Livro do engenheiro florestal Peter Wohlleben tem um quê de falacioso, se confrontado com a ciência

Obra é respaldada por alguns cientistas proeminentes, mas fica-se com a impressão de que se trata de uma concessão à boa intenção do autor. Em tempos de Donald Trump e de sua teoria do localismo dos efeitos ambientais, todo chamamento ao bom senso é bem-vindo

Peter Wohlleben, engenheiro florestal, especula sobre a “vida secreta” das árvores | Foto: Divulgação

Nilson Jaime
Especial para o Jornal Opção

Durante duas décadas o engenheiro florestal alemão Peter Wohlleben (Bonn, 1964), dedicou-se ao cultivo de florestas para a produção de madeira, em seu país natal. No livro “A vida secreta das árvores: o que elas sentem e como se comunicam” (Sextante, 2017, 224 páginas, tradução de Petê Rissatti), com um milhão de exemplares vendidos, Wohlleben relata como se deu sua passagem de produtor de carvalhos, faias, pinheiros e abetos, a defensor intransigente das árvores.

O autor conta que, durante alguns anos, organizou excursões e treinamentos de sobrevivência na floresta, além de administrar funerais naturais – onde as cinzas do corpo humano são sepultadas em caixões biodegradáveis –, aos pés das árvores. Ouvindo alguns turistas, e observando seu ambiente de trabalho, passou a enxergar as florestas de outra forma. As árvores retorcidas, outrora desprezadas, ante o padrão desejável estabelecido pelas madeireiras, ganhou novo valor, na visão do engenheiro.

O livro é dividido em 36 pequenos capítulos. Em linguagem simples e acessível ao leigo, o autor traduz para o leitor sua visão sobre o universo das árvores. Uma parte é conhecida da ciência, porém desconhecida da maioria das pessoas. A outra é empírica, obtida a partir de observações e conclusões do próprio autor e carente de comprovação científica. Ao estilo do entomologista e naturalista francês Jean-Henri Fabre (1823-1915), utiliza-se de linguagem e exemplos práticos que cativam o leitor. Para Wohlleben, o mundo das árvores é algo mágico, oculto, quase esotérico. Seus exemplos atribuem às árvores características para-humanas: inteligência, vontade, determinação, solidariedade, compaixão, medo e responsabilidade social. Assim, nessas conclusões inusitadas, que surpreendem o leitor a cada capítulo, residem também a maior deficiência do livro: a falta de lastro científico para muitas das conclusões do autor. Suas afirmações são corroboradas apenas por “sites” da web e não por livros ou artigos científicos. E a maioria deles em alemão, que não é a língua padrão do meio científico.

Já no primeiro capítulo Wohlle­ben sugere que as árvores possuem tal nível de inter-relacionamento que são capazes de compreenderem-se umas às outras. As plantas poderiam, por exemplo, nutrir outras cuja copa tenha sido decepada, mantendo-a viva. Formariam, por meio de suas raízes, o que é conhecido na biologia como “superorganismo”, semelhante ao que ocorre com algumas espécies de formigas. No caso desses himenópteros, constatou-se que a similaridade genética entre indivíduos de vários formigueiros é tal, que as diferentes colônias são consideradas como células de um superorganismo, onde cada formigueiro se equivaleria a uma célula desse organismo. Há casos de super colônias que se espalham por toda a Europa mediterrânea, sendo comprovado tratar-se de milhares de colônias de um mesmo formigueiro. Da mesma forma, Wohlleben sugere que uma floresta deve ser entendida, também, como um só organismo, onde cada árvore corresponderia a uma célula desse superorganismo.

Há muito se sabe que as plantas produzem hormônios para suas funções vitais, como indução da germinação, crescimento, dormência, floração, frutificação, maturação e queda dos frutos. Tudo isso foi obtido durante seu processo evolutivo e, muitas vezes, de co-evolução com outros seres, sejam fungos, bactérias, animais ou vegetais. O autor utiliza-se dessas características congênitas, naturais da fisiologia da planta, para insinuar que são “reações” a estímulos externos, fruto da “decisão” do vegetal. Isso soa estranho ao mundo científico – botânicos, agrônomos, engenheiro florestais, e outros – já que não há evidências de que essa “deliberação” do vegetal seja factível.

Wohlleben faz menção à linguagem das árvores, que se dá pela liberação de aromas, hormônios, toxinas, cores, taninos e outras substâncias fabricadas por ela e secretadas por suas glândulas, folhas e flores. Como um dos exemplos, cita o caso da “Acacia tortilis”, na savana africana, que “bombeia toxinas para as folhas”, ao ser devorada por girafas, de forma a tornar o gosto das folhas desagradável. As girafas então se afastariam, só comendo folhas a mais de 100 metros da planta atacada, onde as outras da mesma espécie não foram ainda “avisadas”. O autor esclarece que a substância liberada é o gás etileno. De fato, na natureza há incontáveis casos de substâncias de alerta, sejam químicos, táteis, ou por outra forma. A questão é que o engenheiro alemão insinua que a planta “deliberou” emitir o alerta. Contudo, essa liberação não se dá por “decisão”, mas por simples reação congênita ao estímulo externo. As plantas nascem com essa característica.

