Hora do pesadelo!

“Perambulação” merece ser visto pela importância no mercado audiovisual goiano, que se fortalece a cada dia, e pelo amadurecimento do diretor e roteirista, em comparação a suas obras passadas

Filme “Perambulação”, de Samuel Peregrino

Não se sabe o que é mais difícil: o surgimento de boas obras cinematográficas goianas, ou sua divulgação. Porque se existe um problema grave (e antigo) envolvendo o cinema nacional, esse problema está justamente na dualidade produção x distribuição.

Foi pensando nessa questão que o diretor goiano Samuel Peregrino decidiu ousar, contrariando a lógica do mercado – principalmente a do mercado local – e lançando seu mais novo filme diretamente numa plataforma de streaming digital. “Perambulação” (que até poderia narcisisticamente se chamar “Peregrinação”), a terceira obra de sua já elogiada filmografia, estreou sexta (28/07) no recém lançado portal do Snapcine, uma plataforma digital inteiramente voltada ao streaming de filmes brasileiros.

Peregrino surge mais maduro nesse novo filme, a começar por suas escolhas. A ficha técnica da obra, enriquecida com as participações (dentre outras) de Pedro Gomes, Isaac Brum, Taynara Borges e Marcos Bruno conta ainda com Tiago Rener e Carlos Brandão atuando. Todos nomes conhecidos no audiovisual goiano. Samuel assina a direção e o roteiro.

Com a participação decisiva de uma equipe técnica já experimentada, “Perambulação” consegue ir além do que “Dejejum” (2014) e “Ensaio sobre um fim de mundo” (2016) já haviam conseguido. Com um roteiro mais complexo que o primeiro e menos experimental que o último, a obra certamente se destaca dentre a produção audiovisual universitária.

A estória centra-se em Nathanael, porteiro de um prédio que sofre com noites de sono mal dormidas e pesadelos constantes. Para resolver seus distúrbios noturnos, procura o Dr. Coppelius, um especialista no sono, que lhe aplica métodos nada ortodoxos. O tiro sai pela culatra. A vida de Nathanael vira um emaranhado de imagens e sensações, num labirinto onírico sem fim.

É interessante a influência declarada que a obra pega no conto “Homem de Areia”, do escritor alemão Ernst Theodor Amadeus Hoffmann, no qual um outro Nathanael tropeça entre realidade e ilusão. No conto, o protagonista é assombrado pelo Homem de Areia, uma figura que os pais usavam para obrigar as crianças a dormir. O monstro, dizia-se, roubava os olhos das crianças desobedientes, jogando-as num mundo de suplícios e delírios.

Não se sabe a quem o Nathanael de Peregrino desobedeceu durante a infância. Mas o que vemos na tela é um homem sem olhos para a realidade, lutando para escapar de um pesadelo que não tem fim. E não adianta obrigá-lo a dormir. “Toda a vida era para ele sonho e pressentimento”, é a frase pinçada do conto e que abre o filme.

Curiosamente, o que traz paz ao protagonista é a música, expressa nos arranjos de uma gaita. Coincidência ou não, Coppelius (nome do especialista em sono na obra de Samuel, e de um dos personagens do conto de Hoffmann) é também o nome de uma banda metaleira alemã, que faz músicas pesadas usando clarineta, violoncelo e uma boa dose de teatro. Tão interessante quanto improvável. Talvez uma metáfora perfeita para a vida do Nathanael do filme: na aspereza do batente, ainda há tempo e espaço para a delicadeza e o lirismo – ainda que em desespero.

O filme tem desenvoltura ao manejar os diversos aspectos técnicos. Som e fotografia se destacam pela falta de excessos. A simbologia dos planos também é trabalhada de forma interessante e consegue presentear o espectador com belos momentos (a cena em que Nathanael desperta, com o rosto cheio de fios, e sua cabeça se sobrepõe a um grande olho na parede ao fundo é genial).

Por tudo isso, “Perambulação” merece ser visto. Pela importância no mercado audiovisual goiano, que se fortalece a cada dia. Pelo amadurecimento do diretor e roteirista, em comparação a suas obras passadas. Pela riqueza simbólica da estória e da linguagem cinematográfica utilizada – esta última, em flagrante superioridade à maioria dos curtas nacionais independentes, seja quanto à fotografia, som ou atuação.

Ganham os espectadores e o próprio cinema goiano. Porque ao contrário de Nathanael, seu personagem, Samuel Peregrino sabe muito bem aonde está indo.

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