“Mãe!”: uma poderosa alegoria repleta de chaves de leituras

Novo filme de Aronofsky é um exercício semiótico, que se configura em diversas camadas e chaves de leitura. Uma obra que se desdobra em várias. É o tipo de trabalho, vindo de um grande estúdio, que não víamos brotar desde diretores do calibre de Kubrick

Javier Barden e Jennifer Lawrence, protagonistas de “Mãe!” | Foto: Reprodução

Ricardo Silva
Especial para o Jornal Opção

A Mãe e o Pai

“Eli, Eli, lamá sabactâni? O que quer dizer: Deus meu, Deus meu, por que me desamparastes?”. A frase é bastante familiar, conhecida do nosso imaginário religioso e cultural. Conhece­mos também muito bem o contexto em que ela aparece, quem a disse e em que circunstâncias: Jesus, na hora de sua morte e sofrimento na cruz do calvário, cita um salmo do rei Davi. É o Salmo 22, no seu primeiro versículo. A canção de Davi prossegue por mais trinta e um versículos, porém os que nos interessam aqui são os dois primeiros: “Deus meu, Deus meu,/por que me desamparastes?/ Por que se acham longe de minha salvação/ as palavras de meu bramido?/ Deus meu, clamo de dia,/ e não me respondes;/ também de noite, porém não tenho sossego.”

Na primeira ocasião, é Jesus, filho Deus — e também, ele mesmo Deus —, transmorfo em humano, que confessa, ao dizer o salmo do famoso rei de Israel, que se sente desamparado pelo pai, se sente só. Morre solitário, pelas mãos dos homens que, segundo a teologia cristã, ele veio salvar. O pai não está lá. A única coisa que está lá é a solidão, o desamparo, o silêncio e, por fim, a morte. No entanto, essa era a missão de Jesus, desde sempre, desde quando foi concebido por Maria, a virgem. Ele era o Cordeiro de Deus, o Messias, a salvação tão aguardada e prometida. Na segunda, a menos conhecida, conhecida somente porque a primeira se imortalizou, temos Davi, o impulsivo rei, também aflito pelo silêncio que vinha do pai, do deus de Israel. Era para esse pai que ele dirigia suas preces e dele recebia apenas o silêncio, o vazio que lhe tirava o sono, a não-resposta que não lhe permitia o sossego. O Pai ausente, a quem clamava de dia e de noite e de quem não tinha qualquer retorno, apenas o sussurrar do silêncio. O Pai silencioso.

Ao conhecer os detalhes da narrativa bí­blica, encontramos a figura bastante problemática de um deus que não escondia suas falhas, e que as enfeitava com um poderoso discurso. Do gênesis ao apocalipse, a figura do deus judaico-cristão permanece sempre a revelia. Ao escolher Moisés como o libertador de Israel e quando este lhe perguntou o que diria caso perguntassem que deus era aquele, ele indicou como resposta apenas uma frase: EU SOU O QUE SOU (êxodo 3:14). O que não responde muito, certamente. Esse mesmo deus era extremamente preocupado com a forma como os humanos lhe serviriam, sempre certificando-se de que todos lhe dariam a devida atenção ou, caso contrário, daria cabo nas suas vidas. Esse deus que não também não tinha muito tato com quem resolvia contestar sua autoridade ou dar atenção a outros deuses. Um deus egoísta.

Sei que dizendo assim, parece desrespeitoso; parece que não estou respeitando sua religiosidade ou mesmo as bases da sua fé — caso ela seja judaica ou cristã. Mas teve um jovem diretor e roteirista que soube transferir tudo isso para uma fabulosa metáfora visual e ironicamente deu ao nome desse seu trabalho de “mother!”.

