Livro desvenda as falhas da inteligência americana em deter o maior atentado terrorista da história

Obra de repórter-investigativo do “New York Times” mostra como a Casa Branca, a CIA e o FBI não conseguiram impedir os ataques da organização terrorista de Osama Bin Laden contra alvos nos Estados Unidos

No maior ataque terrorista da história, aviões foram lançados contra o World Trade Center, em Nova York | Foto: Reprodução de TV

No maior ataque terrorista da história, aviões foram lançados contra o World Trade Center, em Nova York | Foto: Reprodução de TV

Frederico Vitor

O livro “A Comissão — A História Sem Cen­sura da Investigação sobre o 11 de Setem­bro”, do repórter-investigativo do “New York Times” Philip Shenon, revela fatos surpreendentes acerca de uma série de situações que poderia ter evitado o maior atentado terrorista da história: os ataques às torres gê­meas em Nova York e ao Pentá­gono em Washington, EUA. Na manhã da terça-feira, 11 de se­tembro de 2001, células da rede terrorista Al-Qaeda — financiada e liderada pelo extremista saudita Osama Bin Laden —, sequestraram quatro aviões em pleno espa­ço aéreo americano.

Duas das aeronaves sequestradas mergulharam contra o World Trade Center, e uma terceira em direção à sede das forças armadas na capital americana. O quarto avião caiu numa mata no interior do Estado da Pensilvânia antes de atingir seu alvo, possivelmente a Casa Branca.

A obra de 532 páginas esclarece muitas situações que permitiram os ataques, como as falhas da monumental estrutura de inteligência dos Estados Unidos, que não conseguiu impedir que os agentes de Bin Laden agissem espetacularmente dentro do território americano.

Repórter Philip Shenon lança luz sobre os fatos pré-evento 11 de Setembro | Foto: Reprodução

Repórter Philip Shenon lança luz sobre os fatos pré-evento 11 de Setembro | Foto: Reprodução

O livro mostra que a CIA, o FBI e o Conselho de Segurança da Casa Branca não obtiveram sucesso em convencer tanto o presidente George W. Bush (2001-2009) quanto seu antecessor Bill Clinton (1993-2001) de que a Al-Qaeda era uma ameaça real à integridade americana e que Osama Bin Laden e seus seguidores; em atuação dentro do território americano; deveriam ser contidos. O título do livro se refere à comissão que foi criada pelo Congresso americano — em inglês Commission 9/11 Report — liderada por cinco congressistas republicanos e cinco democratas. Na totalidade, um grupo de cerca de 80 pessoas foi reunido durante um ano após os ataques e trabalhou por mais dois até chegar às conclusões mais completas sobre o evento.

A Comissão 11/9 iniciou oficialmente seus trabalhos no dia 24 de setembro de 2002; portanto, mais de um ano depois dos ataques que penetraram os sistemas de defesa da nação mais poderosa do mundo. Sua criação foi fortemente defendida pelas famílias das vítimas dos ataques, e ganhou impulso quando o presidente disse apoiá-la, mesmo que anteriormente tivesse afirmado que uma comissão independente poderia vazar informações de inteligência e revelar a identidade de agentes.

Despreparo

Entre as principais oportunidades perdidas que poderiam ter evitado o atentado, o trabalho de Philip Shenon aponta: a falta de controle na entrada de terroristas nos Estados Unidos e a ausência de alerta após a prisão de um deles que se dizia interessado em aprender a pilotar aviões de grande porte e que, mais tarde descobriu-se, serviriam de arma em atentados. Os serviços de inteligência não compartilhavam informações e ignoraram pistas importantes sobre extremistas que se movimentavam em solo americano, mesmo com o conhecimento por parte dos dois maiores órgãos de informação. O governo simplesmente não foi ativo o suficiente no combate à ameaça terrorista, antes de 11 de setembro.

Os primeiros capítulos são reveladores, principalmente no que se refere à figura de Henry Kissinger — ex-secretário de Estado dos EUA. Indicado para ser o executivo da Comissão a pedido da própria Casa Branca, o ex-conselheiro para a política estrangeira dos EUA pediu demissão em função da pressão das “Garotas de Jersey” — como ficou conhecido o grupo de mães, irmãs e esposas de vítimas do World Trade Center. Elas exigiam o fim da confidencialidade dos clientes de sua empresa de consultoria, pois desconfiavam que ele poderia ser um homem posto ali pela Casa Branca para blindar a administração Bush.

