História de Mary Bell, a menina de 11 anos que matou duas crianças e foi condenada à prisão

A jornalista Gitta Sereny conta que, adulta, a mulher que foi condenada à prisão perpétua se sente culpada e que não passa um dia sem pensar nas crianças que matou

Primeira edição brasileira de “Gritos no Vazio” | Foto: Jornal Opção

Candice Marques de Lima

Especial para o Jornal Opção

A infância, tal como a entendemos, é uma construção social recente e, talvez por isso, tudo o que é dito a seu respeito tem impacto na nossa sociedade. Há alguns séculos, a criança era vista apenas como um adulto em miniatura, os cuidados que temos e a complexidade que vemos nas crianças simplesmente não existiam. Elas eram tratadas de outra forma e, como a prole era muito grande, os pais não tinham muito tempo a dispensar com cada filho individualmente. Aliás, nem a ideia de individualidade existia.

Depois desse breve século psicológico pelo qual passamos, ideias como as do judeu austríaco Sigmund Freud e do suíço Jean Piaget impregnaram a todos e palavras como complexo de Édipo, períodos e fases de desenvolvimento se tornaram senso comum, embora nem sempre sejam compreendidas no sentido com que foram formuladas e desenvolvidas. Nesse contexto, todos os assuntos sobre infância e crianças, principalmente quando se trata de crianças perturbadas, despertam o interesse de leigos e especialistas. Ficaram famosos os estudos de caso de psicanalistas como “O Homem dos Lobos”, de Freud, “A Pequena Piggle” ou a mãe suficientemente boa, de D. W. Winnicott, além de vários livros escritos por Bruno Bettelheim, Melanie Klein e Maud Manonni, psicanalistas que se especializaram no estudo da infância. Ah, já ia me esquecendo de Françoise Dolto, psicanalista francesa também estudiosa do tema.

A segunda edição mantém a tradução mas mudou o título | Foto: Jornal Opção

“Gritos no Vazio” (Editora Gutenberg, 429 páginas, tradução de Erick Ramalho) — a nova edição saiu com outro título “Por que as Crianças Matam: A História Real de Mary Beel (Vestígio, 400 páginas; trata-se da mesma tradução) —, escrito pela jornalista vienense Gitta Sereny (1921-2012) conta a história de uma menina de 11 anos que matou dois meninos, um de 4 anos e um de 3 anos, em 1968, na cidade inglesa de Newcastle upon Tyne, por estrangulamento. Escrito em uma linguagem acessível e permeado por um discurso humanista, o livro tenta explicar o por quê das mortes. Gitta Sereny, com esse livro-pesquisa, pois, além de entrevistar a própria Mary Bell, conversou com muitas pessoas envolvidas no caso, não tenta diminuir a culpa da menina — hoje uma mulher de 61 anos, com uma filha de 35 anos, —por seus assassinatos, mas tenta compreender os motivos que levam uma criança a cometer um crime como esse.

Gritos no Vazio

O título do livro “Gritos no Vazio” seria para alertar como muitas crianças — Mary Flora Bell em especial — tentam se comunicar e inclusive avisar sobre a ruptura que está prestes a acontecer.

Mary Bell era uma moradora de um bairro operário de Newcastle, que fica ao Norte da Inglaterra, às margens do Rio Tyne. A cidade, nos anos de 1960, estava à beira da ruína econômica. Sua mãe era prostituta e seu pai — que na verdade não era seu pai biológico, mas que Mary só descobriu em 1977 — era um ladrão. Mary Bell vivia com seus pais e seus três irmãos mais novos em uma casa pobre. Durante o dia, quando não estava na escola, ficava a perambular pela vizinhança. Parecia uma criança comum, mas havia histórias em seu breve passado que ela não podia contar para ninguém e que somente anos mais tarde viriam à tona.

Sua mãe, Betty Bell, e seu pai, Billy Bell, embora morassem na mesma casa, não viviam maritalmente. Nos dias em que sua mãe não estava nos pubs — tipos de bares londrinos, e por isso ficava em casa, seu pai estava nas ruas praticando seus roubos. Mary Bell conta que sua mãe surrava ela e o irmão, um ano mais novo, pelos motivos mais insignificantes. Seu pai, ao contrário, não batia nos filhos e os tratava com relativo carinho.

