Lembranças

Marcos Nunes Carreiro

ilu

Ilustração: Kaito Campos

Em meio à competição de vozes, ela falava baixo, ali mesmo, sentada em um banquinho a poucos centímetros da moça, cujo único objetivo era coletar histórias de quem estivesse disposto a gastar um tempo em troca de um postal artesanal.

Essa moça chegava cedo, montava sua banquinha e esperava o primeiro “contista” chegar. Naquele domingo, como se todos da cidade já tivessem passado por ali, ninguém havia parado para compartilhar uma boa história. Foi quando ela apareceu. Parou em frente à banca, levando nas mãos algumas sacolas com frutas.

Observou a moça e, mesmo que os óculos já não acompanhassem mais sua visão, pôde notar a pequena aquarela em forma de datilógrafo que a moça levava tatuada sob o braço direito.
Levantou os olhos e leu: “Compra-se histórias da cidade”. Sorriu e sentou-se defronte à moça, que, distraída, mal teve tempo de agarrar papel e lápis:

— Sou nova aqui, sabe? Cheguei fugida da tristeza de minha cidade natal. Mas, desde que cheguei, observo a magia do lugar. Outro dia, por exemplo, parei em um banco da praça, que existe logo ali, e fiquei olhando as pessoas. Foi quando vi a mim mesma caminhando ao lado de um velho conhecido. Imagine a perplexidade! Como o “meu outro eu” não me viu, disparei atrás dela. Não andei mais que dois quarteirões, até que o casal entrou por um portão azul. A certa distância, lá fiquei. O que estava acontecendo? Passaram-se horas, até que, para piorar a situação, vi alguém de quem já havia me esquecido. Vestido de motorista, lá estava ele: meu pai. Saiu pelo portão ao lado do “meu outro eu”. Sorridentes. Precisei me sentar. Como não me viram, depois de alguns minutos, fui embora. Não pude falar com eles. No caminho de volta, peguei o celular e liguei para minha mãe, mas me esqueci que, desde aquele acidente de carro, ela já não atende ao telefone. Cheguei em casa, joguei as chaves perto do porta-retratos que tenho sobre o criado mudo do quarto, aquele que leva a foto da gente sorrindo, e fui para o banheiro. Deixei a água do chuveiro levar as minhas lembranças familiares. Abri os olhos a tempo de ver a última descendo pelo ralo e cheguei a uma conclusão: esta cidade é mágica.

Parando o lápis no papel, a moça levantou os olhos para observar a outra. Não iria falar nada. Não podia. Esperou ver no olhar à sua frente a aflição comedida de quem já se acostumou à ideia de ter perdido a família em um acidente de carro e, devido à tristeza, ter-se mudado de cidade. Porém, encontrou aqueles olhos transparecendo um acalentado sorriso aquecido. Abriu a boca para falar, mas ela já se levantava para continuar seu caminho.

— Espera. Não vai pegar um postal?

— Não. Dê a quem mereça mais do que eu.

— Espera. Levantou-se, foi ao seu encontro e sussurrou: A história é verdadeira?

O mesmo sorriso acalentado nos olhos. Partiu.

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