Livro da “moça do tempo” do Jornal Nacional, Maju Coutinho, é um convite para “entrar no clima”

Há um veio poético praticamente em todos os capítulos. A autora cita o “vozeirão” de Tim Maia na música “Primavera”, ao falar desta estação, e faz trocadilho com “floridinha, mas ordinária”, para insinuar a primavera à Nelson Rodrigues

Maju Coutinho, jornalista da TV Globo | Foto: Divulgação

Nilson Jaime
Especial para o Jornal Opção

Impossível não “entrar no clima” quando a “moça do tempo” (e apresentadora-substituta do “Jornal Hoje”) Maria Júlia Cou­tinho, de 39 anos, a “Maju”, aparece na tela – anunciada pelo apresentador Willian Bonner como atração do “Jornal Nacional”, um dos programas de maior audiência da Globo e da televisão brasileira –, com seus vestidos e sapatos azuis, verdes, vermelhos, amarelos, rosas. Dona de uma fotografia impecável, do alto de seus 1,75m, a jornalista conquistou os telespectadores tanto por sua simpatia quanto por sua capacidade de traduzir o “meteorologês” para o grande público.

Ao escrever o livro “Entrando no Clima” (Editora Planeta, 191 páginas), “Maju” – que surpreende a todos por utilizar termos populares como “chuvica”, “chuvarada”, “chuviscada” “friozão” ou “abafamento”, dentre dezenas de outras “meteorologices”, algumas cri­adas por ela –, tenta reunir as informações necessárias para que o leitor compreenda os conceitos, o funcionamento e as oscilações do clima no planeta Terra.

Na apresentação “de orelha” do livro, o jornalista Chico Pinheiro lembra o episódio em que a autora, injuriada por racistas na internet, mas “fiel aos seus ancestrais, à ‘mama África’” e sabedora “da dor e a delícia de ser o que é” – citando Caetano Veloso – “invocou Oyá (ou Iansã), rainha dos ventos fortes, raios, e tempestades” para reagir a seus detratores e conquistar centenas de milhares de mensagens de solidariedade em todo o Brasil. A apresentação “interna” do livro é do meteorologista Gilvan Sampaio, mas a consultoria técnica – “Maju” o coloca como coautor – é do meteorologista Mauro Neutzling Lehn, complementado por dezenas de outros especialistas, listados nos agradecimentos.

Com esse time de profissionais do tempo, Maria Júlia Coutinho não foge dos termos técnicos, antes os traduz para uma linguagem compreensível. Nos dezesseis capítulos do livro apresenta, de forma didática, vários conceitos necessários ao bom entendimento do clima na Terra. Começa diferenciando meteorologia – em que a previsão é realizada para o curto prazo – de climatologia, quando os especialistas trabalham com períodos maiores, baseados em dados estatísticos e/ou algoritmos complexos. Numa linha do tempo, descreve os principais fatos relacionados ao clima, desde que Aristó­teles escreveu sua “Meteorológica” (350 a.C.), até a atualidade.

O “majuês” da jornalista se faz pre­sente em cada capítulo. Ao descrever a atmosfera, fala de um “so­pão” – uma mistura de gases – com todos os ingredientes para o florescimento da vida. Não obstante a competente consultoria de especialistas, “derrapa” ao discriminar as camadas da atmosfera – troposfera, estratosfera, estratopausa, mesosfera, mesopausa, termosfera, termopausa e exosfera – utilizando a frase “estende-se por até (…) quilômetros”, ao invés de “estende-se a até (…) quilômetros”. Assim, fica-se com a impressão que a mesosfera, por exemplo, “estende-se por até 85 km”, ou seja, que essa camada teria até 85 km, quando na verdade ela se inicia em 50 km (na estratopausa) e vai até 85 km. Portanto, não tem 85, mas apenas (no máximo) 35 km.

O livro tem seu veio poético, praticamente em todos os capítulos. A autora cita o “vozeirão” de Tim Maia na música “Primavera”, ao falar desta estação e faz trocadilho com “floridinha, mas ordinária”, para insinuar a primavera à Nelson Rodrigues. Da mesma forma, faz citação de trecho de “Águas de Março”, que fecham o verão de Tom Jobim, bem como de “Samba de Verão” de Marcos e Paulo Sérgio Valle. Nesse espírito, passeia nas “Cores vivas”, de Gilberto Gil; “Eu vou torcer”, de Jorge Benjor; “Perfeição”, de Dado Villa-Lobos, Marcelo Bonfá e Renato Russo; e termina com James Taylor: “In­ver­no, primavera, verão e outono. Tudo que você tem que fazer é chamar…”.

