Gota a gota

“Pensava na estupidez que havia sido voltar àquele café. Era tudo mais do mesmo, nada mudara, e esse era o problema”

Imagem: Pixabay

Era como um marcador de tempo. Cada vez que a gota de café aterrissava do coador à xícara, era menos um pingo de tempo que me faltava ali. Despreocupada, no entanto, parecia inerte ao admirar a frequência disciplinar com que o café gotejava naquela caneca hipster com mini-coador acima. Contudo, a expressão sóbria e distraída não era motivada só por aquilo.

Pensava na estupidez que havia sido voltar àquele café. Era tudo mais do mesmo, nada mudara, e esse era o problema. As prateleiras de design bonito, empanturradas de livros que ninguém lia eram iguais às de antes. As lâmpadas estilosas da última moda também estavam ali, como sempre, embora não fossem a questão. O atendimento ruim também continuava o mesmo, o croissant massudo e sem graça, idem, o café sem gosto (adivinha), mais insosso que nunca. Era incrível como, ainda assim, permanecia lotado.

O público de meninos e meninas de blusão ainda ia com a mesma intensidade e quantidade. Acho que era isso que mais me irritava, mas não conseguia me lembrar por quê. Saídos de sua escola cara, com curso intensivo para o Enem, batiam ponto todos os dias no café, depois da aula, antes, durante, quem vai saber? Uniformizados, alguns dos adolescentes iam apenas para estudar; outros, jogar conversa fora, fumar um cigarro, tocar “Pais e filhos” no violão.
Era incrível o tanto que se achavam descolados e eu, do alto dos meus 24 anos, me achava, talvez, madura demais para aquilo. Lembrava da minha própria adolescência e enfurecia ainda mais quando pensava que o dinheiro que eu tinha dava só para comprar o café da escola e olhe lá. Era isso, a preguiça que sentia daquele ambiente havia me tomado de maneira irracional. Qualquer movimento de qualquer garoto uniformizado era motivo para eu revirar os olhos. Era inevitável.

A mesma preguiça não me deixava levantar e sair. Permanecia inebriada pelo pinga-pinga do resto de água que se juntava à borra de café no coador. Vi o Sol se pôr e o dia escurecer. Quase no mesmo instante em que o céu se transformava em azul escuro, me lembrei de mais um elemento que não havia mudado na rotina daquele lugar. Só esse, no entanto, foi capaz de me tirar da hipnose e da raiva e me levar à realidade e à dor.

Entrava, no horário de sempre, o menino de camiseta regata, bermuda desgastada e chinelo para pedir uma ajuda. Acompanhado de crianças menores, caminhava entre as mesas na parte descoberta do estabelecimento pedindo, a um e outro, um trocado. Alguns lhe davam uma moeda, outros fingiam que não viam; outros diziam que não tinham nada e pediam desculpas; alguns, nem isso, só lhe davam com a mão um sinal de que deviam sair. Havia ainda aqueles que perguntavam o que eles queriam comer e lhes compravam alguma coisa.

Fiquei observando aquilo até que, antes que chegassem a mim, pararam em frente a um garoto que eu era acostumada a ver por ali. Sempre com seus muitos livros amontoados, mal olhava por cima dos óculos quando o garçom lhe ia servir. Ele, no entanto, olhou para o garoto e as crianças. Deu-lhe umas notas de dinheiro que, de longe, eu diria que somavam uns nove reais. As crianças agradeceram, ele fez uma piadinha qualquer que não consegui ouvir e a frase final: “Não comprem drogas”. O mesmo garoto que, por diversas vezes, vi na esquina fumando um ‘beck’ com seus colegas da escola particular, comprado, provavelmente, com o dinheiro da mesada que ganhara, dizia para os meninos de rua, que nem sabiam o que era mesada, para não usarem drogas.

Era cômico se não fosse trágico. Minha indignação com aquele ambiente e aquelas pessoas aumentava. Mal percebia que, para aqueles meninos, pouco importava o que lhes tinham dito. O importante é que haviam conseguido alguma ajuda – para bancar um café, para sustentar a família, não se sabe. Pouco deveria significar, também, para quem ajuda.

A alegria das crianças me fez perceber o quão inútil e elitista era minha raiva também, do alto do meu privilégio de quem senta em um café para gastar dinheiro com produto ruim. Depois de terminar a ronda, eles saíam correndo e pulando dali. A galera do uniforme caro continuava o que estava fazendo. Eu saía do estado inerte, marcado por gotas na xícara, e deixava o estabelecimento com a cabeça cheia de pensamentos atropelados.

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