Mary Shelley e a metáfora da mulher em Frankenstein

“Frankenstein” é uma complexa mistura de metáforas, reflexões sobre a humanidade e uma sociedade invasiva e segregadora

Thauany Melo

Numa sombria noite de novembro, a Criatura de Dr. Victor Frankenstein tomava o primeiro sopro de vida. Em um corpo estranho, sem nome e violentado mesmo antes do nascimento, o ser experimentava as primeiras sensações da humanidade. Diante da alteridade deturpada, o seu criador só conseguiu oferecer a rejeição, antes de fugir com horror do que havia criado.

A autora do livro “Frankenstein ou Prometeu Moderno”, Mary Wollstonecraft Godwin (Mary Shelley, depois do casamento com o poeta Percy Shelley), nasceu em Londres, dias antes de perder a mãe por complicações no parto. Mais tarde, ao experimentar a primeira maternidade, sua filha morreu pouco depois do nascimento, logo houve o suicídio da meia-irmã, Fanny Imlay. Da dor e da perda, nasceram Criadora e Criatura.

Capa da Editora Penguin, 2015. Foto: Reprodução.

É perceptível que Mary Shelley trouxe aspectos de sua vida para o livro, sobretudo para os sentimentos experimentados pela Criatura, pois a solidão, o autoconhecimento, a rejeição e o abandono estão presentes tanto no “monstro”, como na vida de Shelley. Além disso, o romance explorou a formação de identidade a partir das relações humanas e como a monstruosidade das próprias pessoas afeta a construção de caráter.

Depois de dar vida a um ser, Dr. Frankenstein o lançou para a escuridão, para o silenciamento, para o mito do mistério perigoso que permeia o outro que é diferente de si. E, para a Criatura, sobrou apenas a insistência vã em se adaptar a um mundo no qual o seu corpo e sua aparência são levados em conta antes de qualquer outro elemento da personalidade.

Até mesmo experiência da escrita feminina, numa época em que a intelectualidade era de dominação masculina, colaborou para a criação da narrativa. A primeira vez em que Mary Shelley teve seu romance publicado foi sem seu nome, pois sua autoria era questionada, sob argumento de que uma mulher tão jovem não poderia imaginar uma obra com aquela originalidade.

A Criadora

Mary Shelley foi fruto da relação entre o filósofo político William Godwin e a teórica feminista Mary Wollstonecraft, que morreu por causa do parto da filha, deixando-a duas de suas maiores cicatrizes emocionais: a culpa e a carência. Sentimentos que foram acentuados no segundo casamento de Godwin com uma mulher de caráter mais conservador, que alimentava um certo ciúme da relação entre pai-filha.

Na época em que a educação feminina ainda era um tema de debate, Mary Shelley crescia estudando no isolamento de sua casa, através de métodos alternativos criados a partir das teorias de seu pai e sua mãe, que versavam sobre o ensinamento crítico enquanto formador de sujeito e maneira de se autoconhecer e conhecer o mundo ao redor. Sempre incentivada à intelectualidade e à literatura, conheceu grandes pensadores do século 19, até que se apaixonou por um deles, Percy Shelley, poeta rebelde e discípulo de seu pai.

Apesar dos princípios de liberdade sexual e matrimonial, Godwin não permitia o relacionamento entre Mary, de 15 anos, e Percy Shelley, de 20 anos, o que resultou na fuga dos dois — acompanhados por uma das irmãs da escritora. O ato de desobediência levou o pai a relegar a filha por cerca de três anos, o que contribuiu para o sentimento de solidão e abandono que atingiu a Mary durante muito tempo.

Pintura da escritora inglesa Mary Shelley, no século 19. Foto: Reprodução.

Ofuscada pela fama de Percy Shelley, ofendida pelas suas traições justificadas pela tese “amor livre” e absorta num estado de devoção à sua intelectualidade, Mary abdicava da sua própria personalidade. Os círculos sociais do marido, os seus livros e os seus dramas ocupavam toda sua rotina. E, depois de perder a primeira filha, o seu estado emocional se tornou ainda mais fragilizado. Certa vez chegou a relatar em seu diário um sonho que tivera, no qual a menina voltava a vida — talvez o seu primeiro impulso de desafiar o conceito de morte.

O contexto de nascimento da obra “Frankenstein” foi descrito por Mary Shelley no prefácio da edição de 1831: ela e Percy Shelley  estavam hospedados na casa do poeta Lord Byron, enquanto chuvas incessantes os confinavam e eles mergulhavam em histórias de horror e longas conversas sobre filosofia. Com o tédio, o anfitrião da casa lançou o desafio de escreverem histórias fantasmagóricas.