Mary Bell, que, ao sair da prisão, teve uma filha, sustenta que os maus-tratos pelos quais passou na infância não são desculpas para seus crimes e frisa que não são todas as crianças perturbadas que matam | Foto: Reprodução

Mary Bell foi rejeitada por sua mãe desde seu nascimento. Na maternidade, quando foram entregá-la, a mãe teria dito: “Tirem essa coisa de perto de mim”. Com um 1 de idade, Mary Bell teve uma overdose com os comprimidos que sua avó materna tomava para enxaqueca. Não ficou bem esclarecido como Mary teria tido acesso aos remédios.

Um ano e meio depois desse episódio, Betty Bell deu sua filha para um casal, amigos de sua irmã, criá-la. Cath, irmã de Betty Bell, pegou a pequena Mae, como Mary Bell era chamada carinhosamente, e a devolveu para sua mãe. Algumas semanas depois, em meio aos doces que Mary Bell e seu irmão estavam comendo, Cath encontrou pequenos compridos de Drinamyls (anfetaminas).

Passaram-se três meses e Betty Bell, ao visitar sua mãe em Glasgow, ia deixando Mary Bell cair pela janela, quando seu irmão correu e conseguiu pegá-la.

Não satisfeita e na tentativa de se livrar da menina, Betty Bell foi a uma casa de adoção e entregou a filha para uma mulher que não tinha conseguido adotar um bebê. Betty Bell teria dito: “Eu trouxe essa para ser adotada. Fique com ela”. Virou as costas e foi embora. Por sorte, ou, quem sabe, azar, outra irmã de Betty Bell, Isa, a seguiu e descobriu o que havia feito. Foi então até sua mãe e as duas obrigaram-na a pegar a criança de volta. A mulher já havia comprado alguns vestidinhos para a pequena Mae, mas teve de devolvê-la à mãe.

June Richardson mostra a foto de seu filho Martin Brown | Foto: Reprodução

Quando Gitta Sereny relatou a história, Mary Bell disse-lhe: “Por que não me deixaram com a senhora que queria uma criança?”

Betty Bell, além de Mary Bell, teve mais três filhos — um menino e duas meninas —, os quais também rejeitou e que foram criados por sua irmã.

Mary Bell teve sua mãe próxima até a morte dela, em 1995. Neste ano, ao completar 38 anos, decidiu contar sua história.

Abusava por clientes da mãe e os assassinatos

Entretanto, talvez a parte mais impactante do livro ainda está por vir. Nem a descrição dos assassinatos cometida por Mary Bell é tão cruel como a descrição dos abusos sexuais que sofreu com instruções de sua mãe. Dos 4 aos 8 anos de idade, sua mãe permitiu que seus clientes abusassem sexualmente da filha na sua presença. Foi também aos 4 anos de idade que Mary Bell se tornou enurética e pode-se especular, o que Gitta Sereney prefere não fazer, se isso teria a ver com os abusos. Até os 23 anos de idade, quando saiu da prisão, Mary Bell urinou na cama todas as noites. Ela relata que se livrou disso somente quando se sentiu amada por um homem que conheceu quando estava saindo da prisão. O home, casado, disse que iria mostrar-lhe que não era lésbica. Nos anos que esteve presa, Mary Bell se tornou “butch”, termo usado para mulher que se veste de forma masculina e se relaciona sexualmente com outras mulheres.

A história sobre as mortes das duas crianças teve início antes dos dias em que ocorreram. Em 1967 uma garota chamada Norma Bell, nenhum parentesco e dois anos mais velha, mudou-se para a casa ao lado de onde Mary Bell morava. A amizade seria um dos pontos que levariam ao assassinato de Martin Brown e Brian Howe, de 4 anos e 3 anos de idade, respectivamente.

Gitta Sereny, a jornalista austríaca resgatou a vida de Mary Bell de modo amplo, para além dos dois assassinatos | Foto: Reprodução

As duas garotas começaram a conviver e a alimentar planos de fugir de casa. Aparentemente a família de Norma não apresentava tantas dificuldades quanto a de Mary Bell. Seus pais moravam juntos e ela tinha 10 irmãos. Enquanto Mary Bell queria realmente se distanciar de casa, Norma queria chamar a atenção de sua família. Juntas, as duas fugiram de casa duas vezes e também praticaram pelo menos um dos dois assassinatos.

No caso Martin Brown, o primeiro a ser assassinado, Mary Bell estava só, pegou o menino pela mão, levou-o até uma casa abandonada da vizinhança e apertou sua garganta, como os clientes de sua mãe faziam com ela, pedindo que Martin também a segurasse pelo pescoço.

