Marina Colasanti conta a breve história de um pequeno amor

A autora remete o leitor a um universo onde crescer dói, cada mudança enfrentada anuncia outra ainda maior, mas assim é a vida

Soninha dos Santos

Especial para o Jornal Opção

Marina Colasanti: escritora e tradutora | Foto: Reprodução

Há narrativas surpreendentes. E há narrativas que surpreendem ainda mais pela forma com que a história vai sendo contada. Algumas possuem uma leveza e um encantamento tão grandes que fazem dos leitores, prisioneiros dela e, de tal maneira, que, ao terminarem a leitura, ficam adentrados nela para sempre. Marina Colasanti é uma artesã das palavras, conhecedora do seu ofício. É dessas artesãs capazes de subverter o óbvio em pura poesia narrada. Suas narrativas são pretextos para a poesia, suas histórias compostas de imagens belíssimas — cuja maior riqueza consiste na simplicidade com que os fatos são narrados e, por isso mesmo, seus leitores permanecem presos a elas, mesmo depois do ponto final. Impossível não fazer parte delas depois de conhecê-las. Depois de adentrar seus palácios, suas teias e teares. Seus ninhos e seus voos. Seu abraçar o mundo de uma forma delicada e sutil, dessa forma, abraçando todas as pessoas e outros seres viventes.

Seu livro “Breve História de um Pequeno Amor” (Editora FTD, 48 páginas) demonstra essa capacidade poética que apenas os bons autores possuem — a de traçar uma linha tênue entre a nossa vida e a nossa capacidade de sentir e amar. A história — à primeira vista apenas a história de uma senhora que encontra um filhote de pombo no telhado de seu escritório e passa então a cuidar dele — parece ser uma história comum, dessas sem atração nenhuma. Mas é só o que parece. É uma história, como ela mesma afirma em seu texto, que começa debaixo das telhas desmanchadas e, dessa forma, vai sendo construída novamente depois se desmanchar.

Capa do livro de Marina Colasanti | Foto: Jornal Opção

É uma história de amor e, como tal, contém todos os ingredientes de uma história assim. Possui ciúme, aflição, paciência, cuidado, preocupação, saudade, orgulho, dor. Sensações de uma relação amorosa completa e, como tal, passível de término, mas também de um novo recomeço.

Há ainda outra sensação humanamente visível no corpo do texto de Marina e que considero muito importante: a construção da noção de identidade, de perceber  que, a partir do momento que nomeamos algo ou alguém, uma história, em comunhão com a nossa, vai sendo construída, ou seja, a partir do momento que nomeamos, atribuímos nome, qualidade e valor a um outro ser, passamos a fazer parte da vida e da história dele.

O ser, um pombo nomeado Tom e encontrado pela personagem ainda filhote, num primeiro momento é colocado numa caixa fora da casa. Com essa tática, ela espera que a mãe volte e o leve embora. Como o fato não se deu, ela achou por bem cuidar do pombinho. Resultado: afeiçoou-se ao bichinho e logo lhe deu o nome e começou a querer-lhe bem. Situação que para um jovem leitor é completamente natural.

Como mãe zelosa, tem medo que ele voe e não volte. Pensa até em cortar-lhe as asas, coisa compreensível para mães que temem a revoada dos filhos. É onde a história se desenrola, pois, já criado, o bichinho voa. Voa e volta. Voa novamente e volta com uma parceira. Até o dia em que voa e não volta mais. O ninho fica vazio. A casa vazia. O coração apertado de uma dor tão forte que as forças chegam a faltar.

É uma história de transformação, crescimento e amadurecimento. A criança, se vendo na narrativa, pode perceber nuances de sua própria história ou de como cada um tem o seu papel a cumprir na história da vida, história essa cheia de percalços, alegrias, tristezas, dores, ganhos e perdas, latentes em qualquer ser humano. Marina remete o leitor, grande ou pequeno, a um universo onde crescer dói, cada mudança enfrentada anuncia outra ainda maior, mas assim é a vida humana. O prêmio pode ser a descoberta de si mesmo e de como esse achado pode valer muito a pena.

Soninha dos Santos é professora de literatura infantil e juvenil.

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