Havia também fortes suspeitas de que alguns clientes de Kissinger eram da Arábia Saudita; mais: talvez a própria família de Bin Laden, um clã bilionário e influente do reino árabe. Em uma reunião em seu próprio escritório localizado no 26º andar de um edifício de vidro e aço da Park Avenue, em Manhattan, Nova York, as parentes de vítimas dos atentados perguntaram a Kissinger se sua empresa de consultoria — Kissinger Associates — tinha clientes sauditas.

Para tal indagação as “Garotas de Jersey” nunca receberam uma resposta, apenas o silêncio. Have­ria um grande conflito de interesses e isso poderia até mesmo comprometer o presidente Bush, cuja família teria negócios no ramo de petróleo na Arábia Saudita, incluindo a família real daquele país. Um dia após o encontro, o ex-conselheiro para a política estrangeira de todos os presidentes dos Estados Unidos, de Eisenhower a Gerald Ford, pediu demissão da Comissão, antes mesmo que ela começasse oficialmente seus trabalhos.

Na Casa Branca, a saída do antigo secretário de Estado soou mal. Andy Card, chefe de equipe de Bush, leu a carta de demissão de duas páginas ao presidente no salão oval, que a ouviu com desagrado e raiva. Kissinger argumentou que jamais colocou os interesses pessoais acima de seu país e que a questão da divulgação da lista de clientes iria prejudicar a firma de consultoria que tinha criado. “Liquidá-la não poderia ser feito sem retardar o início das investigações”, disse na carta ao presidente. Card diria que Kissinger tinha uma rede de envolvimentos em que, provavelmente, a Casa Branca não gostaria de esbarrar.

FBI sabia da existência de terroristas em território americano

Diretor do FBI, Robert Swan Mueller III, se empenhou em proteger a agência | Foto: Christopher Bollyn

Diretor do FBI, Robert Swan Mueller III, se empenhou em proteger a agência | Foto: Christopher Bollyn

Uma questão que Philip Shenon deixa claro em seu livro é que houve sérias falhas no aparato da inteligência americana em relação ao 11 de setembro. A Comissão descobriu que agentes do FBI (sigla em inglês para Agência Federal de Inves­tigações), baseados no Estado de Minnesota, tinham solicitado, em agosto de 2001, junto à sede da agência em Washington, um mandado de segurança para inspecionar o laptop de Zacarias Moussaoui, um radical muçulmano francês de ascendência marroquina.

O extremista foi preso numa escola de aviação em Minneapolis por questões de imigração, após alarmar instrutores dali com suas solicitações estranhas de aprender a decolar e pousar um avião jumbo (Boeing 747), mesmo não tendo nenhum conhecimento básico de voo. Mais adiante, ficou comprovado que ele tinha pressa em saber pilotar grandes aeronaves, justamente para executar um atentado terrorista suicida contra a Casa Branca.

Ao contrário de Mous­saoui, os outros quatro integrantes da Al-Qaeda, Mohamed Atta (se­questrador do voo 11 da American Airlines, que chocou contra a Torre Norte do World Trade Center em Nova York), Marwan al-Shehhi (voo 175 da United Airlines que atingiu a Torre Sul), Ziad Jarrah (voo 93 da United Airlines que caiu em um campo aberto na Pensil­vânia) e Hani Hanjour (voo 77 da American Air­lines que acertou o Pentágono), já haviam completado seus treinamentos.

Ocorreu que, estranhamente, a solicitação de investigar o notebook de Moussaoui nunca havia chegado de fato à sede do FBI. Mais grave foi a descoberta de que a diretoria do órgão na capital americana só foi ter conhecimento da prisão do terrorista dias depois dos ataques de 11 de setembro.

Em julho de 2001, outro agente do FBI lotado em Phoenix, no Estado de Arizona, tinha alertado a sede do órgão para que fosse aberta imediatamente uma investigação sobre o fato de tantos jovens árabes, ligados a grupos radicais muçulmanos, estarem buscando treinamento em voos comerciais. Porém, o QG da agência nunca acatou a solicitação, apesar dos avisos.

Abrigo a terroristas

Outro fato que estarreceu a Comissão 11/9 foi um informante do FBI dar abrigo a dois dos sequestradores do avião que caiu sobre o Pentágono. Um acontecimento espantoso que, durante semanas após os ataques, ninguém havia comunicado à sede do órgão, em Washington. Os terroristas Nawaf al-Hazmi e Khalid al-Mihdhar viveram por quase um ano abertamente no Sul da Califórnia, na cidade de San Diego. O nome, endereço e número de telefone residencial de Hazmi chegaram a constar na lista telefônica da cidade californiana.