O filme de Aronofsky é um poderoso recurso narrativo metafórico. O filme se inicia com uma mulher pegando fogo e depois disso para a cena em que Ele — assim mesmo, sem nome, sem identificação —, interpretado por Javier Bardem, usa uma espécie de diamante ou cristal para ressuscitar uma casa devastada, em que aparece, ressurgindo das cinzas, uma mulher, Mãe, vivida por Jennifer Lawrence que ao acordar se vê sozinha na cama e vai a procura do marido, um poeta que está bloqueado no processo de escrita de um dos seus poemas. É nesse momento de bloqueio, que o casal recebe a visita do Homem (Ed Harris), que de alguma forma é um indicação do que seria Adão — a cena do banheiro deixa isso bem claro, pois a marca da costela rompida ainda está ali, latejante —, com suas fragilidades e a proximidade da morte, está morrendo, velho e decrépito. Ele o recebe em casa, cuida dele e age a revelia das vontade de Mãe, que nunca é consultada em nenhuma das decisões que Ele toma. Na sequência aparece a Mulher, magistralmente feita pela Michelle Pfeiffer, que seria a Eva ou Lilith da mitologia cristã/judaica. Eles se alojam na casa de Mãe, ao seu contragosto. Ele e o Homem saem para caminhar — algo como as caminhadas de deus e Adão no Jardim do Éden na virada de cada dia, conforme o relato bíblico —, enquanto Mulher e Mãe ficam em casa para lavar a roupa. Nesse cena acontece algo um contraste curioso: Mulher é mais lasciva, carnal, terrena e insinua que Mãe, serena, recatada, delicada, angélica, seja menos “santa” se quer realmente ter um filho d’Ele. De Adão e Eva, vamos para Caim e Abel — sem se­rem nomeados —, irmãos que digladiam-se pela herança do pai e temos um irmão matando o outro, tornando o clima da casa cada vez mais ca­ó­tico. No ínterim dos acontecimentos uma presença constante é a ausência d’Ele. Em toda e qualquer oportunidade, Ele se ausenta, deixa Mãe só.

O isolamento talvez seja um dos pontos altos que atravessam todo o filme. Mãe nunca consegue sair da casa, está sempre presa naquele ambiente. O recurso visual utilizado para tornar essa impressão ainda mais patente é o fato de longos planos serem completamente fechados ao focar a personagem, ou por a seguirmos caminhando por toda a casa. Por mais que tente dizer do abandono que sofre para Ele, sempre há uma justificativa para isso. Ele parece nunca se importar com Mãe. Ela está sempre ali no papel da subserviência, da resignação, de se anular para que Ele seja cada vez maior.

A partir da morte de um dos irmãos, entram em cena uma miríade de pessoas que passam a ocupar a casa de forma invasiva, desrespeitosa. Primeiro, os parentes em luto pela perda do irmão, depois os fãs d’Ele, seus leitores. Nesse tempo inteiro a agonia cresce em relação ao claro egoísmo d’Ele que sempre tem uma forma de anular Mãe, torná-la sempre num item secundário. O egoísmo do personagem de Bardem beira o ódio que o espectador pode ir alimentando por ele no decorrer da projeção.

O casal ainda não tem filhos. É nesta hora que Mãe acusa Ele de algo bastante básico: como você quer um filho se não trepa comigo? Nessa cena, Ele avança sobre Mãe, a beija, mas o ato sexual não é mostrado, e é somente parcialmente insinuado. O que temos é uma transição luminosa para a cena em que Mãe acorda com a certeza de estar grávida, como se a luz que atravessa a janela do quarto tivesse revelado para ela esse fato. Ela tem certeza da sua gravidez. É nesse exato momento que Ele corre para escrever o poema. É bastante clara a metáfora: estava realizada a profecia da chegada do messias, era preciso agora dar cabo a isso por escrito, é o poder das escrituras que chancela o ato divino da criação. Ele enfim termina sua tão aguardada obra e ao mostrar para Mãe mais uma vez a frustra: ele já havia mostrado para sua editora o trabalho. Tudo isso — a frustração de Mãe, por exemplo — é bastante sutil no desenvolver-se da cena. Mais uma vez, a personagem de Lawrence é secundarizada, posta de lado no seu grau de importância.

