Adalberto de Queiroz
Adalberto de Queiroz

Hart Crane e “o amuleto carbônico”

Autor inscreveu seu nome no cânone americano, mesmo tendo morrido jovem. O poeta nascido em Ohio suicidou-se aos 42 anos, deixando amostras grandiloquentes de uma poesia que “fundiu deliberadamente” seus versos à escrita de “seus precursores americanos” com “o fogo purificador de seu estilo e postura”

Hart Crane, poeta norte-americano que merece ser mais lido | Foto: Reprodução

“Harpa e altar pelo furor unidos,
(Como pôde o simples trabalho alinhar as tuas cordas cantantes!),
Medonho limiar da promessa do profeta,
Prece de um pária, e grito de um amante, –

E de novo as luzes do trânsito que deslizam pelo teu idioma
Veloz e total, imaculado suspiro de estrelas
Ornando o teu caminho, condensam a eternidade:
E vimos a noite erguida nos teus braços.


Ó insone como o rio lá em baixo,
Em abóbada sobre o mar, erva sonhadora das pradarias,
Desce, vem até nós, os mais humildes,
E da tua curvatura empresta a Deus um mito[i].”

Nos intervalos entre os bons jogos da Copa do Mundo de Futebol (vejo apenas aqueles que me atraem como torcedor), leio “A Ponte”, de Hart Crane, na tradução portuguesa de Maria de Lourdes Guimarães[ii]. É uma alegria ter acesso aos versos de Crane na língua de Camões e com o acento lusitano da tradutora.

Da mesma coleção desta editora, já havia adquirido três outros volumes – sendo um deles os 50 Poemas selecionados do poeta sueco Tomas Tranströmer, ganhador do prêmio Nobel de Literatura de 2011 e que devo voltar num comentário específico.

É uma forma de antecipar-me às publicações aqui no Brasil dessas tão boas seletas de versos, que podem ser adquiridas em compra digital[iii].

Biografia de Crane, por Jorge de Sena[iv]

“Harold Crane (Hart é o diminutivo que o poeta usou literariamente) nasceu em 1899, em Garretsville, Ohio, e em 1916 já um seu poema era publicado numa revista de vanguarda. ‘White Buildings’ (1926) foi sua primeira coletânea, em que o poeta se mostra dividido entre uma afirmação épica inspirada de Walt Whitman e o pessimismo difundido pela mensagem vanguardista de T. S. Eliot. Na vasta sequência, ‘The Bridge’ (1930), Crane atingiu a sua plena estatura numa magnificência de imagens que todas se organizam em torno da Ponte do Brooklyn, em New York, como símbolo da grandeza norte-americana e dos perigos da civilização industrial.
A vida agitada de ‘outcast’, que era a sua desde a adolescência, teve fim trágico no suicídio, em 1932, quando regressando de uma viagem pelas Caraíbas e o México, o poeta se atirou do navio ao mar. Hart Crane é um dos mais importantes poetas norte-americanos do modernismo, a que trouxe uma intensidade apaixonada, um otimismo pungentemente dramático, uma explosiva riqueza de imagens (num estilo às vezes sobrecarregado de literatura), e a tensão de um destino repartido entre as repressões puritanas e a heterodoxia sexual que comandava a sua vida.”

A radicalidade do gesto do poeta suicida é tido como fator importante nas análises que se seguem à produção deixada por Crane. Laureano Silveira, no prefácio à edição que tenho em mãos, afirma que “o sentido e a grandiloquência da sua obra poética parecem impregnar-se da força anímica do seu destino”; e mais: “torna-se de súbito claro que há algo de exemplar na radicalidade daquele gesto, o qual, de algum modo, no paradoxo de constituir uma solução para o irresolúvel, se prefigura como impotência transposta, a partir da arte, para a vida”.

Amuleto carbônico

Esse rompimento com a vida, essa busca pela felicidade final e por uma promessa paradisíaca – tudo, enfim, no destino de Hart Crane parece anunciar-nos como se, de fato, para o autor de “A Ponte” o homem fosse “movido pela energia impulsionadora da busca da felicidade e do conhecimento, o que determina a interdependência entre a vida e a arte, levando a que as conquistas ou os reveses de uma inevitavelmente se reflitam na outra” – como um Pio Vargas em Ohio, como neste trecho de “O Carib Isle!”, traduzido por Anderson Lucarezi[v]:

“Que flores de fogo coagulem a luz, levem meu espírito
Crivado céu acima, em branco e preto pelo vento,
Chegando, por fim, até o cômico chefe do paraíso.

Que o viajante não veja a si mesmo por mais uma vez,
Pois a lenta evisceração prende, tal faz com as tartarugas
A cada alvorada, no cais, olhos secos com sal;

– vencidas; trovão sobre aquilo que se é!
E bicos cerrados tossindo por nova maré! 

Escombro do ciclone – Eu, fundido com o fluxo,
Congelado por tardes daqui, setinosas e vagas.
Você me deu a concha, Satã, – amuleto carbônico
Seco no sol explodido no mar”.

Nesses versos finais do imagético poema de Crane o crítico Paul Mariani[vi] viu o furacão (o ciclone) duplicado como num vulcão, relegando o poeta e suas palavras ao estado de meras conchas jogadas numa praia imaginária que geram essa passagem demoníaca”.  

O mesmo “demo de Crane” que Harold Bloom diz ser o poeta americano mais ambicioso de todos, ainda que Walt Whitman venha imediatamente atrás[vii]”. Para Bloom, “o demo de Crane” que se põe ao lado do “Eu real de Whitman” [como] “os portadores da Religião Americana de Emerson: pós-cristã, gnóstica, entusiasta, órfica”.

