Guillaume Apollinaire, o prazer e a perversão

Em “As onze mil varas”, as excursões do príncipe romeno Mony Vibescu não apresentam novas paisagens, mas levam o leitor sempre para um mesmo destino: à clausura, ao crime e ao sexo

Guillaume Apollinaire, um dos principais vanguardistas europeus | Foto: Divulgação

Dirce Waltrick do Amarante
Especial para o Jornal Opção

Em “Guillaume Apo­lli­naire: Fábula e Lírica” (Editora Unesp, 2003), Silvana Amorim elenca uma série de codinomes usados por Guillaume Apollinaire (1880-1918), pseudônimo, aliás, de Wilhelm Apollinaris de Kos­trowitzky: Guillaume Macabre, Merlim, o encantador apodrecido, o poeta assassinado etc. Segundo a estudiosa, essa obsessão em se renomear “indicaria o impulso permanente de recriar-se” e, de fato, ele se recriava atuando como poeta – cuja poesia dialogava com as pinturas cubistas –, dramaturgo, crítico de arte, conhecido por ter cunhado o termo “surrealismo”, e autor de novelas eróticas à moda de Marquês de Sade, cuja obra o teria influenciado a embarcar nessa outra empreitada literária.

A editora Iluminuras acaba de publicar uma de suas novelas libertinas, “As onze mil va­ras ou os amores de um hospedar”, na tradução de Letícia Coura. Não é a primeira vez que o livro é publicado em por­tuguês, no Brasil, mas ele não poderia faltar na nova co­leção da editora, “à deriva…”, dedicada a obras eróticas.

“As onze mil varas ou os amores de um hospedar” foi publicado em 1907, sob as iniciais “G. A.”. A novela conta a história de um príncipe romeno, Mony Vibescu, um libertino, que troca Bucareste pela vida agitada de Paris: “[…] o belo príncipe Vibescu sonhava com Paris, a Cidade Luz, onde as mulheres, todas belas, levam também, todas, uma vida fácil”. Esse é, de fato, o tema central do livro: os encontros com mulheres e homens de vida fácil ou não; logo nas primeiras páginas, lê-se que, “Chegando à porta do vice-consulado da Sérvia, Mony mijou longamente contra a fachada, e então apertou a campainha. Um albanês vestido com um saiote branco veio abrir-lhe a porta. Rapida­mente o príncipe subiu ao primeiro andar. O vice-cônsul Bandi Fornoski estava completamente nu em seu salão”.

O pano de fundo dessas or­gias são as viagens do príncipe através da Europa e o seu envolvimento numa guerra contra os japoneses: “O cerco de Porto Arthur havia começado. Mony e seu ordenança Cornaboeux estavam presos ali com as tropas do bravo Stoessel. Enquanto os japoneses tentavam forçar a mu­ralha fortificada com fios de fer­ro, os defensores da praça de guer­ra consolavam-se dos tiros de ca­nhão que ameaçavam matá-los a cada instante frequentando assiduamente os cafés dançantes e os bordéis que ainda estavam abertos”.

As onze mil varas ou os hamores de um hospedar
Autor: Guillaume Apollinaire
Páginas: 144
Editora: Iluminuras

As viagens narradas por Apollinaire são, a meu ver, semelhantes às viagens da ficção de Sade, ou seja, elas nada ensinam, como afirmou Roland Barthes a respeito das viagens sadianas. Em “As onze mil varas”, as excursões do príncipe romeno não apresentam novas paisagens, mas le­vam o leitor, sempre para um mesmo destino: à clausura, ao crime e ao sexo. Além disso, assim como as viagens das personagens de Sade, as viagens relatadas por Apollinaire não são iniciáticas, pois essas acarretam a passagem de uma condição para outra, contudo, nem as viagens de Sade nem as de Apollinaire propiciam tal transformação, uma vez que o sujeito é sempre o mesmo, ele não se modifica, segue interessado somente em sexo. No caso das personagens de “As onze mil varas”, não importa por onde tenham andado, suas naturezas libidinosas permanecem as mesmas e só as orgias importam, estejam onde estiverem.
Nas aventuras do príncipe Mony, ganham destaque as cenas de sexo inusitadas, muitas delas repugnantes, pois misturam escatologia, necrofilia etc.: “Então abriu caminho à sua ferocidade natural. Suas mãos arrancaram tufo por tufo os cabelos loiros da morta. Seus dentes rasgaram as costas de uma brancura polar, e o sangue vermelho que jorrou, logo coagulado, parecia estar esparramado sobre a neve”. As personagens de Apollinaire são as típicas personagens dos contos eróticos sadianos, buscam o prazer a qualquer custo, nem que para isso tenham que matar ou morrer.

Dirce Waltrick do Amarante é tradutora e escritora

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