O poema de Ele transforma-se num sucesso. Milhares de fãs ocupam a casa do casal. Tudo vira descontrole, cria-se o rito — as fotografias d’Ele que lembram a iconografia cristã, o seus escritos sendo venerados, a marca da tinta na testa, a necessidade de ter uma relíquia que tenha sido usada por Ele, entre tantos outros elementos simbólicos que figuram no signo da religião, para logo depois passar para o fundamentalismo, e para o caos. A metáfora do mundo em colapso, as divisões entre as pessoas que estão na casa, prisioneiros, guerras, mortes, o completo caos, enquanto Ele está ausente. Nessa sequência não há Ele, apenas Mãe. É a mensagem cifrada sobre a ausência divina. Ele surge apenas para supostamente salvar Mãe, que quer sair da casa e não consegue, Ele a traz ainda mais para dentro, para o seu escritório, local sagrado que não pode ser frequentado sem a sua companhia — aos leitores habituais do texto bíblico, a semelhança com a premissa do templo de Salomão, na área do Santíssimo, fica bastante clara — que é onde Mãe tem seu filho, um Cristo criança a quem ela se apega e não deixa Ele pegar no colo. Mãe pela primeira vez durante o filme se impõe. As pessoas que estão pela casa oferecem presentes — lembrando os presentes do três magos para Jesus. Mãe tenta resistir, mas Ele — que não dorme, igual deus, lembra? — consegue pegar a criança e mostrar ao mundo que ocupa a casa. É então que temos mais um símbolo explícito aí: as pessoas da casa matam o bebê, lamentam isso, mas ao mesmo tempo o canibalizam, numa mostra literal do que seria uma comunhão do corpo de Cristo. É a carne real que está sendo devorada. Mãe rebela-se contra isso e é espancada, xingada, chamada de puta — o que nos remete, de alguma forma, a Maria Madalena e seu escárnio. Ela não suporta mais sua condição e bota fogo na casa, sobrando apenas seu corpo queimado e Ele que está intacto — imortal, tal qual deus. É quando ela pergunta quem é ele, e Ele responde: Eu sou o que sou, numa referência a resposta de deus para Moisés no livro de Êxodo. Numa das suas várias demonstrações de egoísmo, Ele pergunta para Mãe se ela o ama, se ela pode sacrificar-se por esse amor. Ela aceita e entrega o coração a Ele, que o transforma num diamante capaz de ressuscitar a casa, onde surge uma bela mulher na cama que procura por seu marido ao lado e Ele não está. Retorna-se ao ciclo da criação.

O ponto de diálogo mais potente do filme com a audiência é a sensação de rai­va ao perceber o abandono que Ele relega a Mãe. Mesmo declarando sempre que a ama, que ela é sua Musa, sua Inspiração, ele a constantemente deixa só. A sensação de desamparo corre pelas veias de Mãe e também do público, que se identifica imediatamente com a protagonista e, de alguma forma, também anseia pelo rápido retorno d’Ele. Há certo alívio quando Ele chega em cena, mesmo sabendo que logo ele sumirá de novo. É como se Aronofsky estivesse dizendo que é assim também o Criador: ele é ausente, nos desampara, nos manipula para crer que o vale é a sua presença, mas o que realmente temos sempre é a sua ausência, e o seu inexplicável egoísmo. Mesmo quando Mãe, que acabara de parir seu filho, pede constantemente que Ele expulse a multidão que ocupa sua casa, a dura resposta que tem — num dos excelentes pontos da atuação de Bardem que, aliás, nunca deixa seu personagem perder a ternura, a complacência e nem transformar-se num vilão — é a: eu não quero que eles saiam! O que revela muito do caráter mesquinho do signo do Criador, dentro dos dispositivos simbólicos espalhados pelo filme.

As mensagens estão dispersas por todo o filme. É uma alegoria, tudo nele transmite e carrega uma forte carga simbólica. Não estamos lidando, ao assistir a película, com personagens e elementos que caminham de nenhum lugar para lugar nenhum. Tudo ali é um signo que traz em si uma possibilidade interpretativa. Não existe aleatoriedade no roteiro de Aronofsky. É o seu jeito de perguntar por que Ele nos abandonou.

