A dificuldade em admitir que o que não acontece, acontece

As Pequenas Mortes é uma sequência de pensamentos dispersos, como se a escrita fosse para si próprio e o leitor tivesse o privilégio de degustar suas experiências

Sarah Cabral
Especial para o Jornal Opção

Se tem algo que a humanidade tem em comum é a maldade dentro de si. É inerente ao homem ter certos lados perversos dentro dele próprio, seja extravasando isso em ações concretas seja guardando dentro de sua imaginação a vontade de fazer, mas que a ordem social o constrange.

No livro “As Pequenas Mortes”, de Wesley Peres (Rocco, 120 páginas), refleti sobre a razão do livro ter atraído minha atenção. Talvez seja o fato de que a cada frase lida me parecia impossível antecipar o que viria a seguir; era como se o livro dialogasse com minha consciência em um fluxo de pensamentos ora desconexos ora organizados no caos que é pensar. Ou seria a abordagem quase irônica, ou até mesmo sincera em que se conta sobre o acidente do Césio 137 em Goiânia?

A história é narrada pelo personagem Felipe Werle, um músico experimental que também leciona em uma universidade. Um culto compositor de música erudita que acredita convictamente que foi contaminado pelo acidente do Césio 137 em 1987 quando contava 12 anos. E, que mesmo passado anos, repete inúmeros exames para confirmar sua contaminação (os quais sempre negativos), pois sente que a morte está à sua espreita. Em uma angústia constante o acidente oscila com sua fixação pela morte, por câncer e por Ana.

Vista como uma mulher objeto, Ana é tida no romance como uma das obsessões de Felipe que, junto as suas abordagens sobre solidão, memórias e as sórdida referências a sexo nos deixam em dúvida sobre a veracidade de suas emoções, de seu estado psicológico e até mesmo de Ana, sobre quem, em certos momentos, nos é noticiado que está na Sibéria, restando a incerteza se de fato esteve sempre na “Sibéria” e na verdade nunca compartilhou um relacionamento com Werle.

Wesley Peres, autor do livro “As Pequenas Mortes” | Foto: Facebook

A experiência estética com o azul da morte é evidenciada no livro como um enfrentamento da memória, a memória da tragédia goiana demonstrada sob um olhar subjetivo de um jovem “sobrevivente” à catástrofe que desenterra o que ficou e permanece no inconsciente da cidade. Algo que muitos sabem, mas que tratam como se não referisse a ninguém que aqui habita, que passa a ser narrada então pelo livro no momento em que a cápsula é aberta, que o “pó mágico” contamina uma criança em sua casa de luz fraca e amarelada, assim como o sonho profano de Felipe com Deus defecando sobre a Catedral de Goiânia como se a divindade estivesse consciente da maldade que iria emanar sobre a cidade.

Com a base de progresso e moderno que Goiânia foi criada, o caos gerado com o Césio 137 dialoga significantemente com a memória abordada no livro. Com o estabelecimento de que memorar algo é uma coisa vivida, mas que não se dá sempre no mesmo lugar na consciência e na percepção, estando assim mantida no inconsciente. Insinua-se então a ideia de que a memória se dá como algo vivo que volta à tona nem sempre da mesma forma ou no mesmo lugar. Fica mais evidenciado ainda essa relação da memória sendo nem muito antiga nem muito nova como a forma que Werle e Ana lidam com a fagulha da contaminação do Césio 137, que ora pra Ana é uma conversa fiada, um delírio e ora para Felipe é uma convicção de que ela ainda permanece, na probabilidade de que muitos que morrem de câncer em Goiânia serem resquícios da catástrofe.

Um outro diálogo existente no livro é a desagradabilidade na figura masculina de Felipe Werle em “As Pequenas Mortes”. Que flerta por meio de um riso quase sarcástico com o leitor ao perceber que ele se identifica com algumas repugnâncias que o personagem traz à tona. A constante necessidade de construir uma identidade de gênero associando ao homem à macheza e a redução das mulheres (no caso de Ana e até mesmo de Camila) a objetos sexuais em que, de forma explícita, expõe a fragilidade do homem. E, de modo repugnante, nos recordamos das próprias perversões do cotidiano, que constantemente são “encapsuladas” dentro de nós como forma de se manter a paz e cordialidade nas relações sociais.

“As Pequenas Mortes” é uma sequência de pensamentos dispersos, um fluxo de consciência do protagonista, como se a escrita fosse para si próprio e o leitor tivesse o privilégio de degustar suas experiências de pensamentos. Se em outros livros procuramos um sentido, um propósito pro enredo, nesse Wesley pensa o que quer e como quer, sem propósito de resolver problema algum. Cria-se assim um espiral de expectativas na leitura e uma consequente frustração por não haver um clímax ou a solução de um questionamento. Mas as 117 páginas ainda que poucas nos envolvem; é como se dialogássemos e participássemos da mente do protagonista que apesar de extremamente metalinguístico, proporciona uma experiencia estética e até mesmo filosófica em suas divagações. Nos fazendo ver em sua tentativa de organizar o caos, de expurgar seus demônios uma reflexão da nossa necessidade em justificar ou gerar sentido, ao invés de apenas aceitar que com obscuridades ou não a vida acontece.

Sarah Cabral é Arquiteta e Urbanista e mestranda em Ciências Sociais e Humanidades pela pós-graduação em Territórios e Expressões Culturais no Cerrado

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