Quando Martin morreu, Mary Bell pensou que estivesse apenas inconsciente, como aconteceu algumas vezes com ela, e chamou Norma para que fosse vê-lo. Ambas esconderam o fato de todos e quando Martin foi encontrado na noite do mesmo dia de seu assassinato, todos pensaram que havia ingerido remédios, pois tinha um vidro de medicamentos caído próximo a seu corpo. Quatro dias depois Mary Bell foi à casa de Martin e pediu para vê-lo no caixão, pois acreditava que estivesse vivo.

Nove semanas depois, quando Brian Howe foi assassinado, as duas meninas estavam juntas e durante o julgamento uma acusou a outra de ter cometido o assassinato, até que, anos mais tarde, Mary Bell confessou para Gitta Sereny ter matado Brian.

Mary Bell em dois tempos: criança e adulta (de cabelos curtos) | Foto: Reprodução

As duas meninas encontraram Brian na rua, ambas o conheciam da vizinhança, e o levaram para uns blocos de concreto que ficavam à margem do Rio Tyne. Mary Bell deitou Brian no chão, pediu que levantasse a cabeça e apertou seu pescoço, o menino se debateu até que ficou inerte. Norma tentou ver seu pulso e observou que não estava indo “para cima e para baixo”. Depois, com uma lâmina de barbear, as duas meninas escreveram primeiro um “N” e depois puxaram a perna para formar um “M” (as iniciais de seus nomes) na barriga de Brian. Este, antes de morrer, estava carregando uma tesoura, que Mary usou para cortar uma mecha de seu cabelo e depois tentou cortar seu pênis. Mary Bell, depois de adulta, interpreta esse último ato como “uma espécie de castração simbólica, como tirar o órgão agressor”. Em seguida, Mary Bell cobriu o corpo de Brian de grama. Voltaram para ver o menino algumas vezes e ajudaram sua irmã mais velha a procurá-lo.

O corpo de Brian foi encontrado na madrugada do dia seguinte e um legista constatou que devido às “tênues marcas de pressão em seu pescoço e em seu nariz e a leveza dos ferimentos a faca” o crime devia ter sido cometido por uma ou mais crianças. Somente depois disso é que se começou a cogitar a respeito de Martin ter sido assassinado. Um inspetor-chefe foi requisitado para apurar o crime e ouviu todas as crianças da vizinhança até que chegou a Mary Bell e Norma.

Julgamento das duas meninas

Antes das mortes, Gitta Sereny mostra as várias tentativas que Mary fez para “mostrar” sua perturbação, seus gritos que ficaram no vazio. Duas semanas antes de Martin ser assassinado e até a véspera do assassinato de Brian, as duas garotas se comportaram de maneira estranha ou agiram contra a lei. Em 11 de maio de 1968 a polícia interrogou Mary Bell e Norma, pois elas apareceram com o primo de Mary Bell de 3 anos chorando com um ferimento na cabeça e dizendo que tinha sido empurrado.

Mary Bell tocando flauta, ainda jovem; hoje, aos 61 anos, permanece sob o olhar vigilante da imprensa inglesa | Foto:  Reprodução

Mary Bell o havia empurrado, mas tanto ela quanto Norma disseram que o haviam encontrado machucado. No dia seguinte, num parquinho de areia da escola na qualvestudava, Mary Bell atacou três meninas e agarrou-as pelo pescoço.

Um dia após ter assassinado Martin, as duas garotas invadiram a escola e deixaram bilhetes dizendo que haviam assassinado Martin Brown, mas a polícia não descobriu a autoria dos bilhetes e não acreditou em seu conteúdo, pois pensava que Martin havia morrido de overdose de remédios.

Tais histórias mostram que os assassinatos poderiam ter sido evitados se as pessoas tivessem percebido o sofrimento de Mary. Se tivessem prestado atenção em seus “gritos”, ela poderia ter recebido auxílio, mesmo depois de ter matado as duas crianças.

Mary Bell e Norma Bell foram julgadas pelos assassinatos dos dois meninos em um tribunal para adultos com júri, pois “a responsabilidade criminal na Inglaterra e no País de Gales eram de dez anos (oito, na Escócia)”, esclarece Gitta Sereny.