Os extremistas buscaram treinamento de voo sem que a sede do FBI fosse informada. Só o fato de se encontrarem nos Estados Unidos já refletia o tipo mais básico de incompetência por parte das agências de espionagem e aplicação da lei da nação, uma vez que tanto Hazmi como Mihdhar haviam sido identificados como terroristas da Al-Qaeda antes de sua chegada ao país, em janeiro de 2000. No curso das investigações da Comissão, a CIA afirmou que havia alertado quase imediatamente o FBI sobre o fato de a dupla estar em território americano, embora não houvesse nenhum registro do órgão de inteligência interna para apoiar sua afirmação.

Suporte saudita

Um dos integrantes republicanos da Comissão 11/9, John Lehman — ex-conselheiro de Segurança Nacio­nal e secretário da Marinha durante a gestão do presidente Ronald Reagan (1981-1989) — se preocupava com a suposta ligação do governo da Arábia Saudita com a própria trama do 11 de Setembro. Foi  apurado que os terroristas Hazmi e Mihdhar, ao desembarcarem na Califórnia, receberam cheques assinados pela mulher do embaixador saudita em Washington, a princesa Haifa al-Faisal. Ela tinha um instituição que ajudava compatriotas em dificuldades financeiras nos Estados Unidos.

Lehman chegou a dizer durante os trabalhos da Comissão que era de conhecimento comum nos círculos de inteligência que o escritório de assuntos islâmicos da embaixada da Arábia Saudita na capital americana funcionava como “quinta coluna” no apoio a extremistas muçulmanos. Lehman não estava necessariamente sustentando que os funcionários de Riad — capital da Arábia Saudita — conheciam os detalhes do “11 de setembro”. Segundo ele, aqueles homens sabiam que Hazmi e Mihdha eram “caras maus” e que pretendiam causar danos aos Estados Unidos.

Fatores políticos contribuíram  para que uma cortina de fumaça se lançasse sobre o caso. A ideia de que sauditas mantinham ligações com a Al-Qaeda não soava bem na Casa Branca. Washington tinha Riad como um de seus principais aliados na região e vários interesses estavam em jogo entre os Estados Unidos e o reino da família Saud — clã real que governa com mão de ferro a Arábia Saudita. Os auxiliares de Bush estavam mais preocupados em encontrar uma ligação entre o Iraque e a organização terrorista de Bin Laden, a mínima que fosse. Naquela altura estava em curso a invasão do Iraque por tropas americanas e britânicas que anos depois derrubaria o ditador Saddam Hussein.

A queda do regime iraquiano foi motivada por informações coletadas pelo serviço de inteligência dos EUA — que mais adiante se comprovaram falsas — de que Bagdá estava desenvolvendo secretamente um projeto de proliferação de armas de destruição em massa, além de manter ligações com a Al-Qaeda.

A quase ruína do FBI

Após o levantamento de que o FBI esteve tão perto de evitar os ataques de 11 de setembro, havia um sentimento no Congresso americano e entre os integrantes da Comissão 11/9 de acabar com a polícia federal investigativa. Pela primeira vez, desde J. Edgar Hoover — patrono da instituição que foi seu chefe por 48 anos — cogitou-se criar um novo departamento doméstico de espionagem especializado em contraterrorismo, talvez uma ideia inspirada no MI-5 da Grã-Bretanha.

Os críticos acreditavam que o FBI era simplesmente incapaz de ser algo mais do que uma força de polícia federal. Certamente, segundo a Comissão 11/9, depois da fatídica data de 11 de setembro, o bureau havia provado que, como instituição, não tinha capacidade para lidar com uma força sinistra e sombria como a Al-Qaeda.

Tanto que a Comissão ouviu em 2004 a diretora-geral do MI-5, Eliza Manningham-Buller, uma aristocrata inglesa, filha de um visconde que foi lorde e chanceler da Grã-Bretanha na década de 1960. Em entrevista aos comissionados na sede da Comissão em Washington, ela pôs a desmantelar a ideia de que os Estados Unidos poderiam ter seu próprio MI-5. “Simplesmente não iria funcionar para vocês, pois os Estados Unidos são grandes demais”, disse ela.

