Salatiel Soares Correia

Especial para o Jornal Opção

Segunda parte da resenha do livro ‘Holodomor — O Holocausto Esquecido’ (Vide Editorial, 336 páginas), de Miron Dolot.

A vida cotidiana nas fazendas colonizadas exigia dos que lá estavam uma contínua vigilância pessoal. Qualquer palavra fora de tom, uma brincadeira mal interpretada já poderia ser entendida, pelos representantes do governo, como uma ofensa ao Estado soviético.

Para ilustrar com mais riqueza o que direi a seguir, reproduzo, neste espaço, parte de um artigo de minha autoria — leia-se: “A prostituta francesa é o Estado-babá” — contido no meu livro “Crônicas de Um Rebelde”: “E aquela bela prostituta francesa, dona de um corpo escultural, subiu na mesa de um cabaré em Paris, em 1848, pensando que tudo aquilo não passava de uma brincadeira. Sobre a mesa, acostumada que estava à vida fácil e aos muitos homens que a sua beleza atraía, começou a dançar sorrindo e, ao mesmo tempo, mostrando suas belas pernas para aquele soldado, perguntando se ele tinha coragem de nela atirar. Mas o soldado permanecia lá — firme e imóvel — com sua baioneta rente ao chão, ignorando o que se passava à sua volta.

“De repente, aquele homem apontou a baioneta, sem ao menos pestanejar, para aquela profissional do amor e bam! bam! bam! deu-lhe três tiros. A prostituta caiu morta e permaneceu estendida no chão em meio ao corre-corre daquela gente toda que estampava no rosto o medo e o pavor de também ser morta. Só assim os frequentadores daquele cabaré perceberam o que estava acontecendo não era uma brincadeira. Era uma forte reação do poder constituído contra aquilo que aqueles homens queriam que fosse uma revolução.”

A história acima revela o preço que pagou a prostituta pela brincadeira que fez contra aquele soldado representante do poder constituído que pseudorrevolucionários queriam derrubar. A prostituta zombava de alguém que estava ali para cumprir ordens sem pestanejar. Pagou com a própria vida pela falta de percepção.

O relato acima muito se assemelha ao clima produzido pela mudança radical de vida de um país refém de uma ditadura que não hesitava em punir aqueles que ousassem, mesmo que de brincadeira, criticar o governo e seus representantes.

Crianças famintas na Ucrânia durante o Holodomor, no início da década de 1930 | Foto: Reprodução

Nas fazendas colonizadas soviéticas, a presença constante dos então poderosos funcionários do governo exigia um eterno autocontrole dos colonizados. Qualquer mal-entendido com o representante do governo era passível de punições severas, sempre, direcionadas para a prisão ou eliminação física.

Quem, certamente, não percebeu o que era viver numa fazenda colonizada foi um tratador de cavalos. Ele ousou rir da inexperiência do representante do governo que, ao chegar em um estábulo cheio de éguas, perguntou quantas delas estavam “grávidas”.

O riso do tratador de cavalos irritou o representante de Stálin naquela vila da Ucrânia, o poderoso camarada Cherepin. Este, com um semblante absolutamente fechado, voltou-se para tratador de cavalos e disse: “eu aqui ainda sou o representante do partido e do governo”.

Ciente do perigo que corria, aquele humilde colonizado respondeu, com a voz trêmula, ao camarada Cherepin: “Eu ri apenas porque não há como dizer de éguas que estão grávidas; só de mulheres… a égua fica prenha.”

Fome na Ucrânia: entre 3,5 milhões e 4 milhões de mortos | Foto: Reprodução

Naquele momento não adiantava mais, o destino do tratador tornar-se-ia idêntico ao da prostituta francesa. Esta, pela falta de percepção, pagou com a própria vida pela brincadeira que fez com o soldado; o tratador de cavalos, tachado pelo regime como inimigo do povo, foi levado à sede do condado e desde então ninguém nunca mais ouviu falar dele.

Casos como o do tratador de cavalos são relatados por quem presenciou os horrores do holocausto esquecido, Simon Starow, para aqueles que preferirem chamar pelo nome, ou Miron Dolot, para os que optarem pelo codinome. Para leitores mais vorazes, que desejam conhecer outras situações de absoluto autoritarismo da ditadura de Stálin, volto a dar o mesmo conselho: comprem o livro e leiam a obra por inteiro.

Posto isso, avaliaremos, a seguir, a face mais cruel, que deixou inúmeras feridas abertas, desse conflito entre a então União Soviética e a Ucrânia. Falo da fome que matou quase 4 milhões de pessoas. A atual guerra entre a Rússia a Ucrânia perdura quase 90 anos. Muito do atual conflito tem suas raízes naqueles anos de tanto sofrimento pelo qual passou o bom povo da Ucrânia.

Tragédia provocada pelo comunismo na Ucrânia: milhões de mortos | Foto: Reprodução

Fome mata milhões de ucranianos

As cenas descritas por quem sentiu na pele o peso da ditadura de Stálin na vida do povo ucraniano, o autor do livro que ora comento, Miron Dolot, são absolutamente estarrecedoras. Nelas, amontoavam-se, de um lado a outro das estradas do país, milhões de cadáveres, vítimas de uma morte lenta causada pela falta de comida. A morte pela fome é resultado de um regime que aniquilou não só a classe produtiva dos fazendeiros, mas também o pequeno produtor. Este, num sistema de fazendas coletivas, foi continuamente explorado à exaustão por cotas impostas pelo governo. Resultado: enquanto a máquina de propaganda Stálinista alertava os recordes da produção de produtos agrícolas, o mundo desconhecia algo que o holocausto revelou, qual seja, o sucesso de produção agrícola da então União Soviética muito se devia ao aniquilamento da classe de fazendeiros da Ucrânia. Concluída essa etapa de colonização, o povo ucraniano se viu diante da luta pela sobrevivência em num contexto de grave escassez alimentar.

