. O nome de seu pai, por sua vez, era desconhecido por nós das gerações mais novas da família. Descobri recentemente, numa visita à casa de Lêda (com ela já sofrendo de mal de Alzheimer), quando olhei no verso de um retrato, que seu pai era um nordestino irmão do pai de Cora Coralina. Lêda e Cora eram primas.

Tia Amélia, segundo me contou minha bisavó Carmen Rios Baiocchi, engravidou e teve de sair de Goiás para dar à luz, pois não se casara com o pai da criança. Soube depois que ele falecera antes mesmo do nascimento de Lêda, o que deve ter inviabilizado o matrimônio.

Por ser filha do coronel Francisco Xavier d’Almeida e irmã do ex-governador dr. José Xavier de Almeida, não ficava bem para tia Amélia nem para seus familiares ter a criança na Cidade de Goiás, por isso Lêda nascera longe daqui.

Lêda Xavier de Almeida: escritora | Foto: Reprodução

Foram tempos difíceis. Tia Amélia nunca mais namorou e criou Lêda sozinha. Maria Dulce constatou agora que tia Amélia contou com a ajuda dos irmãos que, inclusive, abriram-lhe mão da herança paterna. Mesmo assim não foi fácil ser mãe solteira nas primeiras décadas do século passado.

Lêda, involuntariamente, teve uma educação muito mais rígida do que as moças de seu tempo: a mãe temia que acontecesse o mesmo à filha.

Sua grande incentivadora ao longo da vida foi a folclorista Regina Lacerda, sua madrinha e vizinha na rua da Cambaúba.

Sofreu de algumas crises existenciais e, numa clínica psiquiátrica em São Paulo, foi cuidada por seu primo, o médico dr. Jorge Xavier de Almeida (primeiro neurologista de Goiás). Foi ele sua única paixão.

Jorge, filho do juiz federal dr. Luiz Xavier de Almeida e de dona Coraci da Rocha Lima (filha do ex-governador Miguel da Rocha Lima), já era viúvo de uma moça sueca que se suicidara na região da Chapada dos Veadeiros, no início da década de 1940. O casal morou por anos em Cavalcanti, onde Jorge exerceu a Medicina com humanismo e verdadeira vocação.

Viúvo e com uma filha, casou-se com a prima Lêda. Viveram um tempo em São Paulo e depois vieram para Goiânia. Tiveram um filho: Antônio, que foi vitimado por uma meningite que o deixou gravemente sequelado. Jorge não aguentou e seguiu o destino da primeira mulher, deixando Lêda e Tonho.

Mulher de um médico brilhante e que tinha tudo para ser uma referência não só local, Lêda teve que encarar a realidade da viuvez e da maternidade de um filho doente. Não se acovardou: prestou concurso para a Empresa Brasileira de Correios e Telégrafos, no qual foi muito bem colocada. Aposentou-se no maior cargo que podia alcançar na instituição.

Cuidando do filho e da mãe idosa, sem jamais deixar de trabalhar, conseguiu levar ainda uma vida de intelectual de província: entrou para a Academia Feminina de Letras e Artes de Goiás, frequentava os eventos culturais locais e era benquista no meio. Como todos de sua família: era simples, extremamente simples.

Após a morte de tia Amélia, que era de um tempo em que crianças como Tonho não estudavam, Lêda resolveu dar uma oportunidade para o filho e o matriculou, já mais velho, numa escola. Ele aprendeu a ler e evoluiu consideravelmente, de modo que Lêda se arrependeu de não ter tomado essa atitude antes.

Depois que Tonho morreu, sobrou-lhe mais nada. Sem pais, sem irmãos e sem filho, sua família mais próxima éramos nós: os primos. Assim, contou com a amizade e atenção de sua prima Suely Taveira Loyola (neta de Anna Xavier de Almeida Taveira), bem como da freira Sônia, também sua prima, filha de Lídia Xavier de Almeida Gomes e do professor Pedro Gomes de Oliveira.

Conheci-a já quase no ostracismo. Saía pouco e dava os primeiros sinais da doença neurológica. Logo que percebeu as falhas na memória, colocou sua cuidadora — de extrema confiança — como herdeira universal de seus parcos bens: o maior deles sua humilde casinha na Alameda Botafogo.

De uma visita para outra, podia-se notar o avanço da doença. Na primeira vez que me viu, achou-me parecido com sua sogra e tia Coraci da Rocha Lima, morena como eu. Na visita seguinte, já não compreendia mais a linguagem verbal. Uma ideia brilhante de minha tia-avó Regina Lacerda, coincidentemente sobrinha e homônima da madrinha de Lêda, suprimiu essa falha: comunicamo-nos com ela por meio da linguagem escrita. Vejam só: a escritora Lêda Xavier de Almeida não conseguia mais falar, porém ainda lia e escrevia com facilidade.

Compramos um caderno e toda vez que íamos até lá, levávamos-no conosco. Tenho-o aqui comigo. Sabendo que o tempo era exíguo, fiz-lhe o máximo de perguntas que pude. Levamos numa dessas idas o nosso primo José Xavier de Almeida Neto (o Zezinho ou Xan). Lêda não lhe dizia nada, mas seu semblante expressava puro contentamento ao vê-lo contar suas peripécias naquele quintal de sua casa quando era mais novo e ia visitá-la.

Voltei ainda algumas vezes em companhia da prima Maria Dulce, nessa época ela já não interagia com mais nada. A cuidadora nos cedeu algumas fotos antigas, os originais do livro que Lêda não publicou (precisamos dar um jeito de imprimir esse trabalho) e mais alguma coisa ou outra.

Agora à noite, quando recebi a notícia de sua morte, lembrei-me dos versos de Gonçalves Dias: “Não chores, meu filho;/ Não chores, que a vida/ É luta renhida:/ Viver é lutar./ A vida é combate,/ Que os fracos abate,/ Que os fortes, os bravos/ Só pode exaltar.”

Yuri Baiocchi é colaborador do Jornal Opção.

Leia trecho do livro “Gente”, de Lêda Xavier de Almeida

Deixe uma resposta

O seu endereço de e-mail não será publicado. Campos obrigatórios são marcados com *

Esse site utiliza o Akismet para reduzir spam. Aprenda como seus dados de comentários são processados.