Eliza Manningham-Buller argumentou que num País fisicamente pequeno como a Grã-Bretanha, com menos de um quarto da população dos Estados Unidos, era muito mais fácil para uma agência central de espionagem manter uma ligação próxima com os departamentos de polícia locais. Eliza Manningham-Buller lembrou aos comissionados que havia importantes diferenças de liberdades civis entre o Reino Unido e o país americano. “O nível de vigilância eletrônica exercida pelo MI-5 iria levantar severas questões constitucionais se os Estados Unidos tentassem realizar algo similar”, avaliou.

Um dos comissionados salientou o relativo sucesso que o MI-5 tivera lidando por meio de gerações com o Exército Republicano Irlandês (IRA — Irish Republican Army). “Por que esse sucesso não poderia ser repetido com os extremistas mulçumanos que poderiam estar infiltrados no seio da sociedade norte-americana”, indagou.

A resposta deixou espantada a maioria dos comissionados que assistiam a entrevista:

“Não é uma boa comparação”, explicou Eliza Manningham-Buller. Primeiro, os terroristas do IRA não eram suicidas. Segundo, eles não alvejavam deliberadamente mulheres e crianças. E terceiro, todo o IRA vinha de um só lugar; uma ilha, uma espécie de fazenda de caça (uma alusão à Irlanda do Norte, entendida pela Comissão como pejorativa). Ali, os agentes secretos britânicos podiam misturar-se muito mais facilmente e localizar, capturar ou matar os terroristas.

Durante todo o processo de investigação, o diretor do FBI, Robert Swan Mueller III, estava decidido a não deixar o órgão que comandava em maus lençóis devida as falhas ocorridas às vésperas dos ataques de 11 de setembro. Na realidade, ele se empenhou em atrasar, por diversas vezes, as solicitações de documentos sigilosos importantes para esclarecimentos de fatos, que eram pedidos pelos comissionados. Essa era sua tática de proteger o FBI de revelações desconcertantes.

CIA hesitou em capturar ou matar Bin Laden nos anos 90

Osama Bin Laden esteve na mira da CIA por duas ocasiões no deserto afegão | Foto: Reprodução de TV

Osama Bin Laden esteve na mira da CIA por duas ocasiões no deserto afegão | Foto: Reprodução de TV

Não só o FBI estava sujeito a constrangimentos públicos por incom­petência. A Comissão 11/9 evidenciou sérias falhas da CIA em alertar enfaticamente a Casa Branca sobre possíveis ataques da Al-Qaeda em solo americano. Em 11 de dezembro de 2003, foi entrevistado, privadamente, o primeiro diretor da unidade criada em 1996 para dedicar-se exclusivamente à rede terrorista responsável pelo “11 de Setembro”.

Michael Scheuer, diretor da Estação Alec, como era chamado o braço da CIA de combate à Al-Qaeda, revelou à Comissão que havia uma série de planos que, se fossem executados, possivelmente, poderiam resultar na morte ou captura de Bin Laden, ainda no final dos anos 90, ou seja, desde a gestão Bill Clinton.

Scheuer revelou sob juramento que, em 1997, a CIA tinha vasto material e informações sobre a organização terrorista de Bin Laden. Ele contou que a agência tinha a seu lado um desertor da Al-Qaeda que fornecia informações preciosas. O informante era Jamal Ahmed al-Fadl, um sudanês que havia sido um confiável tenente do líder terrorista em Car­tum, a capital do Sudão. Bin Laden viveu naquele país de 1991 a 1996. Fadl desertou para os Estados Unidos em 1996 com riqueza de informações sobre a Al-Qaeda, sua organização e seus planos.

Em dezembro de 1996, a Esta­ção Alec preparou um memorando de 50 páginas, baseado em informações de Fadl sobre os esforços de Bin Laden para adquirir armas de destruição em massa, inclusive um artefato nuclear. O desertor da Al-Qaeda impressionou a CIA com os detalhes de como Bin Laden havia conseguido cientistas e engenheiros que o ajudassem a obter urânio enriquecido para, então, convertê-lo em arma. Ao comunicar aos superiores sobre o plano maligno dos extremistas, a diretoria central da CIA pensou que era impossível que um grupo terrorista dispusesse de armas de destruição em massa, segundo relatado por Scheuer à Comissão.

O ex-diretor da Estação Alec disse que percebeu pela primeira vez que Bin Laden era um “homem perigoso”, depois de ler, em agosto de 1996, sua fatwa — declaração de guerra contra os Estados Unidos. O líder extremista condenava a família real saudita por ter permitido que soldados ianques estacionassem no seu reino durante a Guerra do Golfo (1990-1991), terra dos lugares mais sagrados do Islã, e convocava uma guerra muçulmana para expulsar os americanos “infiéis”.

