Masolino e a nova coreografia estético-espiritual

Pintor italiano do começo do Renascimento conseguiu atingir o patamar de mestre com inovações nas perspectivas, abrindo em pequenos enquadramentos uma sensação subjetiva de espaço para ali poder fazer evoluir figuras dinâmicas

Batistério de Castiglione Olona: Masolino usa espaço pequeno para criar perspectivas extraordinárias

O Jesus de Masolino da Pa­ni­ca­le, no “Batistério de Cas­ti­­gli­one Olona”, está acompanhado, no batismo nas águas do Jordão, de alguns “neófitos” que se despem e se vestem numa estranha co­reografia estético-espiritual. No século XV em geral, e na pintura toscana em particular, no batismo de João Batista, era normal Jesus estar acompanhado invariavelmente de homens bastante jovens. De alguma forma, inicia-se aqui a presença da nudez humana nos espaços simbólicos teológicos.

Há simultaneamente uma representação teológica e uma coreografia-exibição estilística do corpo humano. Masolino não exibe os neófitos numa posição meramente estática. Os neófitos fazem toda uma coreografia com uma concatenação de gestos, dir-se-ia mesmo que os vemos nos atos dinâmicos de vestir-se e despir-se. A pintura “religiosa” anterior assentava sempre em atitudes estáticas e extáticas dos participantes na experiência teológica. Há neste mural diversos elementos novos, num diálogo quer com a tradição pictórica toscana, quer até com a arte bizantina.

Normalmente, os neófitos eram representados de joelhos em atitude de oração, mas não era incomum serem representados a despir-se. Forma-se, nesta época, um catálogo de gestos típicos de catecúmeno que vão ser, mais ou menos, repetidos noutros murais.

Profundo e notório

Masolino trabalhou sempre sob a égide do mestre Masaccio. Muitas vezes passou à sombra deste. Para os críticos, como Masaccio é um revolucionário, Masolino passa por um continuador. As evoluções pictóricas de Masolino podem não ser tão barulhentas como as de Masaccio, mas são igualmente profundas e notórias, feitas no jogo do detalhe. Masolino já não pinta na esteira da tradição cortesã em tons harmoniosos (verde e rosa, como era hábito), a traduzir primaveras leves. No batistério, já temos um Masolino com características de “gótico internacional” (ou “estilo internacional”).

Ele aproveita o espaço inapropriado para construir jogos extraordinários de perspectiva. No fundo, na falta de espaço físico, cria uma sensação de espaço abrindo a ilusão de “buracos” nas paredes. As colunas parecem mergulhar em profundidade a uma velocidade vertiginosa. Abriu uma sensação subjetiva de es­paço para ali poder fazer evoluir figuras dinâmicas. O batistério é um quar­tinho minúsculo, mas quem está lá dentro tem a sensação de estar nu­ma catedral e numa explosão de cor, vida, espiritualidade e simbolismo.

O batistério é uma das grandes obras do renascimento na Lom­bar­dia. O trabalho foi encomendado pelo cardeal Branda Castiglione. O fresco inicia-se, do lado esquerdo com a anunciação de Zacarias e segue para a Visitação (infelizmente, este fresco está quase destruído). Ao Norte, temos o nascimento de João Baptista (ou os escombros do fresco) e Zacarias dando nome ao menino. Já na área do altar, temos a festa de Herodes, Salomé apresentando a cabeça de João Baptista a Herodias, e o enterro de João Baptista. Junto do altar estão as grandes cenas do ciclo: O sermão de João Baptista no deserto e o sermão junto ao Rio Jordão, o batismo de Jesus Cristo, Herodes e Herodias e João Baptista na prisão. Obviamente, a grande divisão central são os quatro evangelistas com os seus símbolos.

Não há dúvidas de que foram pintados por Masolino – no sentido do termo desta época, isto é, as mãos que por ali se misturam são de discípulos que se limitam a fornecer trabalho artífice.

Eco espiritual

A representação do batismo de Jesus acompanhado só aparece já na parte final do Renascimento. Se se olhar com atenção, os quatro neófitos não participam da mesma forma no batismo: dois estão por trás de João Batista, no lado esquerdo do rio, e os outros dois do lado direito – nenhum deles na posição de oração típica da época. Dois dos homens despem-se, o outro parece vestir uma espécie de ceroulas típicas da época e um quarto homem está já enrolado em algum tipo de tecido e não se fica a perceber se já foi ou não batizado, a forma como se inclina pode, segundo alguns, representar a humildade do batizado que acaba de confessar publicamente os seus pecados e acompanhar Jesus no batismo pelos mesmos.

Note-se que, as águas do Jordão que batizam Jesus, são santificadas pela Sua presença. Os que se batizaram antes de Jesus, não se batizaram em águas santificadas por Jesus, criando um estranho simbolismo que reforça a ligação do batismo dos humanos ao batismo de Cristo. Simbolismo profundo para quem não se esqueceu que estamos dentro de um batistério.

Masolino não quis representar os batizados no momento de “descer às águas”, mas optou por mostrar o momento em que humildemente se vestem e se despem das antigas roupas, criando assim um eco entre a atitude humilde de Jesus de optar pelo batismo, irradiar essa humildade para os neófitos e isso ressoar na capela como um eco espiritual para todos aqueles que, muitos anos mais tarde, intemporalmente se entregam ao mesmo rito de Jesus.

A luz que entra no batistério ilumina o corpo de Jesus batizado e reflete-se no corpo dos neófitos, a parede tem uma curva que permite essa reflexão. A erupção violenta e simbólica do corpo humano visa conectar o batizado presente a todos os batizados, este batismo insere-se em todos os batismos, de todos os homens.

Estes homens que se despem do mundo e se revestem de Cristo, são aqueles que acompanham Jesus na solidão do batismo e que com Ele ressuscitarão, Jesus já está acompanhado dos que ressurgirão com Ele, já está em curso a eternidade. Embora se percebe a dinâmica dos gestos dos batizados, não há grande atenção a detalhes físicos, não há aqui aquela anatomia atlética “clássica”, quase se pode dizer que há algum platonismo cristão: o corpo é apenas uma ponte e receptáculo do Espírito. Masolino não se centra na anatomia mas nos gestos, na articulação, no movimento, no permanente batismo que o universo carece… “porque se batizam eles?”(I Coríntios 15: 29)

Frank Wan vive em Portugal. É ensaísta, poeta, professor e tradutor.

Deixe um comentário

Caro Gilberto, não precisa publicar este comentário. Como não tenho seu e-mail, faço o alerta por aqui. O autor do texto não é Frank Wan? O nome dele foi excluído da autoria, com o tradicional “especial para o Jornal Opção”.

Bravo! Frank Wan e editor Gilberto G. Pereira.

wpDiscuz