A cidade de Goiânia é citada – com direito a gráfico – na página 51, para ilustrar a correlação entre umidade do ar e temperatura. Os dados são sempre atuais. Assim, no dia 21 de julho de 2016, o dia começa (às 6 horas da manhã) com temperatura de 12 °C e umidade do ar em 85%. À Maju Coutinho, “o sol chegou despudorado” e a temperatura bateu 32,8 °C (umidade relativa do ar em 19%), às 15 horas. A “filha de Oyá” finaliza seu diagrama mostrando que a temperatura baixou pa­ra 26 °C às 19 horas, quando a umidade relativa do ar atingiu 31%. Fe­cha o capítulo – iniciado com ex­pli­ca­ções sobre o ciclo hidrológico – fa­lando de “geada branca” e “geada negra”.

Para ensinar sobre a formação das nuvens, recorre a Paula Toller (“Oito Anos”: “Do que é feita a chuva, do que é feita a neve”?) mas mostra que elas podem ser efêmeras como a música “Nuvem Pas­sageira”, de Hermes Aquino, “que com o vento se vai”. Fala com propriedade dos stratus, stratocumulus, cirrus e cumulus – alguns dos tipos de nuvens – mas termina com o que, na linguagem de Maju, é um “pacotão”: as nuvens cumulonimbus, responsáveis por chuva, raios, trovões, granizo e rajadas de vento.

A autora apela para o ditado popular “Neblina que baixa, sol que racha”, para explicar a formação e diferenciar nevoeiro, névoa úmida e névoa seca. Para cada um deles destaca a visibilidade, a umidade relativa e a impressão visual. O capítulo sobre a chuva inicia com Machado de Assis e suas “Memórias Póstumas de Brás Cubas”: “Acresce que chovia – peneirava – uma chuvinha miúda, triste e constante, tão constante e tão triste, que levou fiéis da última hora a intercalar essa engenhosa ideia do discurso que proferiu à beira da minha cova: … a natureza parece estar chorando a perda irreparável…”. Neste capítulo Maju Coutinho chega às minúcias do didatismo. Como uma professora de química, ensina a diferença entre solidificação, fusão, vaporização, condensação e sublimação. Assim, fica patente o público que deseja atingir: as pessoas comuns, não acadêmicos ou cientistas, embora suas informações não devam ser olvidadas por estes. Nesse capítulo esclarecedor fala sobre a formação de chuvas e como as massas de ar se interagem com as nuvens para formar chuva. Não se esquece da importância da Amazônia, da Cordilheira dos Andes e da Serra da Mantiqueira, para o ciclo hidrológico e para o clima do Brasil Central.

Maria Júlia Coutinho fala de raios, ventos, aquecimento global, pressão atmosférica, e efeito estufa. Dá nome aos ciclones tropicais que atingiram e os que devem atingir a bacia do Atlântico de 2016, até 2021, já que estão nominados e alternam nomes de homens e mulheres. Termina o livro descrevendo os fenômenos El Niño e La Niña – o “menino danado” e a “menina levada” –, que afetam o clima global de tempos em tempos. Ao questionar se o efeito estufa é “mocinho ou vilão” a jornalista aborda as várias facetas desse importante tema. Termina listando ditos populares, como “chovendo canivete”, “sol de rachar mamona” e dezenas de outros. Misturando ciência, sabedoria popular, mitologia africana, cosmogonia e arte, Maria Júlia Coutinho coloca no cadinho do tempo todos os ingredientes necessários para levar o leitor a entrar no clima. Exatamente como faz no jornalístico global.

Nilson Jaime, engenheiro agrônomo, mestre e doutor em agronomia, é colaborador do Jornal Opção.

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Nilson Jaime tem o poder de nos conduzir à leitura do que resenha. Antes de um engenheiro, mestre e doutor, um especialista na didática e filosofia, irmãs e mães do marketing.

Com esse presente de Nilson Jaime, o livro,em mãos, terá meio caminho andado.
Grata por incluir- me!

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