A luz dos palcos é um mercado que ninguém vê

Diante o 1° Seminário de Iluminação Cênica de Goiás, nada mais pertinente que a questão: qual o valor do iluminador?

“A luz é um fenômeno muito sedutor, por oscilar entre o desvelar e o encobrir o campo maior das visualidades. Convidativa, no sentido de ser a responsável por grande parte da nossa interação com o mundo e tudo que é exterior através da visão. Mas, pelo mesmo motivo, é frequentemente naturalizada, o que provoca uma acomodação do olhar e pouca interrogação sobre a maneira pela qual nos afeta.”

Kleber Damaso

Seminário traz profissionais que entendem o boom que o mercado felizmente sofreu e pontua necessidades e realidades do oficio de um iluminador | Foto: Fernando Simon

Seminário traz profissionais que entendem o boom que o mercado felizmente sofreu e pontua necessidades e realidades do oficio de um iluminador | Foto: Fernando Simon

Yago Rodrigues Alvim

Quando tudo fica sem luz, ainda dá para ver o escuro. E, no escuro, afloram-se todos os sentimentos do antes: dos olhos, das janelas, das cortinas se abrirem e, então, há vida. Tudo claridade. É quase essa a sensação do silêncio que sobra quando nada se vê. Nos palcos, enquanto nenhum foco de luz reluz, os corpos ficam ébrios de élan. Ten­cionam-se, vivos, a preeminência do início, do primeiro ato, do primeiro gesto, da primeira fala, dos primeiros versos, da primeira estrofe.

Quando se estuda luz, diferente das aulinhas de física, aprende-se mais que as cores a que ela dá vida, aprende-se como brincar com elas. No teatro, em concertos, a iluminação é um dos elementos essenciais de composição cênica, enquanto cena. Muitos se esquecem de estudar luz.

Existe, nalgum livro por aí, que o próprio estudo é iluminar algo e ilumina-se apenas parte, nunca o todon e que o conhecimento tem esta compartimentação (se não falham os registros, é uma perspectiva ligada a Francis Bacon, o percussor da ciência moderna). Hoje, a ciência é vista num todo. Entremeiam-se sabedorias, modos de fazer. E, ainda que esta verdade norteie os dias atuais, muitas partes ainda precisam ser vistas, para serem valorizadas. E a profissão de iluminador é uma das partes que compõe a arte, que compõe o mercado de peças, concertos.

Outras cores

“A luz âmbar é ótima para ballet”, Amanda escutou certa vez, em um curso. Foi em Santa Catarina e era na voz da figurinista Rosa Magalhães. Amanda Marques é bailarina e viveu a graduação de designer de moda. Os dez anos de linóleo mostraram a ela outro detalhe: que a luz muitas vezes é “detalhe”.

E não só ela percebe isso. Para muitos, detalhe é palavra bonita, coisa afetiva, muitos dizem até que “Deus está nos detalhes”. E é. Talvez, até esteja. O pormenor é que o trabalho do iluminista é também de criador. “Ah, muitas vezes você só diz o que está pensando, o que tem de ideia para o técnico de luz e ele faz.” Existe a parte técnica, de quem executa — outro pormenor.

O outro que percebe tais coisas é Junior Oliveira. Ele é gancho deste texto, que deveria estar em pauta já há muito tempo. É que, além de uma jornada que começou lá em Trindade, onde nasceu, perambulou por Paraúna, onde viveu, e fez parada no Teatro Rio Vermelho. Como coordenador técnico, Júnior está pondo em prática uma ideia para lá de essencial: um debate, um seminário sobre iluminação cênica. É o primeiro em Goiás e por isso o nome “1° Seminário de Iluminação Cênica de Goiás”.

Começa no fim de março, dia 31, e vai até os primeiros passinhos de abril: dia 2. Acontece ali no Centro Cultural da Universidade Federal de Goiás (UFG), bem na Praça Universitária. Vale demais dar uma olhada nesta iniciativa com os ouvidos bem abertos. Com palestras e oficinas, Junior idealizou um projeto que abarque várias questões atentas ao boom que o mercado de iluminação felizmente sofreu, com a aparição de novas salas de teatros, mecanismos de incentivos culturais, expansões de festivais.

Faltam esses profissionais diante dessa nova demanda. A galerinha que embala o seminário (Paulo Lebrão, com um workshop Mesa Grand MA Light; Luiz Nobre com uma palestra sobre o mercado de trabalho brasileiro; Roberto Gil de Camargo sobre o conceito de iluminação cênica; Robson Rapoza e as novas tecnologias, bem como Ro­gério Wiltgen; Jorginho de Carvalho com um bate papo sobre a criação de um projeto de luz cênica, seja para teatro, dança e shows; e Kleber Damaso sobre a redução da iluminação enquanto recurso de cosmetização do corpo em cena) discute esse profissional.

Detalhes

— O mercado goiano tem dois lados. Um de shows e DVDs, que é muito ativo e produtivo; tem muito profissional capacitado, treinado; é um mercado show business, afinal tem o sertanejo e Goiás é um polo atrativo de muitos artistas. O outro é do teatro, cuja realidade é o inverso: são produções pequenas, muitas vezes amadoras, não em qualidade, mas em recurso, aparato, produção, que acabam afetando a qualidade. São poucos iluminadores capacitados de fato. E este mercado tem crescido, mas não saberia analisar se os profissionais estão se atualizando, se reciclando.

Os dois lados são específicos. Teatro e shows. Não tem troca. O que poderia ser um facilitador para gerar mais conhecimento, mais possibilidades técnicas de aplicação nos projetos. Mas são dois extremos. Um tem muitas possibilidades e outro poucas. “Eu espero que o seminário contribua com essa atualização, com essa troca”, diz Junior.

Na lida, a regulamentação, que categoriza iluminadores enquanto criadores, operadores e técnicos, fica para lá. Minguam os recursos; se esvaiem noutras essencialidades. E tudo fica no “ah, era mais ou menos essa a minha ideia de luz”. Como se não bastasse, esse é só outro pormenor. Existe a profissionalização que, aqui, vem da troca ou do jeito de buscar cursos fora, noutras cidades. Tem o preço do equipamento, tem o peso do equipamento, tem a falta de equipamento, de quem opera o equipamento e a falta dele.

Kleber Damaso, que abre o texto, não é técnico em iluminação, mas gosta muito da provocação de Howard Brandston, do livro “Apren­der a Ver”, que fala sobre a necessidade de se surpreender através da experiência do olhar, num exercício mais investigativo e menos passivo sobre as discursividades próprias desse campo perceptivo — narra ele.

Já a atriz Cynthia Borges divide seu ofício: “A luz permite a transição entre realidades e o iluminador precisa pulsar junto com o elenco, respirar junto do fenômeno que acontece ali, no momento”. E, enquanto tudo está compartimentado, o profissional e seu labor estão em foco, é preciso palpar, se atentar a todos pormenores para produzir, quiçá, conhecimento. E, assim então, que apaguem as luzes e seja possível ver claramente no escuro.

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