Livro reforça o pensamento cristão-ortodoxo num tempo de relativismo de valores

Os ortodoxos são a segunda maior denominação cristã do mundo, com mais de 250 milhões de fiéis

Pedro Sérgio dos Santos

Especial para o Jornal Opção

Uma nova linha editorial se apresenta aos interessados pela fé cristã na sua mais original tradição: a Ortodoxia.

A Arquidiocese Antioquina Ortodoxa de São Paulo, por intermédio do seu arcebispo dom Damaskinos Mansour, ciente da lacuna bibliográfica em português, e da necessidade de formação e informação de seus fiéis e outros interessados, criou a linha Editorial Igreja Antioquina. De imediato cinco livros foram apresentados ao público: “A Fé Ortodoxa” (Thomas Hopko), “Compreendendo a Liturgia Ortodoxa” (Michel Najim e T. Frazier), “Vinde a Mim as Criancinhas” (Jerzy Berkman Karenin) e o livro diário de “Orações”. Ainda um último mais denso, que comentaremos a seguir, “A Douutrina Cristã Ortodoxa”, de Jerzy B. Karenin.

Antes, porém, de adentrarmos a obra de Kerenin, faz-se necessário uma breve introdução à própria Ortodoxia. Desconhecida da maioria dos brasileiros, posto que os cristãos ortodoxos são minoria no país e no continente, a Igreja Católica Apostólica Ortodoxa adentrou nas Américas em 1794, com monges russos, através do Alaska, e posteriormente chegou ao Canadá e aos Estados Unidos, sendo que estes países possuem atualmente ortodoxos de várias jurisdições e patriarcados.

No Brasil, a Igreja Ortodoxa se faz presente desde o final do século 19 — quando imigrantes chegaram aos país. Inicialmente sírios e libaneses, depois, gregos, russos, ucranianos, e atualmente temos também a presença de ortodoxos sérvios, poloneses.

A Igreja Ortodoxa é o que se poderia chamar de “cristianismo de raiz”. Instituída por Jesus e expandida pelos apóstolos, teve nos séculos iniciais sua doutrina assentada nos Sete Concílios e se firmou em cinco patriarcados: Jerusalém, Alexandria, Antioquia, Constantinopla e Roma, até que, em 1054, Roma deixou a comunhão com os demais e se afirmou sozinha como Igreja no ocidente. Por sua vez a Igreja Ortodoxa avançou a partir do século 9 em campos de missão e evangelização no Leste Europeu, Rússia e Ásia. Dessa forma, enquanto minoria nas Américas, os ortodoxos são a segunda maior denominação cristã no mundo, uma vez que protestantes e evangélicos são diversos em inúmeras denominações. A Rússia, África, o Leste Europeu, Ásia e Oriente Médio apontam para uma somatória superior a 250 milhões de fiéis ortodoxos.

A Igreja Ortodoxa, estruturada desde seu início como uma “federação” de igrejas, cada uma com administração própria — tendo o  Santo Sínodo (colégio dos bispos) como autoridade maior, sobreviveu às guerras e perseguições históricas  na antiguidade, na idade média, na modernidade e mais recentemente sobreviveu a perseguição do comunismo na União Soviética, e em todo o Leste Europeu, quando foram martirizados, sob a batuta leninista/stalinista, mais fiéis cristãos do que na perseguição promovida pelo Império Romano. No século 21, nova perseguição recai sobre os ortodoxos no Oriente Médio, dessa vez oriunda de extremistas islâmicos, levando a morte, o sequestro, o desaparecimento, a perseguição e a expropriação forçada de bens de milhares de famílias cristãs-ortodoxas naquelas localidades e na África islâmica.

Mas a Igreja sobrevive e mantém viva sua fé e doutrina, por isso mesmo, se denomina Ortodoxa (palavra de origem grega que quer dizer ‘ortos” = reta; “doxa” = doutrina). A igreja ortodoxa mantém viva a sua liturgia, sua tradição apostólica e sua capacidade e necessidade missionária fundada nas Escrituras, particularmente no novo testamento, anunciando sempre o Kerigma (a ressurreição de Cristo e a salvação).

Damaskinos Mansour, arcebispo metropolitano de São Paulo | Foto: Reprodução

Nasce assim a obra do padre Karenin — que agora é novamente publicada no Brasil: “Doutrina Cristã Ortodoxa”. Tendo sido secretário do arcebispo Ortodoxo de Varsóvia, na Polônia, durante do período da Segunda Guerra Mundial, padre Karenin viu os horrores do conflito atingirem também a Igreja e muitos que estavam próximos a ele desapareceram nos campos de concentração e extermínio implantados pelo nazismo de Adolf Hitler. O livro agora é reeditado aponta de forma catequética os fundamentos da fé cristã-ortodoxa sem perder de vista esse contexto de seu nascimento e crescimento.

Dividido em três partes (a fé cristã ortodoxa, a esperança cristã e o amor cristão), o livro, com 459 páginas, esclarece ao leitor sobre fundamentos e detalhes da ortodoxia. Reafirma e esclarece aspectos necessários do credo ortodoxo e dos sete Concílios com larga fundamentação bíblica. No mais a obra deixa importantes orientações de caráter espiritual e de práticas cotidianas da vida cristã-ortodoxa, que são bastante úteis diante enfrentamento que tem o cristão-ortodoxo contra o relativismo de valores, confrontos ideológicos e contra os elementos daquilo que a sociedade hodierna passou a denominar de “politicamente correto”. A doutrina ortodoxa não tergiversa, posto que para ela não existem verdades, ou caminhos, existe a única verdade, o único caminho: “Disse-lhe Jesus: Eu sou o caminho, e a verdade e a vida” ( Evangelho de João. Cap. 14).

Pedro Sergio dos Santos, cristão-ortodoxo, é advogado, escritor e professor da Universidade Federal de Goiás.

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