Memórias de Fausto Valle são reunidas sob o título de “No Meio de Tanto Graveto”

Livro póstumo do escritor mineiro, radicado em Goiás, será lançado na sede da União Brasileira dos Escritores, Seção Goiás

Edival Lourenço, ao lado do amigo e também escritor Fausto Valle | Foto: Divulgação

Cláudio Ribeiro

No próximo dia 22, terça-feira, às 19 horas, será lançado, na sede da União Bra­sileira dos Escritores, Seção Goiás (UBE-GO), o livro “No Meio de Tanto Graveto – Memórias Literárias e o Percurso Criativo de Fausto Valle Registrados pelo autor entre 1997 e 2007”, que reúne toda a escrita me­morialística do médico, poeta, contista, teatrólogo e tradutor mineiro, radicado em Goiás, Fausto Valle (1930 – 2010).

O título do livro, “No Meio de Tanto Graveto”, foi dado pelo escritor Edival Lourenço, a quem foi confiada a missão de organizar a massa de material ainda inédito; e fora o próprio Fausto quem lhe designara tal missão, antes de sua partida, que se deu em 12 de maio de 2010. Foi no leito do hospital onde estava, já bastante abatido tanto pelo enfisema pulmonar quanto pelo câncer, “sentindo que o fim estava próximo”, como diz Edival Lourenço, que Fausto Valle falou ao amigo que cuidasse de seus inéditos, e que não os deixasse sem publicação. A esposa de Fausto, Clenira Carminatti, testemunhou o pedido. Passado algum tempo, Fausto faleceu e Clenira procurou Edival e lhe entregou parte dos arquivos em formato eletrônico, contidos em um pendrive, e outra parte em papel, encadernados em espiral.

Para levar adiante a tarefa do or­ganizar e garantir a publicação daquilo que lhe foi confiado, Edival pediu ajuda a dois amigos que também eram amigos em comum do escritor falecido: o advogado João Bosco de Carvalho e o físico Ênio Magalhães Freire. Com a ajuda dos dois, “os originais foram destrinchados e ordenados de forma a gerar três livros”, reitera Edival, sendo o primeiro este “No Meio de Tanto Graveto”.

Como dito, o título do volume foi dado por Edival, e a escolha teve um propósito muito particular. Ao ler um trecho das memórias, Edival se deparou como a seguinte frase de Fausto a respeito de sua própria obra: “No meio de tanto graveto, haverá uma ou outra coisa boa.” A imagem dos gravetos deu a Edival o mote de que precisava, isto é, veio à sua mente a questão de uma organização que não desse uma “unidade forçada” ao conjunto do espólio, de modo que o “caos criativo” de Fausto não fosse preterido em prol de uma “falsa ordem” dada pelos amigos à massa de arquivos. É sabido que gravetos, quando bem armados e arranjados, são capazes de sustentar as mais improváveis estruturas, entre elas, a de ninhos de aves. Foi pensando nas aves pernaltas, que constroem seus ninhos com singularíssimos gravetos, no alto das copas de determinadas árvores, que Edival decidiu-se pelo título das memórias – o que, por certo, se mostrou bastante oportuno.

Na massa de arquivos que a esposa de Fausto deixou com Edival, há ainda muitos contos, poemas e correspondências. Ao conjunto de contos e poemas inéditos, o próprio Fausto deixou como sugestão de título “Fundo de Bateia”, o qual será utilizado, no futuro, quando o material for publicado. Quanto ao volume de correspondências, o nome ainda será pensado com o devido cuidado.

“No Meio de Tanto Graveto”, livro de memórias de Fausto Valle | Foto: Divulgação

É necessário que se diga que a produção artística de Fausto começou ainda quando era muito jovem, porém, desta época, nada sobrou, de modo que sua obra começa, de fato, a ser publicada em 1988. Foi neste ano que veio a lume o livro “A fonte do sal” (poesia, Zamenhoff Editores, 1988). A partir daí, Fausto prosseguiu escrevendo regular e ininterruptamente, sempre prezando o esmero. Ao primeiro livro seguiram “Cravos sobre a mesa” (poesia, Editora Kelps, 1992), “Relógio de areia” (poesia, Editora Kelps, 1998), “Aldeia absurda” (poesia, Editora Kelps, 1999), “Confraria dos marimbondos” (contos, Editora Kelps, 2001), “Um boi no telhado” (contos, R&F Editora, 2005), “Poemas dispersos” (poesia, EditoraKelps/Editora UCG, 2005) e“Além do vão da janela” (contos, R&F Editora, 2009).

Afora a poesia e o conto, Fausto se aventurou também pelo teatro, escrevendo a peça “O escolhido”. Além desta, ainda escreveu outras para teatro de mamulengos. Publicou esparsamente poemas em sites e revistas, entre elas a portuguesa “Palavras em Mutação”, convidado pelos editores desta.

