Haicais: uma arte quase milenar que ainda tem crédito junto a poetas e leitores

Leitores atentos devem viajar pelo universo linguístico do livro “Palavras Trocadas”, do poeta Jonas Pessoa do Nascimento

João Carlos Taveira

Especial para o Jornal Opção

Os haicais de Jonas Pessoa do Nascimento são quase sempre filhos dos de Guilherme de Almeida (1890-1969), mais pela métrica que pelas rimas. O mestre paulista advogava uma arte com o rigor dos parnasianos, em que o poema de origem japonesa se constituísse de uma estrofe de três versos, não podendo ultrapassar dezessete sílabas ao todo, sendo que o primeiro e o terceiro versos tivessem cinco sílabas e o mesmo som; e o segundo, em sete sílabas, com a sonoridade da segunda sílaba reverberando na última. Tudo diferente da forma original.

Jonas Pessoa às vezes contraria essa premissa, embora procure obedecer à metrificação proposta pelo autor de “Acalanto de Bartira” na maioria das peças por ele apresentadas no livro intitulado “Palavras Trocadas”. No fundo, está praticamente em pleno acordo com a forma criada pelos japoneses. Não ao tema proposto por eles. Mas não se pode esquecer que, no Brasil, como sói acontecer, tem havido uma série de modificações na forma e na natureza do haicai ao longo de quase um século.

     “Grávida do nada

          A pátria dá à luz filhos

          Despidos de esperas.”

O livro “Palavras Trocadas” reúne 600 haicais, com diagramação de três poemas em cada página, e perfaz uma enorme quantidade de temas os mais variados, numa demonstração de fôlego e disposição do autor, que condensa, de maneira segura, humor e ironia em seu inusitado jogo de palavras. Por outro lado, sua veia lírica percorre um vasto universo cultural, sem pieguice ou qualquer demonstração de autoindulgência.

          “Em frente ao juiz,

          Preso jaz de mãos atadas,

          Ao ouvir sentença.”

O surgimento do haicai

O haicai surgiu no século XIII. Os primeiros exemplos parecem ter sido escritos por um sacerdote budista e por um sacerdote xintoísta de alta hierarquia. Vale lembrar que esse tipo de poema, originalmente, não tem título, não tem rima e, obrigatoriamente, versa sobre a natureza ou, mais precisamente, sobre uma das estações do ano. Mas, com o tempo e dependendo do lugar onde é cultivado, o haicai não exige tal rigor.

Conforme o crítico Oswaldino Marques, “o haicai é a forma mais sucinta da poemática japonesa. O nome deriva de uma palavra congênere constituída de dois núcleos semânticos equivalentes a ‘inicial’, ‘primeiro’ e ‘hemistíquio’”. E mais adiante, afirma o autor de “A Seta e o Alvo”: “Em que pese a sua brevidade, o haicai é um poema completo em si mesmo. Em seu exíguo espaço, pode projetar uma paisagem ou a subjetividade. Nas mãos de um mestre, não é raro lograr marcas ainda mais altas.”

No seu precioso livro “Em Tom Menor”, Romeu Jobim adverte: “Improcede a assertiva de que o verdadeiro haicai deva ter rimas internas ou de qualquer outra sorte. Quem isso fez, por sinal com felicidade e beleza, foi Guilherme de Almeida. A criatividade do grande poeta, entretanto, não há de importar em que se modifique a estrutura do conciso poema”.

Afrânio Peixoto: introdutor do haicai no Brasil | Foto: Reprodução

Segundo Napoleão Valadares, na introdução de seu livro “Chuvisco”, de 2003, “o introdutor do haicai no Brasil foi Afrânio Peixoto, que no prefácio do seu livro ‘Trovas Brasileiras’, 1919, fez uma apresentação desse tipo de poema. Em ‘Missangas’, 1931, o escritor republicou o mencionado ensaio ‘O Haikai Japonês ou Epigrama Lírico’ e acrescentou um bocado de haicais de sua autoria”. E assim finaliza o autor de “Urucuia” sobre o assunto, demonstrando que, pelo visto, esse tipo de poema veio para ficar: “Já o primeiro a publicar um livro exclusivamente de haicais em nosso país foi Waldomiro Siqueira Júnior, com ‘Hai-kais’, 1933. Daí para cá, publicaram-se dezenas e dezenas de livros do apreciado poema japonês, que hoje está perfeitamente aclimatado no Brasil”.

A trajetória do poeta

Voltemos ao livro “Palavras Trocadas”, que representa a metade da produção literária de Jonas Pessoa. O autor, que já atingiu o sexto volume publicado no espaço de dez anos, me parece disposto a prosseguir em sua trajetória, malgrado as pedras do caminho escolhido. Jonas sabe que o poetar moderno exige discernimento; não basta querer, é preciso conhecer para atingir o objetivo num mundo em que milhões de pessoas lutam desesperadamente em busca de fama e de um lugar ao sol.

Jonas Pessoa: poeta | Foto: Reprodução

Sirva de exemplo um fato que nos será bastante. Nas redes sociais é fácil perceber que todos querem ser artistas, mas poucos conseguirão permanência só pelo despojamento das confissões. A arte é um pouco mais que isso; exige entrega e doação e compromisso. Talvez seja mesmo uma espécie de sacerdócio.

Na verdade, todos nós, leitores atentos, devíamos viajar felizes pelo universo linguístico do livro “Palavras Trocadas”. Em suas páginas são encontrados, sem dificuldade, momentos de entretenimento e puro deleite. De qualquer forma, muitos de nós irão desejar ao seu autor que alcance o devido lugar de destaque no atual cenário da poesia brasileira, e que seja sempre porta-voz de quem ainda procura vencer as dificuldades do seu ofício. O mundo em que vivemos, com todos os aparatos tecnológicos e digitais, tem oscilado, como um pêndulo, entre a real carência de leitores e a virtual abundância de propostas.

Pequena biografia do autor

Jonas Pessoa do Nascimento nasceu no Ceará (Acaraú) e vive em Brasília. É poeta e professor com pós-graduação em Língua Portuguesa. Autor de “O Grito” (2010), “Pedaços da Existência” (2013), “Palavras Trocadas” (2015), “Faces da (In)diferença” (2016), “Lamentos” (2017) e “Chão Partido” (2019), livros lançados na plataforma online Clube de Autores.

Em 1993, foi um dos vencedores do “Salão de Dezembro de Poesia — Prêmio José Sarney”, com o segundo lugar nacional. Tem poemas inseridos em algumas antologias coletivas em detrimento de participações em concursos, menção honrosa, entre outros.

O poeta vem de uma trajetória literária razoavelmente breve, que teve início em 2010. Depois de tentar o soneto, passou pelo haicai e atualmente escreve em versos livres. E é forte militante nas redes sociais onde mantém viva sua página “Poesia da Vida”, que tem boa aceitação junto a seguidores no Brasil, Espanha e Argentina.

João Carlos Taveira, poeta e crítico literário, pertence à Academia Brasiliense de Letras, à Associação Nacional de Escritores e ao Instituto Histórico e Geográfico do Distrito Federal, de que foi vice-presidente. É colaborador do Jornal Opção.

Link para a página do poeta 

https://www.facebook.com/Jonaspessoapoeta/

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