Mas, afinal, quais são os critérios para a escolha do prêmio Nobel de literatura?

O critério primordial levado em conta pela academia sueca não é o formalismo. O pendor sociológico parece ser primordial em seus julgamentos

Bob Dylan, vencedor do prêmio Nobel de Literatura de 2016 | (Photo by Lester Cohen/WireImage)

J. C. Guimarães
Especial para o Jornal Opção

Bob Dylan não é das me­lhores portas de entrada para esse vasto continente chamado “Prêmio Nobel de literatura”. Mas é talvez a melhor desculpa para entrarmos para dentro. O fato de o músico ter sido laureado em 2016 causou estranheza a muita gente, e com razão. Dylan fora congratulado por inúmeras celebridades, até pelo super-romancista inglês Ian McEwan, o que não quer dizer nada: McEwan jamais assumiria uma divergência dessas em público. É verdade (conforme a justificativa da academia sueca) que na Grécia antiga a poesia lírica, de coro, contemporânea de Píndaro, era acompanhada por instrumentos musicais, notadamente a flauta e a lira. Temos aqui mesmo, no Brasil, um exemplo notável da íntima associação entre música e poesia na obra Vinicius de Moraes. “Garota de Ipanema” é uma das canções mais executadas no mundo desde 1963. Mas fenômenos assim são de uma raridade extraordinária.

Nosso conceito de poesia mudou tão radicalmente desde a Antiguidade que não dá mais para confundir poesia, stricto sensu, com letra de música, que existe para ser cantada. Pouco importa se os dois gêneros partilham certas condições básicas, de importância permanente.

Se, em todo caso, os músicos insistem que não pode haver essa distinção – porque constituiria um “preconceito” –, que tal sugerirmos que o Grammy seja atribuído ao poeta sírio Adonis, cotado ao Nobel e protelado mais uma vez, em nome de Dylan? Será que os músicos não achariam bizarro? Uma das objeções mais aceitáveis que poderiam alegar é que há tantos músicos “profissionais” merecedores do Grammy que não justificaria dá-lo a um “escritor”. Faz sentido. Bob Dylan não é conhecido por seus livros porque é, eminentemente, “músico”, artista da voz cantada. Ora, também há tantos “literatos profissionais” na fila do Nobel que não justificaria tê-lo dado a um corpo estranho. Duvido sinceramente que Dylan seja melhor escritor do que Philip Roth ou mesmo John Fante, ou mais poeta que Ferreira Gullar.

Música à parte, entremos diretamente neste continente, acusado de cometer tantas outras injustiças. Desta feita, não por ter premiado artistas de outra seara (Dylan é uma aberração única), mas por ter, segundo um consenso abrangente, relegado escritores notáveis por outros que ninguém conhece. Tornou-se um lugar comum reclamá-lo tardiamente a nomes de importância capital como James Joyce, Marcel Proust, Jorge Luis Borges, Virginia Woolf, entre outros da mesma categoria. Categoria que aliás tem nome: Modernismo. Fato é que a academia sueca nunca se deixou seduzir pelas expressões daqueles escritores identificados com as vanguardas, criadores de uma literatura que John Fletcher e Malcolm Bradbury definiram como “literatura autotélica”. Neste caso, o conceito de romance é mais importante do que propriamente narrar histórias de maneira objetiva, baseadas num enredo. Segundo os críticos mencionados, o romance moderno não narra o mundo: cria-o, a partir de estruturas imanentes. Isso foi uma novidade!

Informações sistemáticas acerca do prêmio Nobel são escassas, e muito mais difícil é pesquisar os 116 laureados desde 1900 até o presente, exatamente porque a maioria é de escritores desconhecidos e jamais traduzidos no Brasil. Mas existe um comentarista autorizado, que com sua “História da Literatura Oci­dental” permite ao menos coligir alguns dados elementares, apesar de muito desiguais: Otto Maria Carpeaux. O último laureado ao qual Carpeaux, morto em 1978, ainda conseguiu dedicar duas linhas sem qualquer menção à obra foi o caribenho V.S. Naipaul, que recebeu o Nobel em 2001. Uma avaliação mais isenta exigiria o exame de outras fontes, mas não dispomos delas, contudo. Se depender de Carpeaux (esclareça-se, um praticante da crítica sociológica), realmente a maioria dos laureados com o Nobel de literatura não é mesmo digna dessas alturas, e desde logo fica evidente: a maioria das apostas da academia recaiu sobre escritores tradicionais.