Todos os alertas que davam conta do perigo iminente que era Bin Laden, porém, não impediram que ele agisse em dois grandes atentados na África, no final da década de 90. No dia 7 de agosto de 1998, as embaixadas americanas no Quênia e na Tanzânia foram explodidas pela Al-Qaeda, matando 224 pessoas, 12 delas americanas. Em resposta a esses atentados no Leste africano, o presidente Bill Clinton autorizou um ataque sobre alvos da Al-Qaeda no Sudão. Mísseis Tomahawk foram lançados contra alvos terroristas daquele país, a partir de navios de guerra no Mar Vermelho. Contudo, não foi comprovada a efetividade daqueles ataques.

O ex-diretor da Unidade Alec contou à Comissão 11/9 que vários planos de captura desenvolvidos por sua unidade teriam funcionado se a direção central da CIA autorizasse tais ações. O melhor dos planos, segundo Scheuer, foi desenvolvido em 1997 e 1998. Consistia em fazer com que líderes tribais do Afeganistão, que trabalhavam com a CIA, agarrassem ou matassem Bin Laden em um ataque noturno contra as Fazendas Tarnak, seu campo de treinamento perto de Kandahar — terceira maior cidade afegã.

Se Bin Laden tivesse sido capturado, as tribos o entregariam aos EUA. Por meio de satélites e outras fontes de inteligência, a CIA tinha boa ideia de onde o líder terrorista e suas mulheres dormiam à noite no acampamento. A operação chegou a ser revisada pelo Pentágono e foi dada como bem construída. Mas, por questões até então desconhecidas, a ação foi cancelada.

Houve outra possibilidade de tiro certo contra Bin Laden em fevereiro de 1999. Naquele mês, o terrorista foi localizado nos desertos do sul do Afeganistão, enquanto fazia visitas noturnas aos visitantes reais dos Emirados Árabes Unidos — país do Golfo Pérsico aliado dos EUA naquela região. Scheuer chegou a solicitar à CIA um ataque de mísseis contra a tenda que abrigava um príncipe que foi ao Afeganistão a bordo de um cargueiro C-130 Hércules da frota real, com o pretexto de caçar um pássaro migratório conhecido como bustard. Porém, o plano nunca chegou a ser executado. A Casa Branca considerou o ataque perigoso demais, pois a morte de um príncipe árabe poderia destruir as relações com os Emirados, o que danificaria seus laços no Golfo Pérsico.

George Tenet, diretor-geral da CIA, frustrou várias ações de seus agentes | Foto: Mark Wilson

George Tenet, diretor-geral da CIA, frustrou várias ações de seus agentes | Foto: Mark Wilson

Mais tarde, a Comissão 11/9 descobriu que ambos os planos foram impedidos pelo próprio diretor-geral da CIA, George Tenet. Ele esteve no comando da agência nas administrações Clinton e Bush. Scheuer chegou a confrontá-lo por saber que ele havia frustrado seus esquemas de eliminação de Bin Laden e acabou demitido do comando da Estação Alec. Como castigo, o agente da CIA que mais próximo esteve de exterminar ou capturar o terrorista, acabou transferido de volta à sede da agência, em Langley, no Estado da Virgínia. Ele acabou lotado em um cubículo na biblioteca da agência.

Em entrevista à Comissão 11/9, delegados da CIA disseram que a agência não havia sido autorizada a matar Bin Laden e seus seguidores. Pelo contrário. Eles recebiam um conjunto de confusas ordens presidenciais que permitiam a captura do líder terrorista, mas não sua morte. Na CIA, o senso comum era de que advogados exageradamente cautelosos da Casa Branca ou do Depar­tamento de Justiça ficavam desconfiados com qualquer coisa que se assemelhasse a uma ordem de assassinato.

Informes da inteligência aos presidentes eram vagos e inconsistentes

Comissão 11/9 descobriu que as sinopses diárias de inteligência dos líderes Bill Clinton e George Bush não os informavam adequadamente | Foto: Saul Loebsaul Loeb/AFP

Comissão 11/9 descobriu que as sinopses diárias de inteligência dos líderes Bill Clinton e George Bush não os informavam adequadamente | Foto: Saul Loebsaul Loeb/AFP

Se um jornal é julgado pelo número de seus leitores, o informe diário do presidente é o mais exclusivo do mundo. É, quase certamente, o de menor circulação. Cópias do PDB — sigla em inglês para Presi­dential Daily Briefing — são distribuídos pela CIA diariamente, exceto aos domingos, ao presidente, ao vice-presidente e aos seus secretários de Estado e de Defesa. Ele contém o que são consideradas as informações mais importantes e delicadas, reunidas de um dia para o outro pelas agências de espionagem do país.