Entre os vários casos de exploração do explorador sobre o explorado relatados pelo autor, escolhi, por limite de espaço, o caso de um agricultor que pagou um preço por se ter recusado a viver em uma fazenda coletiva. Vejamos, pois, o modo como a máquina Stálinista de triturar destruiu a vida do agricultor Shevchenko.

Miron Dolot: autor de um livro seminal sobre o Holodomor | Foto: Reprodução

1 — Pagando rigorosamente todos os impostos, o governo o deixaria em paz.

Esse certamente foi o primeiro autoengano de Shevchenko. Essa paz com o governo durou apenas uns dias.

2 — Em seguida, recebeu uma ordem que requeria que ele entregasse 500 quilogramas de trigo ao Estado. Shevchenko cumpriu rigorosamente a solicitação do Estado.

3 — Passados alguns dias, veio uma outra determinação do Estado para ele: que entregasse o dobro da quantidade de trigo. Essa determinação ele não teve como cumprir. Motivo: simplesmente não tinha mais trigo.

Sem poder atender mais a exigência do governo, Shevchenko foi intimidado pelos funcionários com a seguinte ameaça: ser deportado para a Sibéria.

4 — Ante o perigo eminente de ser deportado para Sibéria, Shevchenko resolveu vender tudo que tinha de valor, incluindo uma vaca. Pensou, enfim, que agindo assim se livraria desse Estado agonizante, que comprometia sua saúde e a de sua família. Ledo engano.

Assim, creio ser oportuno conhecermos a opinião do autor sobre esse episódio: “seu destino [o de Shevchenko ] havia sido selado quando ele se recusou a se juntar à fazenda coletiva”.

A conclusão do processo de “fritura” não poderia ser mais drástica. Com a palavra, o autor: “Depois que subjugaram Shevchenko, eles lhe amarraram as mãos por trás das costas e o levaram para fora; a sua mulher, ainda se debatendo, teve de ser levada embora da casa segurada pelas mãos e pelos pés e jogada na carroça. Às crianças não restara nada a fazer senão seguir mansamente os pais.” Continuando sua narrativa sobre o destino da família que ousou contrariar o sistema, Miron Dolot relata que: “a família Shevchenko, na companhia de outras vítimas de despejo, foi levada do centro da vila para a estação de trem e transportada para algum lugar, sem deixar nenhum rastro.”

Morte na Ucrânia: a tragédia do Holodomor | Foto: Reprodução

Fome levou povo pacífico a cometer barbárie

O rouxinol é um pássaro que sempre exerceu certo fascínio na população da Ucrânia, a ponto de se tornar um símbolo nacional. O canto desse pássaro atraiu os ucranianos com a mesma intensidade que Ulisses, no poema de Homero, foi seduzido pelo magnífico canto das sereias. Embora o herói do poema de Homero tenha resistido ao encanto da melodia das sereias, ele fora atraído pelo erotismo dessas ninfas assassinas. Situação semelhante de encantamento nutre o povo da Ucrânia com a beleza artística do canto do rouxinol. Por essa razão, tal pássaro foi reconhecido como o símbolo da Ucrânia pelo real e verdadeiro fascínio que ele sempre exerceu sobre a alma daquele país europeu. Essa relação de encantamento do rouxinol com o seu país se exauriu no momento que a Ucrânia se viu acometida pelo flagelo da fome. É por essa escassez alimentar que volto ao tema anteriormente exposto para analisar a fome sob um novo aspecto: o da mudança comportamental de uma população que lutou desesperadamente contra a fome que ceifou a vida de quatro milhões de ucranianos.

Quando se chega a tal nível de desespero, relata o autor, que “as pessoas famintas se tornam impiedosas”. Nesse contexto, o vale-tudo pela sobrevivência acaba prevalecendo sobre a racionalidade. O canto do rouxinol passa a ser um canto de morte, não só dele, mas, também, de cães, gatos, fezes — enfim, qualquer coisa comestível será consumida, inclusive, carne humana.

Hitler e Stálin: responsáveis por dois holocaustos | Imagem: Reprodução

Em estado de desespero, as pessoas matam, assaltam e até se suicidam. Foi num ambiente de completo desespero coletivo, motivado pela escassez alimentar, que a então pacífica Ucrânia se transformou num lugar violento ante a dissolução das relações humanas que se desintegraram, individualizando o salva-se quem puder.

Nesse contexto de absoluta luta pela sobrevivência, instalou-se a barbárie coletiva, assim descrita por Miron Dolot: “roubos, arrombamentos e assaltos, dos quais raramente ouvíamos falar na nossa região, agora se tornavam ocorrências comuns. Assassinatos ou suicídios deixaram de ser eventos que causavam sensação. O colapso da lei foi o resultado da completa reorganização da vida comunal e da dissolução das relações humanas”. Inserido nesse contexto, no qual permaneceram abertas as feridas sociais, que se deve entender a atual guerra da Rússia de Putin contra a Ucrânia. A figura do construtor desse mundo de atrocidades, Stálin, tal qual os fantasmas shakespearianos, continua mais viva do que nunca.

Salatiel Soares Correia, engenheiro, bacharel em Administração de Empresas, é mestre em Energia pela Unicamp. É autor de oito livros relacionados aos assuntos Energia, Política Desenvolvimento Regional e Literatura. É colaborador do Jornal Opção.

Leia a primeira parte da resenha sobre o Holodomor