Há, sem dúvida, um confronto entre tradicionalistas e modernistas nesse jogo, com tendência significativa a favor dos primeiros. O critério geracional pode dar pistas mais ou menos seguras dessa tendência. Considerando, por exemplo, autores nascidos entre 1899 (ano de nascimento de Ernest Hemingway) e 1900, a proporção foi de seis tradicionalistas para apenas três prosadores modernistas. Já os nascidos entre 1890 a 1910 parecem corresponder à mesma proporção, embora Carpeaux não esclareça a questão estilística de maneira precisa, em todos os casos. E é claro que há nuances estilísticas caso a caso, que convém observar.

Mas o que afinal estou chamado de “tradicionalismo”? Àquele estilo narrativo que, ao invés de adotar as técnicas subversivas da vanguarda, preserva os meios de expressão consagrados pelo Realismo e pelo Naturalismo do século 19, muito bem manipulados por mestres como Zola e Tolstoi, atuais em sua época. Isso significa que a maioria dos romancistas laureados pelo Nobel, no século 20, gostava de retratar a realidade como dado objetivo, sociológico e exterior à linguagem. Sob esse critério, podem ser considerados esteticamente anacrônicos. A arte parece servir-lhes mais como meio do que como fim em si mesma, conforme passou a ser encarada desde Flaubert e desde o Simbolismo: como forma, mais que conteúdo.

Johannes Wilhelm Jensen, vencedor do Nobel de literatura de 1944 | Foto: divulgação

Não seria surpreendente se nosso José Lins do Rêgo tivesse sido laureado, uma vez que se encaixa perfeitamente nessa tradição, a tradição dos grandes painéis sociais, à maneira de um Knut Hamsun ou de um Roger Martin du Gard. Os temas explorados por tais autores não é a crise do indivíduo nem a linguagem, mas assuntos de interesse sociológico imediato, não raro de sabor regionalista e até rural, em contraste com a cena urbana que impregna o Modernismo de cabo-a-rabo. O romance ainda se serve do enredo para reconstruir a vida rural no interior da Finlândia (Frans Eemil Sillanpää) ou a noção de pecado na ótica do romance católico, porque existe uma coisa chamada “romance católico” (François Mauriac, Somerset Maugham, Julien Green…); serve para refletir sobre a escravidão branca em Salinas Valley (John Steibeck) ou para denunciar a dominação turca sobre os povos eslavos (Ivo Andrić), etcetera, etcetera. Portanto, segundo a academia sueca, literatura não é apenas a aventura da linguagem, de jeito nenhum. É, em primeiro lugar, retrato da realidade social.

A escolha de um Thomas Mann, em 1929, é perfeitamente compreensível neste contexto, porque sua obra é um poderoso retrato de gerações burguesas, em crise, desde antes da unificação alemã por Bismarck. Mann, apesar de esteticista, também escreveu histórias tradicionais. De acordo com J. P. Stern, os moldes literários de “Os Buddenbrocks” já eram considerados ultrapassados pelos vanguardistas em 1901 (anos de sua publicação); moldes que na tardia década de 70 ainda contribuiriam para o reconhecimento de Alexander Soljenítsin, o laureado de 1970!

Assim, já não é incompreensível que James Joyce – o mais radical entre os modernistas – tenha sido ignorado pela academia sueca. No lugar de quem, entre os anos de 1928 e 1939 (portanto depois de “Ulisses” e antes de morrer), ele poderia ser escolhido: no lugar de Sigrid Undset? De Erik Axel Karlfeldt? De John Galsworthy? De Roger Martin du Gard? Ou de Pearl S. Buck? Eis uma sequência de nomes que quase ninguém associaria a escritores conhecidos. O que eles têm em comum é justamente a forma tradicional da maioria. De sorte que ao longo do tempo os eleitores do Nobel não evidenciam nenhum compromisso com o Modernismo, visto como uma entre outras tendências válidas de expressão, e não única.

Até 1950, os únicos prosadores rigorosamente modernistas incluídos na premiação foram Luigi Pirandello (1934) e William Faulkner (1949), com talvez apenas três casos intermediários: Thomas Mann (1929), Hermann Hesse (1946) e André Gide (1947). E então “descobrimos” que em paralelo à vanguarda internacional existe outra literatura importante, apesar de cultivar técnicas “em desuso”. Nomes equivalentes a Faulkner, como Henry James, Hemann Broch, Robert Musil, Conrad, Nabokov, Borges e Kafka não levaram a premiação. Deste ponto de vista, os casos mais surpreendentes foram Faulkner – porque pertence à grande vertente do romance modernista, na linha de James, Conrad, Proust, Joyce e Virgínia – e Henri Bergson, cujas descobertas no campo da psicologia influenciaram até a medula as artes plásticas e a literatura de vanguarda.