Ainda no plano da linguagem dos vegetais, o autor diz que olmos e pinheiros, ao se verem atacados por lagartas, “apelam” para as vespas, que fazem a oviposição dentro do corpo desses insetos em fase jovem, livrando as árvores das pragas. Para o autor, “As árvores se livram de pragas inconvenientes, e podem continuar crescendo livremente”. De fato, a natureza é pródiga em casos de parasitismo entre lagartas e vespas (ver “Introducción a los Hymenoptera de la Región Neotropical’, Fernández & Sharkey, Universidade Nacional de Colombia: 2006, 893 páginas. Também “Entomologia Agrícola”, Gallo et. al., 1978 e “Estudos dos Insetos”, Triplehorn & Johnson, 2011). Entretanto, o parasitismo utilizado no exemplo não livra as árvores das lagartas. Esse é um típico caso de co-evolução, onde a árvore, a lagarta e seu parasita (a vespa), sobrevivem e suas populações se equilibram. Para a preservação das futuras gerações da vespa, a lagarta tem que sobreviver na natureza. Também, ao contrário do que diz o autor, a vespa não precisa ser “avisada” pela planta sobre a presença da lagarta. É de sua natureza encontrar as lagartas para ovipositar em seu interior, reproduzir e perpetuar seus genes.

Peter Wohlleben credita às árvores certo grau de sociabilidade e solidariedade, já que para ele as plantas são capazes de “entender” as necessidades das outras e se desdobrarem para providenciar o socorro às mais débeis. A Botânica e a Agronomia reconhecem a existência de plantas alelopáticas, antagônicas e companheiras. A alelopatia, originalmente, foi conceituada como qualquer efeito causado por um organismo sobre o outro através da liberação de substâncias químicas, produzidas pelo próprio organismo, no meio ambiente, favorecendo ou desfavorecendo outras formas de vida. Posteriormente, constatou-se que o termo é inadequado para o favorecimento, pois “pathós”, do grego, é utilizado para designar doença, um fator negativo. As plantas alelopáticas são, então, as que secretam substâncias que inibem o desenvolvimento de outras plantas específicas. Assim, é sabido que determinadas plantas se desenvolvem melhor se estiverem próximas de outras, as “companheiras”, e têm mais dificuldade de se desenvolver se estiveram nas imediações de plantas ditas antagônicas ou alelopáticas.

A questão é que o autor atribui às árvores sentimentos humanos, como emoção, compaixão e capacidade de decisão. Não há provas científicas de que isso não exista. Entretanto, o senso comum – e a ciência –, aponta em outra direção. Para ele, as árvores são capazes de providenciar recursos para outras árvores mais fracas de uma floresta. Cita o caso do anelamento, técnica muito utilizada na Silvicultura, uma disciplina da Agronomia e da Engenharia Florestal. Por esse procedimento, retira-se um anel (Anel de Malpighi), de largura variável, da casca da árvore. O objetivo é fazer cessar a circulação de seiva elaborada das folhas para a raiz, matando a árvore, após algum tempo. O autor cita casos de plantas que sobreviveram ao anelamento, após vários meses da dendro-cirurgia. Atribui isso à “ajuda” das árvores vizinhas, que a alimentariam através de translocação solidária, pelas raízes. Afirma que muitas conseguiram até recuperar a casca retirada, fazendo crescer uma nova. O autor se esqueceu de dizer que isso é um fato relativamente comum na silvicultura. Como agrônomo, já vi muitas plantas recomporem a casca e o floema (vasos por onde circulam a seiva elaborada, ou açúcares), após o anelamento, mesmo estando isoladas. Recentemente vi no Estado do Tocantins uma árvore assim, que se encontra viva, após dois anos de anelamento, sem árvores por perto.

Embora não utilize termos técnicos e conceituação científica – tornando o livro mais literário e explicando, em parte, sua boa aceitação junto ao público – o autor apresenta muitas das características reconhecidas das árvores. Mais uma vez, todavia, Wohlleben atribui poder de decisão aos vegetais: “As árvores frondosas buscam outra estratégia. Elas entram em sincronia e ‘decidem’ se vão florescer na primavera seguinte ou esperar mais um ou dois anos”. As árvores de Wohlleben, como se vê, são capazes de conceber estratégias e decidir quando florescer. O autor apresenta exemplos de “entomofilia” (fertilização através dos insetos) e de “anemofilia” (fertilização pelo vento), mas para ele é como se as plantas fossem sujeito ativo do fenômeno de fertilização e não elemento neutro de um processo evolutivo natural.