A Mãe natureza

Outro caminho de interpretação é oferecido pelo próprio Aronofsky que em inúmeras entrevistas afirma que o filme se trata de uma metáfora da Mãe Natureza. Que é a relação entre a Mãe Natureza e o seu Criador. Não foge muito de uma leitura bíblica judaico-cristã — o diretor é de descendência judia — mas abre outros leques, ao apresentar o desamparo que a Mãe Natureza enfrenta diante do seu Criador pelas consequências que sofre ao ter sua casa invadida por sujeitos petulantes, provocadores — a cena da Ìpia, exemplifica isso muito bem — que não ouvem os pedidos da Mãe Natureza e nem seus sinais de uma futura — e literal — explosão.

Nesse caminho, o que vemos é a Terra entrando em colapso. As cenas em que a protagonista toca na casa e vê o que seria seu coração — que no percorrer do filme vai se transformando em cinza — explicita claramente a ligação orgânica que ela tem com aquele espaço. A casa é o seu local de segurança, seu porto seguro, de onde nunca consegue e nem pode sair — as semelhanças óbvias com “O Anjo Exterminador” de Buñuel são inevitáveis. E de repente, surge o elemento humano. Esse elemento totalmente intruso, discrepante da calma que era a casa antes da sua chegada.

O humano destrói, toma tudo que há na casa, fomenta guerras, promove o caos. Diversas cenas do longa exibem o que poderia ser lido como a loucura estimulada pelo fundamentalismo religioso, com seu cegos sacerdotes e seus ingênuos seguidores. No caos do mundo apresentado por Aronofsky não há salvação, apenas o caos. O Criador, ausente na maior parte das cenas caóticas, aparece somente para oferecer uma salvação que não salva: o seu filho compartilhado, comungado num ato canibal. Assim como o dilúvio — destruição pela água —, a saída oferecida, habilmente conduzida por Ele, é a destruição pelo fogo — o apocalipse — para destruir inteiramente a casa e os seus ocupantes, para retornar ao ciclo novamente; um ciclo sem possibilidade de encerramento.

Cartazes do filme “Mãe!” (2017), de Darren Aronofsky, com os atores Jennifer Lawrence e Javier Barden | Foto: Divulgação

O Criador e a Obra

Outra camada simbólica importante que o longa de Aronofsky levanta é uma alegoria da criação artística. Ele é um grande poeta, que sofre de um imenso bloqueio que o impede de criar seu novo poema, para o qual se isolou na tentativa de ter o ambiente adequado para a produção da sua nova obra. Não consegue avançar, todas as suas ideias parecem ser vazias de significado, de inspiração. Sua única companhia é Mãe, sua Musa resignada e humilde, que entrega-se completamente a um projeto que não é seu; que esforça-se constantemente em levantar uma casa inteira, parede por parede, para que o Artista/Poeta consiga criar.

Nessa alegoria o jogo da criação é que está em foco. O processo enlouquecido da criação. É incrível perceber o viço da obra de Aronofsky, por ela oferecer todos os elementos que permitem uma leitura ampla desse espectro interpretativo. Aqui, Mãe é a Ins­piração — ela é constantemente indicada dessa forma ao longo do filme — que é a força capaz de manter Ele crian­do. Ao mesmo tempo que é de su­ma importância, a Inspiração não é maior que o Criador. Ele deixa esse limite constantemente bem delimitado no decorrer do enredo. É ele que é im­por­tante ali, são as suas vontades que são necessárias de serem atendidas. O Criador sempre será egoísta, nunca atenderá aos domínios da Inspiração quando ela conflita com o seu ego. A Inspiração tem a única função de servi-lo.

É curioso a forma como Arono­fsky coloca isso no seu filme. A relação com a Inspiração começa amena, com o Criador entendendo o seu próprio blo­queio, apesar de sempre evitar falar so­bre ele — a cena em que conversa com o Homem e a Mulher, onde Mãe lembra que ele está escrevendo um poema, e Ele fecha o rosto, é um chave para compreender isso. O Artista, signo usado pelo diretor americano, não pode lidar com sua própria frustração. Mas ele precisa dar outra base para sua relação com a Inspiração, para que então surja sua Obra — é na cena em que Mãe o acusa de querer um filho mas sequer transa com ela que nos indica essa possibilidade de interpretação. Só quando a Inspiração gemina a cria do Artista que ele enfim consegue dar vazão ao seu processo criativo efetivamente.