Afetada por um pesadelo que teve noites antes, por causa das impressões de uma conversa sobre ressurreição por galvanismo, Mary resolveu escrever sobre o que lhe havia tirado o sono. O que surgiu em forma de conto se transformou em um dos romances mais importantes da história: “Frankenstein ou Prometeu Moderno”.

A Criatura

O “monstro” de Dr. Victor Frankenstein nasceu com o desejo de se tornar aceito, sobretudo por seu criador. Depois do primeiro contato com o abandono, o ser inicia uma busca solitária por conhecimento, companhia, pertencimento e afeto, coisas que o foram, em todos os momentos, negadas.

Autora do romance icônico “Frankenstein” — que o mundo inteiro conhece devido ao livro e ao cinema | Foto: Reprodução

Como a autora do livro, a Criatura encontrou, em seus primeiros momentos da vida, refúgio nos livros e, por intermédio deles, questionou o seu lugar no mundo. Com “Os Sofrimentos do Jovem Werther”, de Goethe, aprendeu sobre o amor, o sofrimento e a morte, se indagando quem lamentaria a sua perda, já que não era amado por ninguém.

Com “Paraíso Perdido”, de John Milton, a Criatura buscava pela similaridade com o resto da humanidade, se encontrando apenas na figura de Satã ao observar o contentamento dos outros diante da sua inveja por se sentir infeliz, indefeso e só. Em “Vidas Paralelas”, de Plutarco, questionou o seu papel na sociedade, não encontrando lugar algum para a sua imagem.

“À medida que ia lendo, porém, aplicava muita coisa a meus próprios sentimentos e condição. Achava-me parecido, e ao mesmo tempo estranhamente diferente dos seres sobre os quais lia e cuja conversa escutava. Solidarizava-me com eles, compreendia-os parcialmente, mas não tinha sua formação mental” (Frankenstein, de Mary Shelley).

Depois de um tempo absorvendo da literatura e da contemplação de outros a sua personalidade voltou-se para o criador e pediu-lhe que fizesse uma companheira igual a ele, para que não fosse mais sozinho no mundo. Quando isso também foi negado, a Criatura se firmou como o ser vingativo e destruidor que Victor descreveu em suas narrativas.

“Se não posso inspirar amor, causarei medo, e principalmente a você, meu arqui-inimigo, que, por ser meu criador, juro odiar sem trégua. Esteja atento para isto: trabalharei por sua destruição e não descansarei até que tenha esfacelado seu coração, de tal modo que você amaldiçoará o dia em que nasceu” (Frankenstein, Mary Shelley).

A mulher e o monstro

A melancolia de Mary Shelley transcendeu a narrativa e deu voz aos seus dramas e aos da Criatura, que foi levada a alienar sua própria identidade e impugnar a sua existência até o seu último dia. Antes de tudo uma transgressora, Mary Shelley (1797-1851) viveu o século 19 na pele de uma mulher que se fez ouvida e lida.

Capa da editora Zahar, 2018. Foto: Reprodução

A ideia de que o livro nasceu da própria experiência de Shelley e da sua frustração a respeito da posição que as mulheres britânicas mantinham no início do século 19 é um fator crucial para a compreensão de Frankenstein. Da mesma maneira, é importante reconhecer a crítica por meio das figuras femininas apresentadas na narrativa, que são descritas como dependentes, delicadas e maternais, ao mesmo tempo em que vão se dissolvendo rapidamente no decorrer da história pelo apagamento ou pela morte. Mary Shelley, ao enfatizar a passividade das mulheres, expõe a fragilidade na qual estavam submetidas, passíveis de serem vitimizadas.

Ambos, a Criatura e a mulher, experimentaram da luta pelo espaço negado pela monstruosidade e insensibilidade daqueles que estavam na posição de poder na sociedade e buscou caminhos independentes para tentar se fazer acreditado, compreendido e aceito.

Frankenstein não é apenas uma história de cientificidades e fantasias, mas, para além disso, é uma complexa mistura de metáforas e reflexões sobre a humanidade. Sobre uma sociedade que deveria ser acolhedora, mas que é, na verdade, invasiva, segregadora, preconceituosa e cheia de sujeitos que desumanizam aqueles que são opostos ou não se encaixam em seus parâmetros.

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