O antropomorfismo do autor chega ao limite de atribuir às árvores adultas a faculdade de “educar” as mais jovens, limitando a luz solar sobre as plântulas e rebentos, a fim de propiciar um crescimento lento e constante e consequente vida longa. Assim, para Wohlleben, as árvores têm instinto maternal e são pedagogas natas. A isso se segue a etiqueta, ou boas maneiras; simbiose com os fungos (isso é um fato, porém no universo mágico do autor, há uma escolha deliberada, e não um processo evolutivo de adaptação); senilidade e morte.

O autor de “A vida secreta das árvores” fala da translocação de água e seiva, fotossíntese, respiração, sequestro de carbono, purificação do ar ambiente, transpiração e formação de nuvens, equilíbrio ambiental, biodiversidade, estações do ano, hibernação e sobre vários outros temas atuais, caros à ecologia e ao nosso planeta. Entretanto, fica-se com a impressão – o leitor mais experimentado –, que há um misto de verdades e suposições. Muitas das conclusões do autor carecem de fundamento científico. Isso não se deve, certamente, à imperícia do estudioso, grande conhecedor das árvores, mas à sua opção por atribuir sentimentos às plantas.

O grande mérito de “A vida secreta das árvores” é apresentar noções de botânica, silvicultura e dendrologia com uma linguagem lúdica e de fácil compreensão. Assim como o novelista inglês C. S. Lewis (1898-1963) utilizou elementos transcendentais e místicos para transmitir conceitos do cristianismo; e Bernard Werber (Toulouse, França, 1961) em sua excelente trilogia “O império das formigas” (“As formigas”, “O dia das formigas”, “A revolução das formigas” – Bertand Brasil, 2008) usou a antropomorfia para dar vida a esses insetos e, assim, revelar a biologia das formigas, Wohlleben deu vida às árvores para descortinar sua botânica e fisiologia. A diferença é que, ao contrário dos livros do inglês e do francês, em que se sabe, tratar-se de um misto de realidade e ficção, no caso do alemão isso não fica claro. O leitor do livro tem a impressão de que se trata de verdade pura e cristalina, comprovada pela ciência.

Outra virtude desse livro é a sua capacidade de sensibilizar o leitor, induzindo-o a ser mais atento e cuidadoso com um ser vivo imprescindível para a vida do planeta: a árvore. Quando professor de Tecnologia de Produtos de Origem Vegetal (TPVO), na Escola de Agronomia da UFG – e também em treze anos como consultor de segurança de alimentos do Sebrae-GO – utilizei esse mesmo fundamento nas aulas e treinamentos. Dizia aos meus alunos que “Um tomate, ou uma manga no supermercado, ou na fruteira, é um ser vivo, que respira, transpira e passa por transformações físicas e químicas, como mudança de textura, aroma, cor e sabor. Portanto, merece respeito”. Assim, transmitia a ideia básica, aos futuros engenheiros agrônomos, engenheiros de alimentos, nutricionistas e ouvintes, sobre os cuidados com os frutos, a fim de evitar que fossem manuseados de forma inadequada, o que comprometeria a qualidade da matéria prima na indústria.

É possível que a antropomorfização das árvores por Peter Wohlleben tenha esse objetivo: sensibilizar o leitor para as funções vitais que essas plantas exercem no planeta Terra. A linguagem quase mística e a árvore dotada de vontade, poder de decisão e sentimentos humanos, apontam para a mitológica “árvore da vida” ou “árvore do conhecimento do bem e do mal” – da Bíblia –, ou acenam para árvores pictóricas de muitas culturas e religiões animistas e panteístas. Contrariamente ao cristianismo e às outras religiões monoteístas, onde o homem é o senhor da natureza por desígnio divino e, portanto, desobrigado de cuidar da natureza (árvore), no panteísmo o homem se confunde com a árvore, devendo cuidar dela como de si mesmo. A “humanização” da árvore resgata um componente mágico, caro ao homem, a percepção de que ela é um semelhante a ser valorizado.

“A vida secreta das árvores” tem um quê de falacioso, se confrontado com a ciência. Os fenômenos descritos são verdadeiros, porém as causas aventadas nem sempre têm comprovação científica. A obra é respaldada por alguns cientistas proeminentes, mas fica-se com a impressão de que se trata de uma concessão à boa intenção do autor. Em tempos de Donald Trump e de sua teoria do localismo dos efeitos ambientais, todo chamamento ao bom senso é bem-vindo. E isso o autor faz com eficiência. Ao descortinar um mundo vivo e fascinante, conquista a empatia do leitor. Enfim, o livro de Peter Wohlleben é instrutivo e revelador, porém não esclarecedor. O público aprovou. Os mais de um milhão de livros vendidos mostram isso.

Nilson Jaime é engenheiro agrônomo, mestre e doutor em agronomia.

Foto: Reprodução

A vida secreta das árvores: o que elas sentem e como se comunicam
Autor: Peter Wohlleben
Editora: Sextante
Tradução: Petê Rissatti
Páginas: 224
Ano: 2017

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