Nesse momento que a Inspiração torna-se ainda menos visível — a expressão de frustração que tem ao saber que antes dela, a editora d’Ele já havia lido o seu aguardado poema é outro ponto que nos indica uma chave de leitura aqui. Cada vez mais em segundo plano, a Inspiração/Musa Inspiradora torna-se quase que obsoleta. A Obra já está feita. O Criador já está consagrado, sua horda de fãs ocupam seu templo, sua casa, a procura daquele que está acima deles, que pode criar uma Obra tão profunda, a ponto deles lhe devotarem toda a atenção. A Inspiração agora é somente uma mulher prenhe de si que não recebe mais valor de ninguém. Seu objetivo já foi alcançado. A Criação já veio ao mundo, foi comungada por todos, devorada por todos, metabolizada por todos. Parece não ter mais serventia. E entra em colapso ao constatar isso.

Assim como em todo processo ar­tístico, o Artista/Criador trava um duro relacionamento como sua Inspira­ção/Musa Inspiradora, consegue enfim dar forma a sua Criação e depois precisa partir para um novo ciclo, um novo processo do criar. É preciso exterminar com a Inspiração anterior para dar espaço para o novo. Para sua nova Inspiração no eterno caminho da criação artística. É hora de renovar o ciclo. Nesse ponto, também, a obra de Darren Aronofsky é poderosa.

Parte da crítica vaiou seu trabalho, parte do público riu do seu possível papel ridículo e vexaminoso. Outra parte ainda teve a peita de lhe chamar de pretensioso. Toda Criação é pretensiosa, encara a possibilidade de ser ridicularizada pelo público de seu tempo, enfrenta a chance de ser posta numa posição vexatória. Isso também faz parte do processo da Arte. O público destrincha a Criação do Artista/Cria­dor. O público pode dar conta de sua mensagem ou não, mas isso não mais lhe interessa. A sua missão foi concluída, é hora de encarar mais uma vez o mesmo processo, para criar outra Obra. Eis a sina do Criador: repetir o mesmo doloroso caminho, como Sísifo, em busca da Inspiração para o seu novo trabalho.

Sacrifício do feminino

Darren Aronofsky ao ser perguntado, numa de suas entrevistas, sobre os elementos que abrem uma leitura feminista de seu filme, responde que o que está retratado ali não é uma concordância da dominação masculina, é somente a afirmação da recorrência daquilo que acontece.

O personagem de Bardem é completamente manipulador. Recordo que na sessão em que assisti o filme, numa das diversas cenas de vai e vem, Ele aparece tentando tirar seu filho do colo de Mãe, uma das meninas que estava na sala disse: “Esse cara é um desgraçado mesmo!”. Existe uma identificação fortemente feminista no filme. Talvez isso não tenha integrado o escopo principal das intenções do diretor, mas depois de jogada ao mundo, cabe ao público encontrar possibilidades de interpretação.

As figuras femininas no longa são completamente subservientes. Mãe nunca é ouvida, sempre tem seus argumentos manipulados, é sempre posta de lado, sempre compreendida com um ser fragilizado — e é a que mais sofre no decorrer do filme e que mais tem que provar sua resistência (psicológica e física). É o masculino que é o centro da atenção ali. Eles que regem a ópera, mas elas que tocam os instrumentos. Aliás, somente elas conseguem tocar os instrumentos. Toda falha masculina é perdoada, é justificada, ou minimizada.

O feminino não tem o direito de impor-se — a cena de resistência da entrega da criança diz muito sobre isso. Não importa o que ela quer, ela não vai conseguir. É preciso submeter-se a vontade do homem. Todo o filme é atravessado por essa ideia. Ele é manipulador, conduz tudo para que seja feito sempre do seu jeito, ao mesmo tempo que está sempre dizendo que se preocupa com Mãe, o que parece não ser verdade para quem acompanha o que se passa durante a película.