Para Harold Bloom, “a estatura de Crane é da mesma ordem de William Blake e de Percy Shelley. Trata-se, segundo o crítico americano de uma poesia para ser amada e Bloom pode dizer isso pois começou a lê-la aos dez anos de idade na biblioteca pública. “E quando fiz doze anos, em 11 de julho de 1942, minhas irmãs fizeram uma vaquinha entre elas e me compraram um exemplar de The Collected poems of Hart Crane – o primeiro livro que tive na vida” – confessa Bloom.

E prosseguindo no tom confessional, não poupa elogios a Crane: Hoje começo a escrever este meu adeus a meu poeta favorito entre todos, antigos e modernos. A paixão de um leitor por uma poesia que ele mal entendeu em seu primeiro contato cresceu ao longo de setenta anos, tornando-se um instrumento ou pedra de toque para julgar e apreciar toda a poesia americana”.

Para Bloom, “Crane fundiu deliberadamente seus precursores americanos ao fogo purificador de seu estilo e postura. Whitman, Melville, Dickinson, Poe, Eliot e Stevens se somam a Blake, Shelley, Keats e Hopkins entre seus antepassados vigorosos, bem como Shakespeare, Marlowe, Donne e Rimbaud. Mas tão demônico era o dom de Hart Crane, tão possuído por uma visão do poder da poesia em transformar o eu e o cosmo, que ele pouco se intimidou com essa colossal tradição”.

A filiação à qual não parece haver consenso nenhum entre Mariani e Bloom é a que quer fazer de Crane um discípulo de Emerson. “A Ponte é um poema sobre a Poesia, que questiona a eficácia da linguagem e da metáfora em transformar o pão cotidiano da existência em algo superior. E assim, Crane começa por questionar a ideia de Emerson sobre a correspondência entre a Natureza e o significado” – afirma Mariani, incluindo aí o questionamento à verdadeira natureza do “sentido mais significativo emersoniano em si mesmo” – o que nos ajuda a diferenciar e a questionar as conclusões de Bloom.

E como cristão, Mariani está mais disposto a enxergar na poesia de Crane um cristão “malgré lui même (apesar de si mesmo)”. As visões de Crane são capazes de prover ao leitor que crê: “um grito do Peregrino, uma prece, um pedido, uma busca da eloquência, um desejo de ouvir novamente os ecos do Sublime”.

“Ó Tu que dormes em Ti mesmo, à parte
Como o oceano através dos caminhos da morte e da vida,
E, por entre as brisas redemoinhantes, procuras
Cruel e com o amor a tua parábola de homem,
– Inquisidor! Verbo incognoscível
Do Éden e do agrilhoado Sepulcro,
Nas tuas savanas abruptas, ardentes e azuis,
Na solidão absoluta a vela é fiel.
[…]
De toda aquela amplitude que o tempo explora,
Um agulha sob o olhar, detido o norte,
– Concede, por inferência e exclusão, fé
E verdadeiro encontro do baixio escondido,
Esta disposição que a tua noite descreve
Desde a Lua a Saturno numa roda de safira;
O rasto orbicular dos teus pés outrora rodopiantes,
Elohim, ainda escuto o fragor do teus passos!

Duro e imaculado trabalho dos cíngulos do firmamento, reunindo
Em anéis sagrados o peso de todas as velas para os longínquos
Campos, calmos e luminosos, e para o agitado trigo pendente
Da ciência, – em redor da tua testa agora descoberta
– A Coroa incendiada! aceite pelos pólos
E inclinada pelas velas cheias, os meridianos enrolam
O teu desígnio – ainda uma praia para além do desejo!
As torres gritantes e verdes do mar oscilam, Além

E os reinos
nus
dentro do coração agitado
Te Deum Laudamus
Ó Tu Mão de Fogo[viii].”

Este um poeta pertencente ao Cânone Americano que merece ser lido e relido.

Adalberto de Queiroz, 63, jornalista e poeta. Autor de “O Rio Incontornável”, Editora Mondrongo, 2017.

[i] CRANE, Hart. “A Ponte”. Tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Lisboa (Portugal), Relógio D´Água Editores, 1995, p. 19.

[ii] CRANE, Hart. “A Ponte”. Tradução de Maria de Lourdes Guimarães, Lisboa (Portugal), Relógio D´Água Editores, 1995, 121 páginas.

[iii] Os livros desta coleção da Relógio D´Água podem ser adquiridos, entre outros, no site da Wook, cf. link consultado em 19/06/2018: https://www.wook.pt/destaques/poesia/18017/18017/7328

[iv] SENA, Jorge de. “Poesia do século XX”, citado no metatexto (orelha) do livro citado em i.

[v] CRANE, Hart. Em “Revista Zunái – Revista de poesia e debates” versão online, trad. Anderson Lucarezi, cf. link consultado em 17/06/2018: http://www.revistazunai.com/traducoes/hart_crane.htm

[vi] MARIANI, Paul. “God and the Imagination”. Athens (Georgia): The University of Georgia Press, 2002, 280 pp.

[vii] BLOOM, Harold. “O Cânone Americano: o espírito criativo e a grande literatura”. Tradução: Denise Bottmann. – 1ª. ed. – Rio de Janeiro: Objetiva, 2017, pág. 575; e pág. 487 et passim.

[viii] Do segmento I Ave Maria, op. cit Nota i., pág. 25/27.

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