Durante o julgamento, que foi assistido por Gitta Sereny — em 1972 escreveu o livro “O Caso de Mary Bell” — e pela imprensa, pois o caso obteve grande repercussão, Mary Bell se apresentava aparentemente impassível, destituída de sentimentos, enquanto Norma chorava.

Gitta Sereny a descreve: “A primeira vez que vi Mary Bell foi no dia 5 de dezembro de 1968. (…) Mary era pequena naquela época — bem menor que a garota mais velha (Norma) — e era, de fato, excepcionalmente linda, com cabelos curtos e escuros e olhos de um azul intenso”.

Mary Bell foi examinada por dois psiquiatras antes do julgamento. Nada sabiam sobre sua infância e, mesmo assim, “rotularam-na com aquele diagnóstico que serve para tudo —‘psicopata’”. A criança foi descrita pelo promotor como “depravada, cruel, aterrorizante”. O próprio juiz a chamou de “maléfica”. A mídia a chamaria de “uma aberração da natureza, nascida do mal e de ovelha negra”.

Assim, quando escutou esses termos durante o julgamento, Mary Bell achou-os engraçados, ria e pensava que essas palavras nada tinham a ver com ela. “Você sabe, elas me faziam pensar sobre um programa de TV que eu tinha visto, ‘Perdidos no Espaço’”, disse a Gitta Sereny. Ela não entendia a razão do julgamento e sua família não tinha lhe explicado por que estava ali. Seu medo era, quando saísse de lá, fosse para casa e levasse uma surra de sua mãe, que havia lhe dito que não contasse nada para os psiquiatras, pois eles entrariam em sua cabeça e a mandariam para o espaço sideral.

Mary Bell foi condenada a prisão perpétua e Norma, sua amiga que demonstrou sentimentos, foi inocentada. Dos 11 aos 23 anos Mary Bell ficou presa e depois em liberdade condicional. Em momento algum foi recomendado que fosse tratada por profissionais de saúde mental. Somente nos últimos anos de sua prisão, a jovem fez terapia de grupo por iniciativa própria, mas para não ter que trabalhar nas horas que estava na terapia.

“Capaz de amar”

Na época das entrevistas com Gitta Sereny em 1997, Mary Bell era uma mulher casada pela segunda vez e com uma filha do primeiro casamento. Seu nome foi mudado e ainda é perseguida pela imprensa inglesa, tendo que se mudar com frequência para que não a encontrem. É descrita por Samantha Connolly, responsável por sua condicional: “Ela, que não consegue se ater a nada nem por um instante — empregos, cursos, mesmo ideias — foi capaz de criar várias oportunidades para a criança. É quase como se ela pudesse transferir — se você preferir — para a criança aquela habilidade enterrada nela mesma. Ela é muito, muito capaz de amar”.

Marcada pelo que fez, Mary Bell não consegue trabalho com facilidade, não pode ficar muito tempo em uma cidade, mas a descrição de seu relacionamento com a filha é de grande segurança e amor. Ela nunca poderá trabalhar atendendo pessoas, entrou para a faculdade para os cursos de psicologia e enfermagem, mas não pôde continuar devido a seus crimes, pois a lei não permite que tenha responsabilidade pela vida de outrem. Mary Bell diz sentir-se terrivelmente culpada pelos assassinatos que cometeu e que não passa um dia sem pensar nas crianças que matou e na dor de suas famílias. Além disso, sabe que os maus-tratos pelos quais passou na infância não são desculpa por seus crimes e diz que não são todas as crianças perturbadas que matam.

Gitta Sereny faz um relato humano do que é ser humano. A autora faz ressalvas sobre a forma de julgamento de crianças que cometem crimes e pensa que elas devem passar por tratamento psicológico, o que não aconteceu com Mary Bell. Faz também uma crítica aos pais: “Não disciplinamos nossas crianças. Temos medo delas. Para compensar a lacuna resultante dessa compreensão, nós as cercamos de vantagens materiais”.

A despeito de tudo o que fez e do que lhe fizeram, Mary Bell conseguiu criar sua filha, que diz ser a coisa mais importante, e tentar romper com o estigma que lhe deram.

Candice Marques de Lima, psicanalista, é professora da Universidade Federal de Goiás e doutoranda pela Unifesp.

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Lincoln Soares

Candice, parabéns por mostrar uma análise mais profunda de um dos crimes mais marcantes que já tive conhecimento. É preciso retomar tais casos para que se possa efetivamente evitar outras tragédias como a descrita no livro de Gitta Sereny.