Desde cedo ficou claro que a Comissão precisava ter acesso a todos os PDBs das administrações Clinton e Bush, principalmente aqueles que se referiam às ameaças terroristas da Al-Qaeda. Era a melhor maneira de aferir o que  Bill Clinton e George W. Bush sabiam antes de 11 de setembro sobre Osama Bin Laden e sua rede terrorista. Também era necessário levantar se os dois presidentes haviam sido corretamente servidos pela CIA e se haviam reagido responsavelmente ao que lhes era fornecido.

Depois de longo período de resistência da Casa Branca, em dezembro de 2003, Tom Kean, o ex-governador republicano de Nova Jersey e presidente da Comissão 11/9, que viria a substituir Henry Kissinger, teve acesso aos documentos mais altamente restritos do governo. “Eu pensava que aqueles seriam os segredos definitivos sobre a Al-Qaeda, e todas as outras coisas a respeito das quais o presidente devia agir”, disse Tom Kean.

Mas ele se descobriu horrorizado pelo que estava lendo. Havia apenas retalhos de informação nos PDBs sobre a Al-Qaeda e outros grupos terroristas. Ocasionalmente surgia algo intrigante, talvez um relato do avistamento de Bin Laden em algum lugar ou uma dica do Mossad, o serviço secreto de Israel, ou do MI-6 britânico. Na realidade, constatou-se que os informes não passavam de resenhas que repetiam o que já havia aparecido nas primeiras páginas do “New York Times” ou do “The Washington Post”.

A descoberta de Tom Kean poderia ser a mais apavorante de todas da Comissão 11/9. Os órgãos de espionagem estavam nus. Talvez a razão pela qual a Casa Branca lutara tão duramente para bloquear o acesso da Comissão 11/9 aos PDBs fosse porque eles revelavam o quanto o governo americano estava ignorante sobre as ameaças que enfrentava antes de 11 de setembro. O presidente da Comissão poderia compreender o medo deles, seriam as consequências se a Al-Qaeda e seus aliados terroristas soubessem quão pouco os EUA realmente sabiam a seu respeito.

Resposta a ataque contra navio de guerra teria retardado o 11/9

Destroier americano USS Cole foi bombardeado pela Al-Qaeda em um porto do Iêmen, país árabe do Golfo Pérsico | Foto: Reprodução/Site Naval History and Heritage Command

Destroier americano USS Cole foi bombardeado pela Al-Qaeda em um porto do Iêmen, país árabe do Golfo Pérsico | Foto: Reprodução/Site Naval History and Heritage Command

Em outubro de 2000, apenas 11 meses antes dos ataques do “11 de setembro”, a Al-Qaeda praticou um atentado a bomba contra um navio americano, o USS Cole, que estava ancorado no porto de Aden, no Iêmen. Curiosamente, mesmo informada que o destroier americano foi alvo de uma ação terrorista que resultou na morte de 17 marinheiros, o então presidente Bill Clinton não ansiou responder. À época, ele estava envolvido nas eleições presidenciais em que o candidato de seu partido, Al Gore, sairia derrotado. Quando George W. Bush e sua equipe ocuparam suas funções na Casa Branca três meses mais tarde, encararam o ataque à embarcação militar americana como notícia antiga, algo que aconteceu no turno de Clinton sendo, portanto, de interesse menor.

Ocorreu a muitos na Comissão 11/9 que uma resposta decidida ao episódio do atentado contra o navio americano poderia ter esvaziado, ou ao menos retardado, os ataques em 11 de setembro. Se Clinton ou Bush tivessem golpeado os acampamentos da Al-Qaeda no Afeganistão, transformando-os realmente em pó, e ordenado ao FBI e à CIA que começassem uma caçada humana para en­contrar Bin Laden e seus aliados, o líder extremista possivelmente poderia ter repensado suas ações. Pelo menos essa foi a avaliação da Comissão.

O grupo descobriu que, de acordo com os relatórios dos interrogatórios da CIA, o cérebro da operação, Khalid Sheikh Moha­mmed — capturado pela CIA em 2003, no Paquistão —, disse que Bin Laden poderia ter cancelado os ataques se tivesse conhecimento da prisão de Zacarias Moussaoui em agosto de 2001, em Minnesota. Mas tanto o líder da Al-Qaeda quanto o diretor da CIA não sabiam da prisão do terrorista até depois do atentado. Tudo levou a crer que a não resposta americana no caso do navio havia, de fato, atiçado Bin Laden a desfechar ataques maiores contra o World Trade Center e o Pentágono.