É como se o filme fosse uma grande metáfora do domínio masculino que provoca um cenário caótico, mas que sempre encontra uma justificativa compreendida e aceita pelos seus iguais. Não há espaço para a contestação feminina. O que resta a elas é somente a aceitação, a submissão, e a obediência — representada na clássica figura de Maria, a mãe de Jesus, que é escolhida por deus, precisa obedecê-lo, sem qualquer dúvida de suas intenções, e vai sofrer a perda ignominiosa de seu filho, mas que precisa aceitar isso pois é a vontade d’Ele.

E esse ciclo não se fecha: o feminino vai ter que sacrificar-se para que o masculino possa viver. Mãe é o elemento simbólico que diz que é a mulher que precisa devotar-se para que o masculino possa dar continuidade a sua vida com cíclicas figuras do feminino, sem se esgotar.

Um grande alegorista

“Mãe!” é o sexto trabalho de Darren Aronofsky. Os caminhos que o diretor decidiu seguir trilham muito espertamente o jogo de Hollywood. Aronofsky é um diretor de grandes estúdios sem perder a mão numa linguagem blockbuster rasa. Consegue desenvolver um cinema inventivo, provocador e ousado dentro do jogo de um sistema que precisa de fórmulas rápidas e repetitivas que encham as salas e desenvolvam miríades e miríades de fãs.

Esse seu último trabalho ecoa muito do método e abordagem de alguns anteriores. Principalmente a metáfora bíblica do seu último, “Noé” de 2014 — um dos pontos baixos de sua obra —, que também evoca a imagem de um deus egoísta e contraditório. Há ecos também de “Cisne Negro” (2010), ao retratar o exaustivo processo artístico e a entrega total a um trabalho.

O grande trunfo desse seu último longa é poder aliar uma linguagem semiótica poderosa, carregada de simbolismo que transcende a qualquer leitura rápida. É Aronofsky numa das suas melhores performances. Executou tão bem o trabalho, que conseguiu tirar de uma atriz conhecida por trabalhos ruins uma atuação fabulosa e cuidadosíssima. Darren Aronofsky é aquilo que o atual cinema de grande escala do circuito mainstream precisa urgentemente: um contador de histórias. De grandes histórias. Mais do que isso: é um grande alegorista, um retratista fiel do caótica experiência contemporânea da humanidade.

Cético convicto, nesse seu “Mãe!” Aronofsky elabora uma dura crítica a figura do Criador, do deus judaico-cristão, do seu egoísmo, da sua figura contraditória, que precisa ter seu ego constantemente inflado para conseguir prosseguir vivo. Um filme que é um exercício semiótico, que se configura em diversas camadas e chaves de leitura. Uma obra que se desdobra se em várias. Está entre os melhores filmes do ano. É o tipo de trabalho, vindo de um grande estúdio, que não víamos brotar desde diretores do calibre de Kubrick. A catarse que é assistir ao seu trabalho é um ótimo indicador de que o cinema ainda respira, de que existem realizadores com ousadia o suficiente para tirar o expectador da sua confortável zona de obviedade. Aos detratores, fiquem tranquilos: o tempo saberá dizer bem onde “Mãe!” e Aronofsky ficarão guardados na história do cinema.

Ricardo Silva é graduando em Filosofia pela Universidade do Estado do Amapá (UEAP) e crítico de literatura e cinema.

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Excelente texto. Parabéns Ricardo Silva. Deus é um ególatra, que quer ser adorado o tempo todo.

A análise do filme ficou excelente, mas o filme em si é de uma falsa intelectualidade gritante. Quer parecer ser inteligente atingindo o maior público possível. Isso nunca deu certo, nem com o Woody Allen. Qualquer aluno secundarista entende o que está por trás da história. Mãe Natureza, Deus, Adão e Eva, Caim e Abel, náuseas! Aliás, se a Mãe Natureza existisse (talvez exista a tal da Gaia), ocupada em criar e extinguir criaturas a mais de 3 bilhões de anos, ela não estaria nem aí para o aparecimento e desaparecimento do homem. Enfim, fiquei satisfeito com a análise de… Leia mais

Deus é amor, Ele nos ama e esse filme é uma distorção desse fato ! Quanto mais voce se relaciona com Ele e conhece-o mais voce entende o amor dEle por nós !

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