Entre os prêmios literário vencidos pelo escritor estão os seguintes: Menção honrosa no extinto concurso José Décio Filho (1991), com o livro “Cravos sobre a mesa”; Bolsa de Publicações Wilson Cavalcanti Nogueira, versão 1997, da Fundação Cultural de Pires do Rio, com o livro “Relógio de Areia”; Troféu Goyazes 2004 (Bernardo Elis, categoria conto), concedido pela Academia Goiana de Letras; Troféu Tioko 2009 de literatura, pela UBE-GO. E recebeu ainda o Título de cidadania goianiense, concedido pela Câmara Municipal de Goiânia, em 2009.
Os amigos em comum de Fausto, Edival Lourenço e João Bosco, em entrevista ao Jornal Opção (que pode ser conferida, na íntegra, nesta edição), contaram várias passagens da vida de Fausto Valle, bem como detalharam traços de sua personalidade e o modo como o escritor concebia suas obras e como se portava, não raro, como um crítico infatigável de si mesmo.

Entre as características de sua personalidade estavam a discrição, a serenidade, o carisma e o interesse por tradições místicas. Segundo os amigos, era um sujeito de reputação respeitabilíssima, tanto meio médico quanto no meio intelectual.

No livro, há vários trechos em que podemos comprovar que a autocrítica, ou autoavaliação, e as reflexões sobre o propósito do fazer artístico (o literário, em especial), eram, também, traços definidores de Fausto. Por exemplo, em 27 de março de 1999 conta o escrito que foi ao Flamboyant Shopping Center, situado no bairro Alto da Glória, em Goiânia, e comprou em uma das livrarias do shopping o volume “Vida de Rimbaud”, de Pierre Matarasso e Henri Petifils (L&PM Editores, 1988). Dois dias depois, escreve Fausto que ainda não havia terminado a leitura do livro sobre Rimbaud, mas que, estava sendo para ele uma leitura que o fazia pensar no poema escrevera tempos antes, intitulado “A Rimbaud”, em homenagem ao “grande vidente” – como ele encarava o gênio francês, autor de “Uma Temporada no Inferno”. Indaga Fausto: “Por que todo gênio há de sofrer? Porque não se ajusta à mediocridade que domina o mundo. Lem­bro-me de José Ingenieros que escreveu ‘El hombre mediocre’, fazendo sua apologia. O homem medíocre ‘vence’ na vida. Atenção mediocridade não tem nada a ver com falta de inteligência. Já vi muitos inteligentes medíocres. (Será que há medíocres muito inteligentes?). (Risos)”

Em outro trecho, diz o autor a respeito de seus próprios contos: “Estive relendo meus contos. Definitivamente, a minha roça não é de contos. Não gostei. Não publicarei livro de contos. Se quiser, um dia, publicar contos, devo apurar a minha linguagem na prosa.” Mais adiante, reflete mais profundamente sobre o mesmo ponto: “Tenho pensado se a ojeriza por meus contos não advém da grande autocrítica de que me armo, quando leio o que escrevo. De qualquer modo, autocrítica ou não, esse sentimento é útil, porque não me deixa pensar que os meus escritos são a melhor coisa que já se fez.”

E tal consciência do valor benéfico da autocrítica também aparece quando o autor reflete sobre sua poesia: “Por oportuno, situo-me. Não me acho um grande poeta. Mas, por outro lado, levo muito a sério o ato de escrever poesia. Policio-me muito. O julgamento de meu trabalho não me cabe. Interessa-me somente o prazer de lidar com as palavras, tão honestamente quanto possa. Burilo meus versos à exaustão. (…) Não passo na prova com 10, mas consigo aprovação sem envergonhar o examinador (leitor).”

Estes simples exemplos dão ao leitor a dimensão do valor deste livro de memórias. É um raro exemplo de honestidade intelectual e artística e uma grande fonte de aprendizado para escritores que estão se iniciando nas veredas da ficção e da poesia.

Uma resposta para “Memórias de Fausto Valle são reunidas sob o título de “No Meio de Tanto Graveto””

  1. Estive no lançamento e estou gostando do que leio. Encomendei da Estante virtual o livro “Um Boi no Telhado”. De fato, Cláudio, “No meio de tanto graveto” encontramos um ser humano decente em que a honestidade intelectual e artística são destaques positivos.
    Muito me interessa a obra de homem que escolheu como epígrafe a frase de Borges “Que otros se jacten de las páginas que han escrito, a mi me orgullecen las que he leído”. Ou, como epígrafe pessoal alternativa: “Passou a diligência pela estrada e foi-se/E a estrada não ficou mais bela, nem sequer mais feia” (Alberto Caieiro, heterônimo do F.Pessoa).

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