Memória e presente nas crônicas de Whisner Fraga

Livro do escritor mineiro traz relatos curiosos ou engraçados, de teor filosófico ou reflexivo, de onde se pode extrair algo de aproveitável, tanto para verificação mais profunda da existência quanto para um riso sem compromisso

Entre relatos curiosos, ou de teor mais filosófico, a graça de suas crônicas vem do modo como ele revisita a seara da memória, e a comparação que vez ou outra faz com o presente

Romancista, contista e poeta radicado em São Paulo, o mineiro Whis­ner Fraga mostra em livro a veia cronista. Sua publicação mais recente “A Verdade É Apenas uma Versão dos Fatos” reúne 71 crônicas que amarram uma série de situações sobre o cotidiano de hoje e de ontem. Ou seja, ele mistura memória e presente, buscando um diálogo do passado com a contemporaneidade.

Os dois primeiros textos abordam a saturação das informações diárias sobre a banalidade da vida atual. Começa anunciando o nascimento de Helena, filha do autor, propondo um diário para registrar a magnífica jornada da prole. “Em 22 de janeiro de 2012, qualquer um que estiver de posse de meus relatos pode ler: ‘Helena faz 4 meses e 16 dias. Está comendo papa de banana, ma­mão e pera’.”

Depois desse relance calcado no presente, o cronista, na ca­sa dos 47 anos, se lança ao mar da me­mória e vai resgatando, um a um, os momentos de alegria e tensão de sua vida de infância e adolescência em Ituiutaba, cidade do interior de Minas Gerais, onde nasceu. No final, volta a perscrutar o presente e a simultaneidade da vida.

“Há um clichê: ‘reviver o passado é sofrer duas vezes.’ Quem criou esse disparate devia estar com uma imensa dor-de-cotovelo. Porque há várias situações em que reviver o passado pode ser muito divertido”, diz Fraga em uma das crônicas.

Entre Clarice e Tesla

Whisner Fraga começou na literatura há muito tempo com o livro de contos “Coreografia de Danados”. Mas sua profissão de fato, aquela que garante o leite da criança, é a engenharia mecânica, na qual ele é doutor pela Universidade de São Paulo (USP), da qual ele é professor, na USP de São Carlos.

Entre um cálculo infinitesimal e uma equação diferencial, entre uma leitura de Gauss e Tesla, ou Dostoiévski e Clarice Lispector, ele escreve bons livros, como o romance “Abismo Poente”, onde começa a saga fictícia de Helena, que depois atravessa os contos de “Sol entre Noites” e os poemas de “O Livro da Carne”, até chegar à identidade real de sua filha, cujas histórias deleitosas ele compartilha em suas crônicas.

O currículo de Fraga mostra um cérebro privilegiado. Além do domínio do campo matemático, sua prosa extremamente poética demonstra um autor habilidoso com a linguagem verbal. Mas parece fugir, como o diabo foge da cruz, da badalação; parece fazer questão de passar reto pelas grandes editoras, e evita ser paparicado pela imprensa.

Experiências sensíveis

Em “A Verdade É Apenas uma Versão dos Fatos”, o autor diz que não quer “compor uma obra literária, mas simplesmente relatar, enviar recados para um futuro, inventar memórias”. Ou seja, o narrador das crônicas quer, sim, fazer ficção. Afinal inventar memórias é erigir mundos, é edificar experiências sensíveis, é compor literatura. E é isso que ele faz nos 71 textos deste livro de memórias inventadas.

Há relatos curiosos ou engraçados, outros de teor mais filosófico. Em todos, não importa o grau de realidade factual, se ocorreu ou não.

O que importa é o que há de verdade em seu núcleo factual, que é quando se pode extrair algo de aproveitável, tanto para uma verificação mais profunda da existência quanto para um riso sem compromisso ou uma reflexão poética da beleza da vida.

Ao lembrar o passado em “A Verdade É Apenas uma Versão dos Fatos”, o autor discorre sobre peladas de futebol, prostitutas, ledeiras de mão, fantasmas, escatologias, pescarias, brigas, namoros.

A graça de suas crônicas vem do modo como ele revisita a seara da memória, e a comparação que vez ou outra faz com o presente. Por exemplo, até a década de 1990, havia um serviço telefônico que era um tipo de linhas cruzadas em que muitas pessoas ao mesmo tempo podiam bater papo.

Em cada cidade, era um número diferente, 155 em Ituiutaba. “Era o Facebook da época” diz o cronista. “Em vez de selecionar a melhor foto e postar, os participantes escolhiam a melhor voz para convencer. Todos mentiam sobre tudo, como nas redes atuais. Uma balconista virava médica, um estudante se tornava empresário.”

Outras versões

A crônica do título do livro fala da impossibilidade da verdade universal das coisas, pelo menos na veiculação dela, porque haverá sempre o recorte do ponto de vista. “A verdade não existe, nem na história, nem em nosso cotidiano”, enfatiza. Quando ele escreveu esta crônica, em 2015, um avião russo havia caído na Península do Sinai, matando as 224 pessoas a bordo.

O cronista leu e comparou a notícia em vários jornais do Brasil e do mundo, e refletiu sobre as discrepâncias das versões do fato, se era acidente ou terrorismo, e em cada uma havia algo que destoava das outras versões.

A tese de que “a verdade é apenas uma versão dos fatos” vale para uma notícia, ou seja, para o jornalismo, que é o objeto de crítica do cronista, mas vale também para a recuperação da memória, quando o presente a puxa para falar de algo no passado, que é o objeto de apreciação do livro de Fraga.

O interessante é que se Fraga tivesse esperado até o final de 2016 para escrever o texto, ele juntaria à notícia da queda do avião egípcio a de como se deu a vitória de Donald Trump nos EUA, com uma mãozinha das fake news nas redes sociais. l

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