Os comissionados descobriram que ninguém do governo americano duvidava que fosse a Al-Qaeda a responsável pelas 17 mortes dos marinheiros americanos no Iêmen. Mas os neoconservadores da administração Bush estavam simplesmente ébrios por outros temas de segurança nacional, como defesa com mísseis, Iraque, Coreia do Norte, China e Rússia. Segundo a Comissão, o presidente Bush, sua chefa de De­par­tamento de Estado, Condoleezza Rice, o secretário de Defesa, Donald Rumsfeld, e o conselheiro Karl Rove tinham sua própria construção do mundo. Mas a Al-Qaeda não era parte de seus cenários de ameaças.

Nova York do prefeito Rudolph Giuliani não estava preparada para um ataque terrorista

Prefeito Rudolph Giuliani saiu como herói nos eventos de 11 de setembro | Foto: Win McNamee

Prefeito Rudolph Giuliani saiu como herói nos eventos de 11 de setembro | Foto: Win McNamee

Não havia dúvida de que o prefeito de Nova York, Rudolph Giuliani, havia se portado heroicamente na manhã de 11 de setembro de 2001. Enquanto o presidente dos Estados Unidos havia desaparecido nos céus a bordo do Air Force One — o avião presidencial americano —, foi o prefeito da maior cidade americana a face da calma e da coragem. Ele confortou uma cidade traumatizada pelo pior ataque terrorista da história.

Contudo, a Comissão 11/9 acreditava que o bravo desempenho de Rudolph Giuliani depois da tragédia não devia apagar os registros anteriores. A cidade havia sido prevenida durante anos para se preparar para um catastrófico ataque terrorista que poderia custar milhares de vidas. O aviso mais aterrorizante foi dado no dia 26 de fevereiro de 1993, quando uma bomba de meia tonelada escondida em uma van foi detonada em uma garagem no World Trade Center. Seis pessoas morreram, mais de mil ficaram feridas.

Rudolph Giuliani era obcecado com a criminalidade nas ruas, sendo conhecido mundialmente por implementar em Nova York o programa “Tolerância Zero” no combate ao crime. Mas, quando a Comissão 11/9 começou a examinar a história do ataque de 1993 e do que havia acontecido, os comissionados ficaram espantados ao descobrir o quão pouco a administração municipal havia feito para preparar a cidade, em especial os departamentos de polícia e os bombeiros, para o caso de os terroristas golpearem novamente.

Foi constatado que, em 11 de setembro, a confusão estava por toda parte. Os departamentos de polícia e os bombeiros estabeleceram centros de comando separados e tiveram dificuldade de falar um com o outro. Mais perturbador ainda foi o caso das redes de rádio de emergências básicas que funcionaram mal nas horas depois que os aviões chocaram contra as torres, e isso não deveria ter sido surpresa. No ataque a bomba de 1993, os bombeiros descobriram que seus rádios analógicos não funcionavam bem em edifícios de concreto e aço tão maciço. As radiofrequências usadas pela corporação eram pulverizadas.

Oito anos depois, os problemas de rádio ainda não haviam sido resolvidos. Os investigadores da Comissão estavam certos de que os rádios foram responsáveis pelas mortes de muitos dos 343 bombeiros perdidos no World Trade Center, em 11 de setembro. Como seus rádios não funcionavam, muitos bombeiros dentro das Torres Gêmeas não ouviram as ordens de evacuação até que fosse tarde demais para sair. Um sistema “repetidor” eletrônico que foi instalado no World Trade Center depois de 1993, especificamente para ampliar sinais de rádio em uma emergência, não foi ligado pelos chefes de combate ao fogo no Torre Norte na manhã dos atentados. Se o dispositivo tivesse sido ligado, apurou a Comissão, muitos bombeiros na torre certamente teriam suas vidas salvas, pois eles teriam sabido quando fugir.

A Comissão 11/9 ouviu publicamente Rudolph Giuliani em Nova York, assim como os comissários de polícia e bombeiros. Com uma plateia repleta de familiares das vítimas do atentado, os comissionados agiram combinadamente para fazer perguntas duras ao prefeito. Porém o tiro saiu pela culatra. Giuliani estava encoberto da áurea de herói nova-iorquino, mesmo dois anos depois dos ataques de 11 de setembro. Interrogá-lo publicamente com questionamentos ásperos não surtiu efeito. O prefeito saiu maior da entrevista da Comissão do que entrou. Mesmo assim, o relatório final da Comissão 11/9 incluiu as graves falhas da administração municipal de Rudolph Giuliani no que se refere ao preparo da cidade para lidar com crises provocadas pelo terrorismo.

