José Mendonça Teles e a janela aberta da sensibilidade

Morto há uma semana, escritor goianiense deixa um legado memorialista dos mais importantes para Goiânia, cujas ruas e pessoas são louvadas em suas crônicas mais bem acabadas

José Mendonça Teles (1936-2018): os relatos afetuosos em seus textos nos aproximam das ruas da cidade que cresceu vertiginosamente e hoje olha de cima com certo ar de esnobismo ao seu chão | Foto: Reprodução

José Mendonça Teles morreu no dia 28 de abril, aos 82 a­nos. Homem dedicado às le­tras e à cultura goiana, passou sem grandes reboliços, de modo discreto como era sua vi­da. Poeta, cronista, contista, historiador e jornalista, sua maior o­cupação era com a memória da ci­dade, tendo deixado pelo menos dois bons livros de crônicas reunidas sobre o bairro de Campinas e Goiânia, com textos que ele publicou por muitos anos nos jornais da capital, sobretudo “O Popular”.

Participou ativamente da vida social, cultural e política da cidade, tendo sido inclusive seu secretário de Cultura. Foi membro atuante do Instituto Histórico e Geográfico de Goiás e da Academia Goiana de Letras, presidindo a ambas instituições, as duas mais importantes de Goiás, do ponto de vista intelectual.

Livros como o de contos “A Cidade do Ócio”, sua estreia na literatura, “Dicionário do Escritor Goiano”, “No Santuário de Cora Coralina”, “Crônicas Vilaboenses”, “A Imprensa Matutina” e o infantil “Goiânia Coração do Brasil”, são marcos da memória do Estado. Seu nome está cravado no tecido histórico-cultural goiano.

Sua obra é marcada por esse interesse memorialista. Nascido em Hidrolândia, em 1936, sempre foi derretido de paixão pela capital do Estado, para onde se mudou quando tinha 11 anos. Fez o ensino médio no Lyceu e se formou em direito pela PUC-GO, onde foi professor por três décadas.

O nome mais ilustre da família é o de seu irmão mais velho, Gilberto Mendonça Teles. Mas em se tratando de Goiânia, o espaço mais nobre certamente está reservado a José. “Crônicas de Goiânia” é um livro indispensável para quem se interessa pela história da capital. Os relatos afetuosos em seus textos nos aproximam das ruas da cidade que cresceu vertiginosamente e hoje olha de cima com certo ar de esnobismo ao seu chão.

Como cronista, ele nos ajuda a esquadrinhar com afeto as ruas de Goiânia. Todo leitor interessado na história goianiense tem na memória as primeiras linhas de uma de suas crônicas mais famosas: “Eu te vejo Goiânia, quando abro a janela de minha sensibilidade e sinto a sensação de que o tempo, preso na tessitura de meus dedos, caminha comigo e me faz também protagonista da tua história.”

Tristeza telúrica

Quando veio para Goiânia, a cidade, com apenas três anos a mais que ele, também dava os primeiros passos rumo ao futuro. Em outra crônica, José se lembra: “Tem coisa melhor do que envelhecer com a cidade onde você construiu o seu mundo? Cidade que você conheceu criança – e ela criança também –, e você brincando de pique nas praças, nas ruas, catando guabirobas pelos descampados da memória, trepando no templo das árvores em busca da fruta proibida, desejando o mistério por trás bananeiras.”

Os dois caminharam juntos até não poder mais. O tempo, juiz da métrica que faz da longevidade de um parecer papel diante da impassível durabilidade da outra, cortou as asas do cronista, para que ele pudesse repousar sob o rumor interminável da urbe, rumor que à alma de José soará como música de saudade. Sua memória, no entanto, está preservada.

Sobre ser goiano, ele escreveu: “Ser goiano é carregar uma tristeza telúrica num coração aberto de sorrisos. (…) É amar o passado, a história, as tradições, sem desprezar o moderno. É ter latifúndio e viver simplório, comer pequi, guariroba, galinhada e feijoada, e não estar nem aí para os pratos de fora.”

Confesso que não sou leitor da obra de José Mendonça Teles. Tenho alguns livros, todos lidos. Só isso. Mas suas crônicas sobre Goiânia criaram um vínculo afetivo entre mim e seu espírito largo e cheio de palavras, “dócil e falante, impetuoso e tímido”. Suas crônicas me ajudaram a carregar nas tintas o amor que sinto por Goiânia, que também não é minha terra natal.

Com outros nomes

Outro livro importante de José, que demonstra sua preocupação com a memória da cidade que o acolheu, é “Memórias Goia­nienses”, em que ele entrevista 26 personalidades fundamentais para a capital. Entre os entrevistados estão Bernardo Élis, Colemar Natal e Silva, Dante Ungarelli, Nelly Alves de Almeida, Oscar Sabino Júnior, Rosarita Fleury, Venerando de Freitas Borges (o primeiro prefeito de Goiânia) e Bariani Ortencio.

A história de Goiânia nesses depoimentos é registrada com o molho da observação genuína. Neste sentido, o livro de José nos ensina que quando nos debruçamos sobre a história, o mais sensato é deixar de lado as ferramentas afiadas a fel e se entregar ao deleite da apreciação, para poder tirar proveito de riso, pelo menos.

Nesse livro, Bernardo Élis, por exemplo, desce a lenha no resultado urbanístico de Goiânia. Para ele, Pedro Ludovico e Attilio Corrêa Lima foram traídos pelos especuladores imobiliários, que transformaram o projeto num circo de horrores. Ele diz que os dois bosques do centro foram usurpados (Buritis e Botafogo).

No caso do Bosque dos Buritis, “o primeiro invasor foi a igreja, ali construindo o colégio Dom Bosco e a igreja, num tempo em que espaço era só o que existia em Goiânia; os invasores seguintes foram o Estado de Goiás, erguendo ali a Assembleia Legislativa.”

Talvez Élis, no dia da entrevista, estivesse de mau humor, embora suas observações sejam facilmente percebidas como coerentes. Uma de suas frases lapidares, antes de entrar no assunto do urbanismo foi a seguinte: “Sempre fui de opinião de que a vida não vale grandes sacrifícios.”

A vida pode não valer grandes sacrifícios, mas vale a memória enriquecedora. A de José Mendonça Teles, na fileira dos grandes nomes de Goiás, como o do próprio Bernardo Élis, cada um a seu modo, é sine qua non para a memória da própria cidade.

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Deusimar

A “Cidade do Ócio” melhor livro goiano.