A opinião corrente de que muitos daqueles tradicionalistas não mereceram a premiação é corroborada por Carpeaux. Entre tais nomes constam o indiano Rabindranath Tagore, poeta georgiano, bucólico e primitivista. Seu sucesso é um problema histórico, já que oferecia um contraste perfeitamente exótico, místico, em face da sociedade utilitarista do Ocidente. Já Romain Rolland “pertence mais à história moral do que à história literária da França” – onde, aliás, fez menos sucesso do que no exterior, porque no exterior suas “fraquezas estilísticas” desapareciam. Outro francês muito célebre, Anatole France, era parnasiano e “pensador de segunda mão”, e “depois da leitura, que é uma delícia, não fica nada.” O espanhol Jacinto Benavente, por sua vez, “não chega além de panfletos reacionários dramatizados”, e Karl Adolph Gjellerup nem sequer dominava bem o próprio idioma: até “na própria Dinamarca censurou-se inconveniência da homenagem ao escritor pretensioso e inábil”.

Já entre os ilustres desconhecidos que se fizeram dignos da premiação, mais raros, constam um Henrik Pontoppidan, o “escritor mais poderoso da literatura dinamarquesa inteira”, e Ivan Bunin, que “era um clássico, o último clássico russo do estilo objetivo.” Mas esses dois, diga-se, também cultivaram formas que já não se poderia considerar, então… em desuso.

Disso tudo depreende-se que o critério primordial levado em conta pela academia sueca não é o formalismo. O pendor sociológico parece ser primordial em seus julgamentos. Não é uma questão irrelevante, corroborada por um interesse político evidente: o compromisso do Nobel com a cultura nórdica. Todos sabem que a Escandinávia constitui uma comunidade cultural claramente demarcada, de cinco países: Suécia, Noruega, Finlândia, Dinamarca e Islândia. É um mundo tão à parte quando o mundo eslavo ou o mundo latino, e então o aspecto estético não poderia mesmo prevalecer sobre o cultural. Não fosse o marketing por trás do Nobel, talvez nunca tivéssemos ouvido falar em Johannes Vilhelm Jensen ou em Pär Lagerkvist. Até 1955 não se passou mesmo uma década sem que ao menos um autor de origem escandinava fosse premiado, sendo que em 1916 e 1917 três deles foram agraciados. De lá para cá essa tendência se desfez, mas seis outros nórdicos levaram o prêmio para casa. Apenas a Suécia, terra do Nobel, conta sete agraciados.

Para concluir, há outro aspecto relevante que parece refletir o modelo acadêmico francês: o Nobel transcende a literatura e premia também filósofos, sociólogos e historiadores. Neste caso, os laureados foram Theodor Mommsen, Rudolf Eucken, Henri Bergson, Bertrand Russell, Winston Churchill e Jean-Paul Sartre (que parece ter sido laureado sobretudo em função de sua contribuição à filosofia). Enfim, o conceito de “literatura” da academia sueca ou é vago demais ou apenas uma formalidade. Alguns elementos com poder de atribuição aproveitaram essa vagueza e julgaram conveniente incluir Bob Dylan, a música, em 2016. Foi demais, até para os padrões extremos de Joyce. Quem sabe amanhã premiem um artista plástico (agora “artista visual”), de sorte que não poucos observadores consideram a pintura “poesia pintada”. Se o que vale é a justificativa, gostaria de lembrar que, lato sensu, toda arte é manifestação de poesia. Mas isso é justificativa ou vale-tudo?

J.C. Guimarães é escritor, autor do livro de ensaios “Uma idade para ser eterno”.

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Valdinei

Vejo o Prêmio Nobel apenas como mais um dos prêmios literários que existem pelo mundo. Chama mais a atenção pelo valor monetário da premiação e, também, por chamar a atenção para a obra de algum escritor bom, mas ignorado, por pertencer a um país periférico. Não se está premiando o melhor escritor do mundo, mas sim o autor que está conforme o que foi estabelecido pelo fundador do prêmio, que visava premiar pessoas que houvessem contribuído para o desenvolvimento da humanidade, seja lá o que isso signifique. Portanto, não é o critério literário que prevalece. Como é um prêmio internacional,… Leia mais

ADALBERTO DE QUEIROZ

Excelente, Guimarães.