Comissão descontruiu a tese de que o Iraque de Saddam Hussein tinha ligações com a Al-Qaeda

Saddan Hussein enxergava a Al-Qaeda como ameaça a seu regime | Foto: David Furst

Saddam Hussein enxergava a Al-Qaeda como ameaça a seu regime | Foto: David Furst

Em julho de 2004 a Comissão 11/9 descobriu que não existiam evidências de que o Iraque sob o regime de Saddam Hussein colaborava com a Al-Qaeda de Osama Bin Laden. Foi descoberto que relatórios da inteligência apontavam que um importante espião iraquiano fizera visitas ao santuário de Bin Laden no Sudão em meados de década de 1990. O líder extremista havia pedido ajuda do Iraque naquele período para estabelecer campos de treinamento terroristas no Iraque e obter armas.

Porém, a inteligência sugeria que o interesse de Bin Laden por Saddam Hussein permaneceu sem reciprocidade. O líder iraquiano de modo geral não respondeu às sondagens da Al-Qaeda. Os analistas do serviço secreto acreditavam que o ditador iraquiano encarava Bin Laden como uma ameaça ao seu próprio governo, já que o líder extremista fazia uma cruzada por uma derrubada do governo secular no mundo muçulmano que era o da Arábia Saudita, menos brutal do que o regime iraquiano.

A Comissão acreditou que havia desmascarado, de uma vez por todas, o amplamente divulgado relatório da inteligência sobre o chamado encontro de Praga. A Casa Branca sustentava que houve uma reunião na capital tcheca entre um espião sênior iraquiano e Mohammed Atta, o líder do grupo de 11 de setembro, em 9 de abril de 2001. O relatório havia sido distribuído pelo serviço de inteligência tcheco e abraçado pela administração George W. Bush, em especial do vice-presidente Dick Cheney, para sugerir uma ligação iraquiana ao 11 de setembro.

Porém, a equipe da Comissão 11/9 estava convencida de que o encontro de Praga nunca havia acontecido. Até mesmo a CIA e o FBI tinham chegado à mesma conclusão. O relatório tcheco estava baseado em um único testemunho, não corroborado. A conclusão de que uma das teses mais usadas para justificar a invasão do Iraque por tropas americanas e inglesas teve efeito devastador sobre a Casa Branca. Esse foi uma ameaça tão sinistra para as esperanças de reeleição de George W. Bush quanto qualquer outra que a Comissão viesse a colocar no final de sua investigação.

Em 2 de novembro de 2004 o presidente George W. Bush foi eleito para um segundo mandato, recebendo 51% dos votos contra 48% de John Kerry. Embora suas conclusões questionassem a justificativa da administração Bush para a guerra do Iraque, o relatório final da Comissão 11/9 nunca foi um tema importante no decurso da campanha. Pesquisas de opinião mostraram que um fator-chave na vitória do republicano foi o sentimento de ele foi o líder mais decidido em lidar com ameaças terroristas.

Relatório aponta que país estava despreparado para lidar com o terrorismo

“Em 11 de setembro de 2001, 19 homens armados com facas, estiletes e gás de pimenta penetraram os mais fortificados sistemas de defesa do mundo. Eles causaram traumas insuportáveis no­­­­­­ nosso povo e viraram a ordem internacional de cabeça para baixo.” Assim começa o texto de apresentação do relatório final da Comissão 11/98 que foi apresentado no final de 2004, no mesmo período da corrida eleitoral pela Casa Branca. Ao término dos trabalhos foram analisados 2,5 milhões de páginas de documentos e foram entrevistadas mais de 1.200 pessoas, entre especialistas e representantes do governo e instituições oficiais.

O documento completo foi publicado com mais de 450 páginas e abordava desde as origens do terrorismo contra os Estados Unidos até os mais completos detalhes que conseguiram reunir para entender como os atentados fo­ram planejados e realizados.

Entre as principais conclusões, os parlamentares envolvidos na comissão de investigação apontaram o despreparo do governo norte-americano para lidar com atentados daquela magnitude. Eles indicavam que o caminho para ter uma maior segurança passava por uma maior integração entre agentes de segurança e uma ação militar coordenada para minar a força dos terroristas.

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